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A sublime arte de Mizoguchi

22.11.2016 - 10:36:40
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Goiânia – O cinema, segundo uma frase célebre, é uma arte, mas é também uma indústria. Em relação à indústria, Kenji Mizoguchi passará fatalmente eclipsado. Sua preocupação nunca foi realizar filmes que agradassem à maioria ou à indústria, mas sobretudo a si próprio, algo extremamente pessoal, como deve ser o mote de todo e qualquer grande artista. Sua arte marca definitivamente a minha aliança com a cinefilia.
 
Seu reconhecimento é inerente ao seu pleno domínio da arte cinematográfica, composto por movimentos de câmera rebuscados e altamente sofisticados com longos planos-sequências, fruto de sua parceria com Hiroshi Mizutani, diretor de arte, e travellings deslumbrantes contrastando com a câmera fixa e baixa de outro incontestável mestre japonês, Yasujiro Ozu.
 
Não me recordo exatamente a primeira vez que vi um filme dele, mas jamais me esquecerei daqueles momentos antológicos quando assisti a Contos da Lua Vaga – uma de suas obras-primas -, fiquei completamente hipnotizado e embasbacado com a beleza de cada fotograma que irrompia na tela, cada plano me remetia a uma pintura, tal o nível de excelência e de zelo na composição de suas imagens.
 
Mizoguchi foi extremamente prolífico, sua obra ultrapassou os 100 filmes, muitos dos quais, infelizmente, foram perdidos, o que impede de traçar um painel mais preciso com relação à evolução de sua obra. Não vi os filmes anteriores ao belíssimo A Feiticeira das Águas, de 1933, mas confio plenamente em Noel Sïmsolo, um dos melhores críticos, que determina que este é o marco de sua maturidade artística, apesar de o próprio Mizoguchi discordar e apontar que ela ocorreu três anos mais tarde. É importante ressaltar sua parceira brilhante com roteirista Yoshikata Yoda, com quem realizou todos os filmes a partir de Elegia de Osaka.
 
Tido como o cineasta das mulheres, título amplamente merecido. Possivelmente o primeiro diretor feminista da história. Os papéis femininos foram preponderantes em seus filmes e, mesmo quando o personagem principal é um ator de teatro em Crisântemos Tardios (meu favorito dele hoje), como bem observou Noel Sïmsolo, “a sensibilidade artística o feminiza”.
 
Seu cinema evidencia a busca incessante por um humanismo em seus personagens, exprimindo um grito de alerta que permeia sua obra por meio de uma crítica social pungente que escancara as mazelas sociais intrínsecas à cultura japonesa, denunciando as estruturas patriarcais, feudais e, principalmente, a opressão feminina.
 
Todo e qualquer superlativo é válido quanto se trata de Mizoguchi. Se for traçado um recorte do período final de sua carreira, precisamente de Chama de Meu Amor (1949) a Rua da Vergonha (1956), são 13 obras-primas absolutas da história do cinema, feito que nem mesmo o gigante John Ford atingiu.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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