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A sacralidade da arte de Tarkovski

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06.03.2017 - 09:18:00
 
Goiânia – Samuel Fuller – um dos meus diretores de cabeceira – dizia que 95% dos filmes existem por motivos meramente comerciais. Os outros 5% porque alguém tinha algo a dizer e disse. Andrei Tarkovski, um dos gigantes da história, faz parte deste panteão. Dono de sua própria verdade, seu cinema é imbuído por idiossincrasias com as quais é impossível ficar indiferente.
 
Há quem encare o cinema somente como veículo para entretenimento, o que é lamentável. É claro que este viés é importante e solidifica esta arte perante o público. Todavia, esta visão míope faz com que o espectador se afaste dos 5% mencionados anteriormente, fatia que se concentra a maior parte dos grandes filmes.
 
É impossível sobreviver ao cinema de Tarkovski incólume, para o bem ou para o mal. Para se debruçar em sua curta filmografia, antes de mais nada, é necessário despir-se de todo e qualquer pré-conceito, bem como uma ávida disposição para se aventurar no novo, no desconhecido, naquele tipo de filme que não é muito propagado, que pode exaurir o espectador acostumado com o cinema mais comercial. Entretanto, a recompensa virá ao término da sessão. 
 
"Andrei Tarkovski é para mim o maior, o homem que criou uma nova linguagem, fiel à natureza do filme como espelho da vida, e da vida como um sonho." As referidas palavras foram proferidas por ninguém menos do que Ingmar Bergman, a quem Woody Allen, por sua vez, reputa como o maior de todos. Tarkovski é um gênio na acepção do termo, que por vezes é tão banalizado perante público e crítica. Bergman exerceu influência na obra do russo, e a admiração dos dois diretores era recíproca.
 
A filmografia de Tarkovski é composta por dois curtas-metragens, um média e sete longas e é, extremamente, contundente. O nível de excelência é gritante, e não há um filme sequer abaixo de excelente. Um trecho do seu livro Esculpir o Tempo resume seus procedimentos e métodos: "Nenhuma mise-en-scène tem o direito de se repetir, da mesma forma que duas personalidades jamais serão idênticas. Assim que uma mise-en-scène transformar-se num signo, num clichê, num conceito (por mais originais que possam ser), a coisa toda – personagens, situações, psicologia – torna-se falsa e artificial." 
 
Os longos planos-sequência muito bem elaborados envoltos em esplendorosas fotografias, atrelados a uma elegância impressionante na composição das imagens, fazem com que cada frame se pareça com um quadro em movimento, e me remete a Kenji Mizoguchi, um outro esteta visual de preciosa sensibilidade. Seu estilo indefectível influenciou dezenas de cineastas como Sergei Parajanov – seu contemporâneo -, Béla Tarr, Alexander Sokurov, Theo Angelopoulos, Claire Denis, Sharunas Bartas, Terrence Malick, e até em mesmo filmes de grande repercussão como O Regresso (2015), de Iñarritu.
 
Tal como em Bergman, o existencialismo margeia sua obra e temas como memória, infância e espiritualidade são recorrentes em sua portentosa filmografia. Os traços, fortemente, oníricos presentes em O Espelho (1975) remontam-me a Amarcord (1973), de Federico Fellini. Duas das mais belas radiografias acerca da infância, mas com estilos diametralmente opostos. 
 
Stalker (1979) é, provavelmente, sua obra-prima máxima e promove uma reflexão magnânima sobre o homem e seus dilemas intrínsecos à sua condição humana. Dotada de uma densidade e profundidade simbólica incomparáveis. Uma ficção científica singular, diferente de tudo, que se traveste de um gênero para mergulhar no âmago do ser humano. Solaris (1972), parece-me ser a resposta de Tarkovski para 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.
 
A sacralidade da arte nunca fora tão bem burilada como em Andrei Rublev (1966). Mesmo em uma época permeada pela violência à qual o povo russo foi submetido durante a invasão mongol na idade média. É como uma prece que transpõe a visceralidade do conflito e o profundo desejo de transcendência. A redenção e a fé na humanidade representadas pelo encontro entre os dois artistas protagonistas e pontuadas pela mágica sequência final que irrompe lindamente no ecrã, e que parece redimir todos os pecados humanos. Cinema contemplativo que emana uma partícula de luz em um oceano de sombras; para ser visto ajoelhado.
 
Top 7 – Andrei Tarkovski (somente longas)
 
1. Stalker (1979)
2. Andrei Rublev (Andrey Rublyov, 1966)
3. O Sacrifício (Offret, 1986)
4. O Espelho (Zerkalo, 1975)
5. Nostalgia (Nostalghia, 1983)
6. Solaris (Solyaris, 1972)
7. A Infância de Ivan (Ivanovo Detstvo, 1962)
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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