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A Primeira Noite de Tranquilidade

11.12.2017 - 09:00:00
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Goiânia – No princípio de A Primeira Noite de Tranquilidade (1972), de Valerio Zurlini, há uma cena tocante que apresenta o professor Daniele Dominici (Alain Delon) andando à beira mar meio que perdido, com o olhar distante, sentindo-se deslocado, sem pertencimento a qualquer parte do mundo. O mar está exaltado, a paisagem demonstra-se nuviosa, sendo que esta pode ser aludida a uma espécie de espelho que reflete o âmago de seu personagem. De uma profunda melancolia, palavra esta que é como um sinônimo para o seu diretor, que traduz como ninguém este sentimento de modo poético por meio de um lirismo encantador.
 
A dor existe e passar por esta vida sem sofrer é realmente impossível. Viver é sofrer, mas também é buscar um refúgio que serene o banzo indefectível da existência humana. O amor nasce como uma mola propulsora com vistas a trazer os personagens em estado de letargia de volta à vida. O vazio existencial parece uma tônica constante do qual é difícil escapar, mas a capacidade humana de se reinventar, de buscar forças para continuar, de seguir em frente por meio de um magnânimo sentimento é notório, mesmo que nem sempre seja tangível. 
 
Dominici vive um casamento frustrado com Monica, mas quando conhece a fascinante e melancólica Vanina Vanini de uma beleza descomunal (Sonia Petrova) irrompe um vendaval de paixões entre ambos tal qual ocorre em Boda Branca (1989), de Jean-Claude Brisseau. Este relacionamento é consubstancial para que os personagens despertem ante o marasmo pelo qual suas vidas estão atoladas. Ela namora um playboy que a trata mal e que não se importa com os seus sentimentos. Para aplacar a dor, somente o amor.
 
Este sentimento é necessário aos personagens para que se ascendam a uma condição que os retirem da apatia em que vivem, pois a sobrevivência pura e simples não basta, é preciso alcançar desesperadamente um amor que sirva como fio condutor à felicidade. Uma película dura, que demonstra uma impassibilidade inerente aos personagens, que carrega uma profunda reflexão sobre a existência humana e seus dilemas. A vida é um sopro e atingir a tranquilidade que está presente no título do filme nem sempre é possível.  
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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