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Domingo de Ramos

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10.04.2017 - 11:45:58
 
Goiânia – Quem eram aqueles que aclamavam Jesus na entrada de Jerusalém? Aqueles que, com os seus ramos de oliveira, gritavam "Hosana, hosana ao filho de Davi"? Quem eram os que festejavam sua história? O Nazareno que falava sobre o amor, que não tinha preconceitos, que conversava com as crianças, que acolhia as mulheres, que não tinha nojo dos leprosos? Aquele que ensinava em parábolas?
 
Havia razões para comemorar a sua chegada. Ele desassossegava as pessoas com sua capacidade de ensinar o amor e seus afluentes. Do rio precioso, saíam outros necessários como o perdão, a misericórdia, a compaixão.
 
Teve Jesus compaixão por aquela mulher que, por pouco, não fora apedrejada. Chorou com os choros das irmãs de Lázaro. Compreendeu a dor da viúva de Naim. Era um cortejo de lágrimas que saía da cidade quando ele chegava com o cortejo da esperança. E a mãe pôde abraçar novamente o seu filho. Devolveu alegria aos noivos de Caná da Galiléia. Explicou que os humilhados serão exaltados e que os humilhadores não encontrarão a paz.
 
Entrava esse homem em Jerusalém e o povo tinha razões de sobra para aplaudi-lo. Mas o que houve depois? O mesmo homem foi humilhado, açoitado, despido de sua dignidade em um calvário de abandonos. Os gritos eram outros. Queriam o seu fim. Não toleravam mais a presença de alguém tão bom. Era preciso jogar sobre ele todos os ódios que estavam acumulados.
 
Ele representava algum perigo? Decidiram que “sim”. Em uma guerra de comunicação, convenceram os que o receberam com aplausos a cerrar os punhos e lançar sobre Jesus suas ausências. Nada de misericórdia ou compaixão. Nem a dor da mãe que encontra o filho ensanguentado parecia comovê-los. Até os amigos tiveram medo e o negaram. A cruz seria o seu destino. Antes um governante lavou as mãos. Antes uns religiosos justificaram os horrores em nome de Deus.
 
Usar o nome de Deus para matar é correto? Quem decide o que é o correto? Mas e o povo? O povo que o aclamava com alegria? Mudou de lado. Um cisco entrou em seus olhos e já não mais enxergavam. O ódio tem esse poder. O poder de não nos deixar ver. E o pregador do amor caminhava para ser pregado na cruz.
 
E a história se repete. É o início de mais uma Semana Santa. As cerimônias são plenas de ensinamentos e instigações. Quem estamos crucificando hoje? Quem estamos abandonando? Ontem, os entusiasmos diante da possibilidade do poder. Hoje, o abandono.
 
O jovem pregador do amor não reagiu aos odientos ataques. Não era esse o seu tema de vida. Seguiu ciente de que o tempo haveria de rasgar o véu da ignorância que cegou aquela gente.
 
O que nos cega hoje? Dizeres malditos que nos convencem a matar? A morte na cruz não está prevista em nosso sistema jurídico. Mas e as cruzes que obrigamos o outro a carregar? Houve justiça com Jesus? Justiça injusta aquela. Filha da mentira divulgada. Filha do medo de um amor revelador.
 
Políticos e religiosos, legalistas e moralistas estavam todos do mesmo lado. Divulgadores de falsidades, também. E, do lado certo, estava Ele. Entrando em Jerusalém. Partilhando o pão. Lavando os pés dos Seus amigos. Orando por paz.
 
Os nomes dos que gritavam pedindo Sua morte não ficaram registrados nas história. O Dele ficou. O menino de Nazaré, o filho de Maria e do carpinteiro José, o inaugurador de uma nova forma de falar com Deus, de falar de Deus.
 
Que essa semana nos santifique. Os ciclos se repetem. Os de ódio e os de amor.
 
Quando olhamos os ódios do passado, os tiranos, os injustos, os mentirosos, certamente, lamentamos. Mas e quando reproduzimos esses mal comportamentos? Há alguns que tiveram o poder e mataram milhares ou milhões. Há outros que matam esperanças dentro de casa, que desperdiçam infâncias, que agridem mulheres, que roubam a alegria. Que tiram a paz dos que encontram nas tantas esquinas que há por aí. Há os que crucificam na primeira informação e há os que conversam com o tempo para compreender.
 
No domingo que vem, é Páscoa. Um outro dia. Um outro artigo. Um outro raio de esperança a nos dizer que é a vida a vitoriosa.
 
Que seja uma semana de vida, para todos nós, imperfeitos, errantes, ávidos por alguma luz. A luz está na cruz, mas sairá dela para viver nas consciências que se abrirem, como se abriu aquele túmulo, mostrando que a morte não poderia matar o amor. 
 
 
*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.
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por Gabriel Chalita

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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