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A audiência (1)

03.04.2016 - 15:08:00
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À dra. Zaida José dos Santos, que me diz da justiça o que dela ainda sonho —
desdesigualdade e esplendor. E aos servidores e funcionários da JT de Araguari, aqui nas Gerais.

Goiânia – Três e vinte da tarde, e foi o caso que Lúcio Ogando de Assis entrava ali para dar o seu depoimento. Recém-aparecido na cidade, sujeito positivo e cumpridor, era empregado da Cia. Mineira de Sementes e fora convocado a Juízo — imagine-se, justo ele — para confirmar a alegada doença ocupacional que acometia um seu colega, também funcionário. O que, naturalmente, a empresa desmentia porque desmentia. E o autor da causa tinha certo de sustentar de pé junto que sim. Pois-ora, eis a pendenga.
 
Adentrando, em tão logo ele via: à esquerda, sentado e tendo já dado o seu testemunho, o preposto da empresa, senhor Ricardo Antunes de Ribeiro, homem de austeridades e certezas, a gente rapidamente notava. E, à direita, o reclamante, autor da causa, de nome José Carlos, conhecido de todos como Zé-Carlim. Ambos acompanhados dos respectivos advogados, que acabavam de informar à secretária de audiência sobre a última pessoa a testemunhar. Qual sendo: Seu Lúcio, favor comparecer à sala de audiência. E ele vinha decidido, com as ideias concatenadas: tim-tim por tim-tim, contaria tudo, e que ninguém não pensasse estar ele de devaneio ou bestagem. Prestassem atenção, e qual relato! Principalmente: que ele daria de convencer, a todo custo, a juíza, doutora Lavínia dos Santos, titular da Vara do Trabalho de Araguari. Respeitada para muito além daquela jurisdição, até fora de Minas: pela justeza com que conduzia seus sentenciamentos e, tanto ainda, porque era mulher de fino trato com as pessoas, respeitadora. Além do quê: via e escutava tudo com lucidez de admirar até quem pretendesse interpor seus-lá contrários. Percuciente ela, de sentido aguçadíssimo: ficar de invencionice diante da doutora durante a instrução era coisa a que ninguém mais se atrevia ou, se ainda assim houvesse quem-que, ela era de desmantelar já de princípio.  
 
A sala, pois-bem, burburinhava. Quinta-feira, sol de rachar, em meio de tarde. Dia de novembro, findando naquela típica acumulação de cansaços. Da semana, do mês, de ano quase inteiro. As partes chegavam esbaforindo-se. Acomodavam-se. O entra-e-sai ocorria de estar dentro da normalidade, pelo menos até então. Mas então… de fatalidade a fatalidade, o excêntrico desencaixotar de enredos foi sendo — tal seria. 
 
É que havia, de certo, uma celeuma danada em torno da causa. Empresa de prestígio na cidade, dessas bem grandes, com muitos empregados. Até onde se sabia: cumpridora da legislação trabalhista, sim, senhora, com total enfoque nas normas de segurança! Demonstrava também preocupação com o meio ambiente, mantinha quase dúzia e meia de projetos sociais, com compromisso e coerência, doutora! Fazia vale ali pelo dia 15, fosse preciso, pagando os funcionários religiosamente, todo quinto dia do mês, ora-se
 
Que conste ainda, em favor da companhia, que nunca se tinha escapado de promover curso de aperfeiçoamento, com aquela necessária frequência, a senhora pode ter certeza, meritíssima! E mais: fornecia EPI direitinho, não havia do que reclamar. Acidente de trabalho, doença ocupacional, acontecia, é claro que acontecia, mas era como em qualquer outro lugar, nada de muito espantoso-assim, e que mal tinha? Aquele ali, mal conforme estava sendo alegado por Zé-Carlim, era de fato um absurdo, onde já se viu? Coisa descabida até de juízo se a gente for pensar, dessas ludibriadoras, e aquil’outro e mais tantos — anuíam os demais advogados que, de ouvido atiçado, aguardavam ali na sala suas subsequentes sessões, cochichavam isso, palpitavam outro-isso, concluindo que a doutora Lavínia não daria ganho de causa ao autor nem que a vaca tossisse-e-espirrasse-junto, nem que dançasse ou fizesse mágica, nem que… A empresa é que ganharia. 
 
