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Morte em Veneza

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08.08.2017 - 08:51:41
Goiânia – Há uma intensa relação na confluência entre a linguagem cinematográfica e literária ao longo da história da sétima arte. A profusão dos adjetivos inexoráveis ao cinema o permite englobar todas as demais que subsidiam na confecção fílmica como manancial a fim de estabelecer um elo entre as mais díspares formas artísticas. Grandes mestres valeram-se da literatura para erigir obras memoráveis devido à incrível faculdade de mesclar as linguagens bem como o opulento material proporcionado por grandes escritores. Orson Welles, Manoel de Oliveira, Stanley Kubrick, Jacques Rivette, Robert Bresson, Akira Kurosawa e, principalmente, Luchino Visconti, sobretudo a adaptação de Morte em Veneza, do escritor Thomas Mann.
 
A transposição da obra por Visconti realizada em 1971 é um triunfo de um diretor em êxtase, em estado de graça cuja fertilidade ressoa aos quatro cantos. Não se perde a qualidade intrínseca ao cinema e à literatura, pelo contrário, as duas se convergem e se conversam em uma obra pululante cuja materialização do modelo ideal de beleza irrompe de um singelo, andrógino e doce rosto angelical de Tadzio – a personificação da pureza -, personagem que exercerá um fascínio por parte de Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde em atuação magistral), um regente em viagem a Veneza. A escrita de Mann, por vezes, é suplantada pelo poderio que a imagem cinematográfica confere, todavia sua essência permanece intacta.
 
Aschenbach visitou a cidade para buscar um alívio à crise existencial da qual tanto o afetava. O encontro com Tadzio o enlouquece completamente. A cena em que o evento ocorre pela primeira vez durante o jantar no salão do hotel é um assombro e representa um dos ápices na história desta arte. A composição da cena e o poder das imagens que evocam traços da pintura são arrebatadoras, constituídas por um travelling com o ponto de vista do regente que adentra o salão até o seu olhar se fixar em Tadzio. Durante sua visita, a bela Veneza se deteriora aos poucos devido a uma epidemia de cólera que a assola e a decadência é burilada de forma estrondosa, hipnótica e melancólica como o próprio diretor já havia realizado em outras obras e por outros grandes diretores como Fellini, Zurlini ou Fassbinder.
 
A relação entre os personagens se restringe à troca de olhares. Tadzio exerce uma fascinação tentadora sobre o regente. A paixão incontrolável pela arte e pela vida retratadas de forma sublime, a abundância de sentimentos deflagra paixões que fomentam a criação artística em busca de sua obra-prima. Sua jornada espiritual e física abre um leque de possibilidades motivado pelo ávido desejo de criação, tal qual ocorre em 8 ½ (1963), de Fellini, que versa sobre um personagem em crise criativa. A necessidade de driblar a morte e legar à humanidade uma obra perene, a busca incessante pela perfeição artística que nem sempre é alcançável, mas que se torna uma luta contínua para a confecção de uma obra-prima é um desafio a qualquer artista. Visconti extrapola a condição fílmica e realiza um genuíno milagre.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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