Logo

70 anos da maior descoberta arqueológica bíblica: Manuscritos do Mar Morto

WhatsAppFacebookLinkedInX
04.12.2017 - 08:35:13
São Paulo – O título não é um exagero. Os famosos manuscritos da Bíblia Hebraica são de fato a mais importante descoberta que a arqueologia fez no século 20. Sua importância desafia qualquer descrição.
 
Tudo começou há 70 anos. Um pouco antes do renascimento do Estado de Israel, quando a região da Judeia estava sob o governo britânico, depois dos quatro séculos de domínio turco otomano. Os primeiros manuscritos do mar Morto (MMM) foram achados por acaso numa caverna, nas encostas rochosas do deserto da Judeia, em março de 1947, por dois pastores beduínos que procuravam uma cabra perdida. Na região desértica ao norte do mar Morto foram encontrados jarros com manuscritos de diversos livros sagrados de uma comunidade de judeus que se denominavam Yahad, que muitos entenderam serem os mesmos essênios mencionados em fontes como Josefo, Filo e Plínio, o Velho. Era uma comunidade que havia rompido com o templo de Jerusalém, que vivia em purificação no deserto, preparando-se para o tempo do fim, para a luta final contra os ímpios.
 
A descoberta única foi oficialmente confirmada pelo arqueólogo Eleazar Sukenik, em 29 de novembro de 1947, quando a ONU votou em favor da criação do Estado de Israel. São 70 anos da descoberta.
 
A princípio foram encontrados alguns pergaminhos numa primeira caverna, mas, posteriormente, muitos outros manuscritos foram achados em diversas outras cavernas. Todo o material encontrado, incluindo outros artefatos, foi datado desde o III séc. aC até o ano 68 AD. A maioria estava em Cunrã, mas também foram achados textos em Wadi Murabba’t, Wadi Daliyeh, Massada e nas cavernas de Nahal Hever e Se’elim.
 
O histórico dos achados pode ser aqui resumido:
 
– Nas cavernas de Cunrã. Os manuscritos descobertos estavam em onze cavernas (ou grutas);
 
– Na Caverna 1 (1Q) foram achados o Grande Manuscrito de Isaías (1QIs), a Ordem da Comunidade, Hinos de Gratidão, a Ordem da Guerra dos Filhos da Luz (comentário de Habacuque) até 1947. Em 1949 foram encontrados cerca de outros 70 fragmentos;
 
– Nas Cavernas 2, 5, 6, 7, 8, 9 e 10 havia apenas fragmentos de mais de 130 manuscritos;
 
– Em 1952, a Caverna 3 trouxe a surpresa do achado do grande manuscrito de cobre, com uma lista dos tesouros do templo e de seus lugares;
 
– Já na Caverna 4 as descobertas chamaram a atenção. Foram encontrados em 1952 cerca de 400 manuscritos, sendo 100 deles manuscritos bíblicos. Com poucas exceções (Estes, Esdras, Neemias, Cântico dos Cânticos), todos os livros da Bíblia Hebraica estavam representados, além de haver também muito material apócrifo e pseudepigráfico;
 
– Em 1956 a Caverna 11 mostrou-se rica em material muito bem preservado. Entre os manuscritos estava o livro de Salmos, o livro de Jó em aramaico, Levítico (na escrita antiga) e muitos fragmentos. E, em 1967 foi achado o Manuscrito do Templo (o mais extenso de todos).
 
 
Em Wadi Murabba’at. A 17 km ao sul de Cumrã, duas cavernas revelaram seus achados em 1951-52. Além dos manuscritos ligados ao exército do Bar Kochba (c. 130 dC), foi encontrado um manuscrito com o texto dos doze profetas menores quase idêntico ao que conhecíamos.
 
Em Wadi Daliyeh. Nesse local, perto de Jericó, não foi encontrado nada tão relevante. Destacam-se alguns papiros samaritanos (em escrita antiga) entre os cerca de 40 manuscritos achados em 1962-64.
 
Em Massada. Em 1963-65, foi achado um manuscrito de Eclesiástico em hebraico e fragmentos de Salmos, Levítico, Gênesis, e o Manuscrito dos Cânticos do Sacrifício do Shabat.
 
Em Nahal Hever e Se’elim. Nessas cavernas ao sul de En-Gedi havia muito material sobre Bar Kochba e alguns manuscritos bíblicos. Destaca-se a tradução grega dos Profetas Menores. Foram achados entre 1952-1961.
 
O significado das descobertas é por demais relevante para o estudo da Bíblia. Afinal, antes da descoberta dos MMM, a mais antiga cópia da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) era o texto de Ben Asher, arquivado em São Petesburgo e datado do ano 1008 AD. Esse é o Texto Massorético padrão, base da Bíblia Hebraica de Kittel, e da Biblia Hebraica Stuttgartensia, base de todas as versões da Bíblia. Portanto, os manuscritos bíblicos achados são pelo menos mil anos mais antigos do que o Texto Massorético tradicional que tínhamos à disposição.
 
É muito difícil preservar textos antigos por tanto tempo. Os estudiosos da crítica textual sabem muito bem disso. Os MMM confirmam que o Texto Massorético foi preservado. Os MMM contêm manuscritos bíblicos muito bem preservados, manuscritos bíblicos diferentes do TM (ou corrompidos) e também material religioso próprio da comunidade local. Não se pode esquecer que o comum é esperar um manuscrito corrompido (especialmente com mil de diferença de outro). Todavia, ficou claro que o número de manuscritos muito próximos ao Texto Massorético é surpreendente e revela uma preservação de texto sem precedentes na história. Alguns manuscritos, porém, possuem semelhanças maiores com a Septuaginta. Isso tem enriquecido muito o campo da crítica textual, e deu maior valor à versão grega da Bíblia Hebraico. Além disso, os MMM têm sido úteis aos estudiosos na solução de difíceis problemas de tradução de passagens difíceis da Bíblia Hebraica.
 
Deve ser ressaltado, que essas descobertas revelaram o zelo e cuidado meticuloso dos escribas judeus para com os manuscritos bíblicos. Isso explica porque o texto foi tão bem preservado. É também impressionante saber que os pergaminhos ficaram “guardados” por dois mil anos sem serem destruídos, numa região tão disputada e marcada por conflitos históricos. Finalmente, deve ser dito que as versões bíblicas publicadas antes de 1947 não contam com toda essa riqueza dos MMM. Por isso, versões bíblicas precisam ser revisadas e realinhadas com o resultado das pesquisas atuais.
 

*Luiz Sayão é pastor, teólogo e hebraísta da Igreja Batista Nações Unidas (São Paulo-SP)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Luiz Sayão

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]