Logo

Literatura, o olhar, a crítica. O personagem Gilberto Mendonça Teles (3)

07.03.2016 - 15:55:40
WhatsAppFacebookLinkedInX

Havia mais ou menos oito ou nove delas ali-na-rua. Oito ou nove centenas. Sim, centenas. Como iam chegando aos bocados, “Decerto desde a Praça Cívica, em prolificação evidente”, era no mínimo de se cogitar: não tardava, em breve seriam mesmo milhares.
 
— Gilberto, ô, Gilberto! — José Mendonça, irmão do poeta, era quem alvoroçava do lado de fora, pedindo entrância. — Que lerdeza para abrir essa porta, hein? Vejam que incrível!
 
Juntamente, as pessoas, que de bobas nem-não eram, tum-tum, tum-tum-sobrevinham (atiçadas as curiosidades, é claro), intrometendo-se com seus lá-deslumbramentos no meio do ocorrido, umas falando com as outras, a maioria bastante opinativa:
 
— Coisa que não se vê toda hora, hein, Seu Crispim? — resolvia, encandeado, e com a devida convicção, um dos fregueses do bar-café na Avenida 84.
 
— Mas, Seu Tavares, como o senhor mesmo diria, a coisa é assim tão grande, tão imensa, e quem algum dia poderia antecipar ocorrência de uma coisa dessa, né?, que parece a vida nutrida de infinito, não acha, não? — fortalecendo a fala, o homem emendava. Semelhantes, aliás, eram os outros posicionamentos de quem acompanhava o ludus todo. Na aflição de saber e não saber do que por certo se tratava aquele trançar de…   
 
Senha, contrassenha; tempo, contratempo. Coisa de múltiplas cavilações. Porque se se reparasse direito, mesmo num olhar à distância, não eram propriamente centenas de pessoas àquela hora da noite estando assim, de barulheira na rua. Em algum instante, depois do susto inicial quando Gilberto abriu a porta, a cena tão assaz se via: Bernardo, J. Veiga e todos os demais, embora algo ainda paralisados, puseram-se a três passos de fora da casa, não exatamente ainda na calçada-calçada, “Justo ser sensato, manter prudência”, mas tentavam até ali acompanhar menos de longe aquele movimento alucinante…
 
Mas isso é como rio correndo sem margem ainda… E a imagem que se forma então, como pássaros sem pena voando bem dentro, compele a essa extraordinária transformação de ausências em imediatas presenças que conhecemos bem, né?, daí a algazarra toda, minhanossa, agora compreendo, que fabuloso! — pois o que se via, afinal de contas, argumentava o poeta Gilberto, era mesmo um esplêndido irradiar de ditos.
 
O sobrado de portão azul-nuvem, bem de frente para eles, talvez fosse o lugar onde mais se concentrava aquela infinidade de corpos. Corpos de palavras, zanzando de canto a outro, galopantes, estrepitosas. Faziam graça só para eles, oferendavam-se às pessoas.
 
— É o que você disse uma vez, Gilberto: deixar que a palavra role assim perdida, como a própria sombra desta coisa toda que é a nossa existência — intrigava-se José J. Veiga.
 
Pois elas faziam ciranda-cirandinha em torno das gentes, subiam em árvores, caíam, tropeçavam-se, encontravam-se, perdiam-se. Umas em titubeação toda elegantíssima, outras tão só em linha-reta, mas a maioria na peleja de extrapolar formas significantes e alcançando seus respectivos percursos de significados. As pessoas é que enfim ajudariam?
 
Sim, centenas. Iam se quintuplicando. Palavras limpas de silêncio, retidas como um sonho. E ali, como búzios sonoros, excedendo limites de uma-sua vida orgânica, sentidas, por sentir, borbotando de reinos-miríades ainda por transversar, elas apesar disso faziam festa.
 
Umas, de tão regateiras, corriam dando volta na rua toda, acenavam para as pessoas e dali-logo se juntavam em sentenças, períodos, versos, sonoridades. Outras tantas pareciam despencar mesmo do céu, mas de já procuravam rumo se ajuntando de medidas.
 
Diante daquilo, os escritores naquela noite não pensaram duas vezes para resolver que…
 
— Sim, e o poeta entranha essa fronteira ousando atravessar as lindes mais fundas do silêncio… — acrescentava Gilberto, quando perguntado sobre o conceito de poesia.
 
De volta à entrevista, no desatino de redescobrir como tudo em nós é desejo tal de linguagem, fui como se trançando linhas de relâmpago, imaginárias, nos vidros ilegíveis daquela janela imensa. Revi palavras com seus sinais de ressonância pela sala, impulsos, improvisos, em verdadeira milícia verbal configurando subversões em zonas de silêncio. Também quando pensa o personagem por trás da palavra, a gente entende como é que ele desnuda territórios em todos os acasos e silêncios, ficando no vento e nas distâncias como nuvens brancas, repetindo as palavras, testemunhando, impelindo sua formação…
 
Fomos seguindo a entrevista, aqui-ali me vindo o ensaio da Virginia Woolf, eu com imagens que dos personagens imaginam. Muitas ainda sobre o Gilberto redemoinharão. Que-sim.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]