E a quizila toda, no afinal, era a seguinte: sustentava-se que numa das máquinas da empresa-ré, justo naquela em que dava manutenção o Zé-Carlim, e era dessas enormes, de moer semente às toneladas, pois-que ali moravam uns-certos… engolidores de gente.
 
— Mas isso tem lá algum cabimento, senhor José Carlos? — interpunha-se a magistrada. Firme, porém pacienciosa. E como se: com disposição de prosseguir na tolerância até onde fosse plausível. Ouvindo. Reparando nas gesticulações, em como as frases iam sendo articuladas, bem ou mal ditas.  Se sim ou se não-sim, no fim das contas, ela é quem diria. 
 
— Pois eu juro pelo de mais sagrado que há nessa vida, senhora doutora juíza — e ele ainda complementava, de pé muito junto, mão esquerda empurrando a testa para trás, suando-se inteiro, em agonia patente, que já vinha em desespero diário por conta daquele infortúnio, pois maldita a hora, a senhora não imagina… E suspirava-se todo… o Zé-Carlim. 
 
Ao que seu advogado, perdendo mais uma oportunidade de restar silencioso, ele, que era desses de prontidão ali na Vara, doutor Procópio Eduardo de Lima, quase um desafeto de qualquer meritíssimo, falta de conveniência, mas sem muita ruindade, pois-era o próprio quem emendava a fala do Zé-Carlim, na toda desnecessidade e no de sempre atrevido:
 
— Pois a senhora não está vendo o estado de aflição do meu cliente, doutora? Paciência…
 
A juíza fazia que sim, que pressentia. E que consentiria em escutar a história até o fim, mas que ele, então, tivesse a decência de não interromper mais, já que se tratava de um episódio no mínimo inusitado, demandando minudência, pois o senhor… seu Procópio
 
— Veja lá, doutora, é só no que quero pôr alerta, se a senhora não vai é fazer prévio juízo de valor e desacreditar dos fatos por pura matéria de não crendice…
 
— E o senhor, doutor Procópio, se não vai me espostejar a tolerância hoje de novo, com essa sua impertinência contumaz. Veja lá o senhor… E se contenha, faça-me o favor…
 
Pois mesmo, em suma, só se vendo: seu Lúcio estava ali para ajudar a desenrolar aquela contenda. Assaz-assim: História verídica de máquina engolidora de gente, frise-se. Ele batia o pé que sim! Mas… justo numa cidadezinha tão normalíssima como aquela, as pessoas amanhecendo de manhã e indo para a cama de noite, saindo para o trabalho às sete, parando para almoçar, levando filho à escola, regando as plantas no fim do expediente, tendo, afinal, as suas pelejas cotidianas, seus muros, querenças, conexões, arranjos e desarranjos, como em qualquer outro lugar… justo ali? Enfins. 
 
O pedido, na então circunstância do processo, era tal-que: indenização por danos morais, como se diz, no importe de quinhentos e tantos mil, minhanossa, uma-qual fortuna!
 
Alegava-se que: a quantia ficava por conta da mazela psicológica, “de dimensões que nem se podem medir” — doutor Procópio punha ênfase na petição inicial e, permitisse a juíza, viria ainda de jaculatórias para que fizessem as perícias, muitas, todas, na intenção de atestarem a horrível moléstia — causada a Zé-Carlim, principal encarregado da tal maquinaria e que, aliás, restava impedido até de trabalhar em outro emprego, qualquer que fosse, de tão traumatizado e com tanto sofrimento que ele vinha estando. Pois-que.   
 
Cumpridas as formalidades de identificação, a cargo da servidora-datilógrafa, a instrução se abriria como a um jornal. Com flashes bem flagrantes! E dobras além de dobras para além de. Assaz espetaculares, de-inclusive. Estórias, uma a uma, e então outras — de darem espanto. Já no seu princípio. Coisa de arriçar de intranquilidades até os sonhos mais tranquilos das pessoas. Que-ali. E ouviriam aquelas todas… aquelas todas… esdruxularias. Mas, se a gente reparasse bem, quantos verossimilhantes. E o depoimento pois-começava.
 
(continua no próximo domingo)
 
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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