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Toni Erdmann ou Pai e Filha

20.02.2017 - 08:20:36
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Goiânia – O novo cinema alemão, movimento surgido na década de 60 e que se alavancou na década seguinte, legou à história diretores como Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog, Wim Wenders, Hans-Jürgen Syberberg e Werner Schroeter, e propulsionou descomunalmente o alcance do cinema promovendo grandes filmes de inegável contribuição para a sétima arte. Inspirado pela Nouvelle Vague, há quem afirme que este movimento descende do Cinema Novo brasileiro.
 
Não sei se é uma lacuna que possuo, mas não me recordo de posteriormente a este período mencionado, ter brotado uma geração talentosa para colocar o cinema alemão no seu devido lugar de destaque. Christian Petzold, diretor e roteirista surgido no final da década de 90, após um longo hiato, fez-me voltar os olhos ao cinema daquele país com um interesse que parecia relegado ao período do movimento em questão e ao glorioso expressionismo alemão dos primórdios do cinema.
 
Eis que surge Maren Ade, jovem diretora que me arrebatou completamente com Toni Erdmann (2016), por meio de uma direção competente e uma mise-en-scène extremamente acurada. O longa essencial está na programação da décima edição da mostra O Amor, a Morte e as Paixões. Este foi meu primeiro contato com sua obra e assistir aos seus filmes predecessores se tornou uma obrigação, no bom sentido, é claro. A narrativa aborda a relação entre pai e filha, mote que me remete a uma das grandes obras-primas de Yasujiro Ozu.
 
Winfried (Peter Simonischek) é um senhor que não tem medo de se expor ao ridículo, leva a vida com muito bom humor, através de traquinagens que proporcionam riso às pessoas. Sua personalidade autêntica faz com que se afaste de sua filha, Ines (Sandra Hüller), uma workaholic extremamente ambiciosa e que despende sua energia para se ascender no trabalho.
 
Distanciados, pai e filha têm de passar um tempo juntos quando Winfried, utilizando-se de seu alter ego Toni Erdmann, decide visitar Ines na Romênia, onde ela trabalha, com o propósito claro de restabelecer seu vínculo afetivo, numa tentativa desesperada para se reconectar com a filha. A frieza do mundo corporativo da qual Ines faz parte a inibe de promover conexões afetivas verdadeiras e o seu vazio existencial faz com que ela se debruce no trabalho para tentar amainar seus sentimentos, tornando-a bastante sisuda, fria e distante.
 
O filme provoca múltiplas sensações, faz com que mesmo ao término da projeção, as reflexões se reverberem por muito tempo. A forte carga emotiva promove uma mescla entre alegria e tristeza. O comportamento singular do pai, extremamente fanfarrão e jocoso, sem apresentar qualquer pudor e receio de ser julgado, sua exposição ao ridículo é muito natural e vai de encontro ao comportamento engessado de sua filha.
 
Há momentos antológicos durante os 160 minutos em que sua duração é plenamente justificável. Não há sobras, arestas a serem aparadas. Toda a projeção é permeada por cenas que representam um compêndio de alguns dos mais belos momentos do cinema da década atual, como na cena em que o pai toca piano e sua filha canta, ou do aniversário de Ines em que ela recebe nua seus convidados e afirma que a festa é para pessoas sem roupas, evidenciando uma situação em que ela busca desnudar literalmente suas emoções e sentimentos, ou do abraço entre pai e filha, quando Toni Erdmann aparece vestido de uma espécie de chewbacca. As máscaras são dissipadas e Maren Ade resgata o fator humano.
 
 
Confira o dia e horário de exibição do filme na mostra O Amor, a Morte e as Paixões, em Goiânia:
 
– 21/2 – 22h45
 
 

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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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