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O Estranho Que Nós Amamos

21.08.2017 - 08:40:14
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Goiânia – Na contramão dos faroestes, principalmente a estupenda trilogia dos dólares, de Sergio Leone, que renderam a Clint Eastwood os louros e alavancaram sua popularidade, o renomado ator e diretor, em parceria com o grande mestre Don Siegel, enveredou-se em uma obra composta por pinceladas que se distanciam daquelas que o imortalizaram. O Estranho Que Nós Amamos (1971), possivelmente, o momento mais retumbante na carreira de Siegel, pode não gozar do mesmo reconhecimento de outras pérolas da carreira de Clint, mas é tão contundente quanto seus melhores trabalhos que gozam de mais reconhecimento.
 
O contexto da trama se passa durante a guerra de secessão, um período obscuro na história americana regado à brutalidade inerente ao ignóbil conflito responsável pela separação entre o norte e o sul. No princípio, há traços de filme de guerra quando John ‘McBee’ (Clint Eastwood), um soldado americano, é encontrado por Amy (Pamelyn Ferdin), uma criança de 13 anos que vive em uma escola para garotas. Ao ser auxiliado pela garota, e ao saber de sua idade, John afirma-lhe que ela já tem idade suficiente para ser beijada, e lhe tasca um beijo. Uma cena ousada e impensada nos dias atuais em que impera o politicamente correto. Os traços referidos logo conferem uma vertente que se contrapõe e insere elementos que remontam a um thriller psicológico com alto teor emocional que expõe rusgas, ciúmes e trazem à tona sentimentos reprimidos por um pulsante desejo sexual provocado por um corpo estranho no recinto.
 
O cenário circunspeto por paisagens abertas ganha ares claustrofóbicos a partir do instante em que McBee é levado para se recuperar na escola das garotas. Há uma tensão pulsante cuja presença do soldado desperta nas donzelas sentimentos que até então estavam reprimidos. O personagem é bruto, mas muito atraente, o que desperta o desejo nas mulheres daquele local. Carol (Jo Ann Harris), uma bela adolescente de 17 anos atirada e de comportamento dúbio, apresenta-se a John, acamado, com um beijo na boca. Uma cena que carrega um denso erotismo.
 
O rígido código moral ao qual as mulheres estão submetidas naquela escola é violado com a presença daquele corpo estranho, uma espécie de um objeto obscuro de desejo, que acarretará um jogo entre sentimentos e manipulações inerentes à condição humana. A diretora Farnsworth (Geraldine Page) e a professora Edwina (Elizabeth Hartman) – cuja força do hábito é desconfiar dos homens – também mergulham de cabeça em um relacionamento obsessivo com McBee. Há uma cena inesquecível e onírica em que a diretora se imagina em um ménage à trois por meio de uma composição deslumbrante e repleta de sensualidade em que deságua em um beijo lésbico com as imagens se imiscuindo em uma belíssima pintura num quadro da escola.
 
Uma cena audaciosa para a época e que remete à de Triângulo Feminino (1968), dirigido por Robert Aldrich, certamente o primeiro grande filme a abordar de modo extremamente ousado o lesbianismo. É possível aludir ainda a Teorema (1968), clássico de Pier Paolo Pasolini, em que um corpo estranho abalará, inequivocamente, as vidas de todos. A sedução norteia a obra de Don Siegel e promove uma teia de desejos, traições, manipulações e uma volúpia imanente e com fortes tintas que eclodem em violência. É uma representação das contradições e atitudes desprezíveis pelas quais o ser humano é capaz de praticar, inclusive a doce e jovem Amy de feições angelicais, que em um acesso de fúria promove um dos atos mais torpes da narrativa, mas tudo envolto a uma beleza pontuada por uma belíssima fotografia e uma sensualidade impressionante. A guerra está dentro de casa.

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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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