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O Desprezo

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11.09.2017 - 08:59:55
 
Goiânia – O radicalismo formal de Jean-Luc Godard marca uma era extremamente ousada em um dos períodos mais férteis da história cinematográfica. Em O Desprezo (1963), uma de suas obras mais icônicas, promove uma ruptura com padrões pré-estabelecidos desde os créditos iniciais em que os caracteres habituais são substituídos pela voz do diretor para apresentar o elenco da película; em seguida há uma frase de André Bazin, crítico emblemático de cinema, citada pela voz do próprio Godard: “O cinema substitui um mundo por outro mais em harmonia com nossos desejos”. Esta reflexão é o eixo primordial que sustenta a narrativa e confirmada pelo próprio diretor que afirma que “esta é a história deste mundo”.
 
Após os créditos, o casal Paul (Michel Piccoli) e Camille (Brigitte Bardot) é apresentado. Bardot, sex symbol da época, está nua logo no princípio, o que denota um convite à intimidade do casal.  Paul é um roteirista que está na Itália, próximo ao aclamado estúdio Cinecittà, para desenvolver um novo projeto que consiste em uma adaptação da obra literária Ulisses, de Homero, à linguagem cinematográfica, cuja direção ficará a cargo do lendário Fritz Lang (interpretado por ele próprio) – puro exercício de metalinguagem -, com a produção de Jeremy Prokosch (Jack Palance). Jeremy representa o arquétipo do produtor da indústria hollywoodiana, a despeito do desejo de liberdade do diretor em favor de seu amor à arte, produtor é a personificação da avareza. Para ele, o cinema pouco importa.
 
Enquanto o relacionamento do casal se desmorona, há uma sequência antológica durante uma discussão entre Paul e Camile. A câmera alterna entre um e outro à medida em que os diálogos fluem no apartamento, um ambiente claustrofóbico que induz a uma ideia de sufocamento embevecido por uma canção dramática que parece prenunciar o término do relacionamento. A distância emocional e a frieza soam como um realismo impressionante, causando uma ilusão de que, de fato, presencia-se um evento do cotidiano, real, sem truques ou maquiagens, tamanho o sentimento e a química entre o casal.
 
Em Viagem à Itália (1954), de Roberto Rossellini, é tecido um painel de sensações cujo mote é a dissolução de um casal em viagem a Capri e suas ruínas, museus que evocam o passado e cuja jornada dialoga, certeiramente, com a película de Godard. O próprio cartaz com a obra-prima de Rossellini está em exibição em uma sala de cinema durante a projeção do filme do Godard. Aliás, o longa-metragem de Godard é todo um arcabouço de referências cinematográficas, passando de Howard Hawks a Ingmar Bergman. Possivelmente, O Desprezo e Viagem a Itália representam o que há de mais belo na história cinematográfica no que se refere a casais em crise.
 
A direção de Godard é, extremamente, sofisticada e a fotografia de Raoul Coutard, deslumbrante. A mola propulsora de seu cinema é composta por um desejo irrefreável por uma identidade, de uma autoralidade em detrimento ao establishment. Godard tece uma crítica mordaz ao cinema comercial que se preocupa exclusivamente em abarrotar as salas com filmes anódinos. A narrativa tradicional é posta em xeque por um Godard subversivo, ávido por navegar em outros mares e calcar seu nome no panteão dos grandes realizadores. O Desprezo crava seu nome, indubitavelmente, como uma pedra angular na história cinematográfica e justifica todo o apreço de culto ao seu nome.
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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