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Literatura, o olhar, a crítica. O personagem Gilberto Mendonça Teles (2)

28.02.2016 - 16:08:45
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Os dias chegam cedo na capital goiana. Da sala onde aguardamos o poeta, a janela de vista ampla para o céu oferece imaginações sobre o sol entrando nas casas, nos afazeres das pessoas, borbulhando estadias, acolhendo novilúnios de coisas lindas e livres que se organizam no secreto rumor do tempo. Bem assim. 

Tínhamos vanguardas inteiras de perguntas elaboradas. Confabulações, horas se abrindo, memórias, retóricas invisíveis. Silêncios e reticências cochichavam a um minuto apenas de arrotearmos universos com a linguagem. E foi sendo. 

A primeira imagem que se forma de Gilberto vindo até nós é, de fato, a que se imagina: em mãos, livros, inúmeros, livros. Papéis, uma caderneta com folhas preenchidas de palavras, palavras em curso. Lucidez que se sente no olhar. Entre uma folha e outra, a caneta de anotar sabedorias do que não foi dito, que diz e não diz dizendo.   

 
A sala de conferências, até onde lembro ou fantasio, era grande. Um par de sofás em cada canto, de um verde-árvore. Ao centro, à altura das janelas que davam para a manhã, uma mesa de madeira com poltronas em torno. Diante do poeta, nos sentamos para a entrevista. 
 
Ê mundo das coisas que não têm nome… Que prazer estar com você de novo, Wolney! 
 
Até na plumagem dos nomes a realidade é pura essência, Gilberto. O prazer é bastante nosso, você sabe — e então o editor da Revista UFG põe as minhas mãos nas do poeta. 
 
— Me honra-além este encontro, Gilberto. Tudo em mim também é desejo de linguagemDe então que nem digo o quanto, fico mesmo agraciada.

Já no princípio da prosa, é notória a busca da melhor expressão, o cultivo de sintaxes invisíveis, maturando-as no trânsito de uma transformação de silêncio em palavra… 
 
Começamos falando de Goiás. Gilberto é também narrador exímio. Conta-nos, de logo, história sobre Cyro dos Anjos, que, ali pelo começo da década de 1960, já reitor da UnB, se reúne com o poeta goiano para falarem das aulas de literatura que este assumiria naquela universidade. Dali a pouco, em tom de querer fazer graça, perguntava o autor de O amanuense Belmiro: “Más ó, goiano, lá em Goiás se estuda literatura?”. 
 
Olho de través para o chão da sala. Ver, ver, tem gente que gosta de ver só para vergastar. O caso era de enxergar grandeza com a palavra, e não de regionalices. Coisa muito mais de paixão, de querer possuir todos os livros… 30 mil volumes, e ler, ler, ler — por atacado e a granel. Estar, enfim, entre o eterno e o humano, resistindo no caos, circulando o amor. A resposta que, afinal, ouvimos de Gilberto não é a de um escritor que avilta universalismos e põe etiquetas nacionais/regionais na arte literária. Ler. É o que significa. E o que fica. A escrita… jeito de o coração enunciar que uma flor vai-se abrindo…
 
O homem-ali diante de nós. Veste-se como escritor. Respira palavra, tem cheiro de alquimista, não carece rotulagem. Tinha chegado sem relógio, “É que ele mede o tempo esticando o próprio tempo com lembranças de barro, artesanalmente”, pensamos. E sopra para perto da gente florações que vão logo vontadear expressão. Aletrias. “Letripulias”, que, num zás, começam a saltitar do lado mais imponderável do chão da sala. Fico monolítica. Sílabas se embalam e formam, de uma hora para outra, conjunções de sonoridades. 
 
Olho de novo para o chão da sala, desvio a vista. Tem palavra borbotando dali, dando volta nas pernas do poeta, subindo-lhe pelo paletó. Que aflição, “Será mesmo possível?” E elas, de repente, dançam. Feito algazarra de pássaros, entre sons que se revezam, “Decerto eles também estão vendo tudo isso”, as palavras se fazendo, cada qual se lançando no espaço, indo dali para cá. Umas bem atrevidas, correm serelepes até a pontinha do nariz dele, pulando e logo se espreguiçando no chão. Outras, ainda, vão durando apenas o tempo de uma lâmpada. Então, sobre ele, personagem, eu fabulo, elas adivinham: 
 
— Uma noite aqui em Goiânia, há umas boas décadas, nos reunimos eu, o Bernardo Élis e o José J. Veiga, de noitinha, na casa de uma nossa amiga muito querida. Falávamos de literatura. — Silente e reticente por um instante, logo-logo Gilberto conjetura:
 
— Mas talvez esta seja contação para um outro dia. Quem haveria, afinal, de dar crédito a história tão lunática? Pois os nossos quixotes…
 
Era que, por volta das dez da noite, no então encontro de literatos, tinha começado barulho bem estranho do lado de fora da casa. Burburinho, gentes de cantata no meio da rua, coisa parecendo de panfleto sendo distribuído, uma revolução! “Mas àquela hora do dia?, não tinha cabimento. No certo, a movimentação se agigantava e eles, de dentro da casa, só imaginavam que seria… celeuma de gente desocupada? confraria estendida demais da conta e agora todo mundo perdia o juízo? alguém atarantado em necessidade de ajuda? 
 
O que fosse, tinham de sair para ver. Nenhum deles dava intenção de que iria. A certa altura, curiosidade aflorando, Bernardo propôs: “Isso logo finda, vamos fazer de conta que sabemos o que é e cada um dá o seu entendimento”. Anuíram. Começou José J. Veiga: 
 
— Não sabem? Isso é obra da tal máquina que foi trazida agora à tarde para a cidade, precisando até de dois ou três caminhões, de tão importantosa que é, para carregar, descarregar e montar. Pois é o que está causando esse alardeio todo, tenho dito.

Bernardo e a amiga também vinham lá com hipóteses. Na opinião de Gilberto, era coisa daqueles flamboyants floridos bem em algazarra, como se atapetando inteiro o asfalto, ou mesmo, sabia-se lá, algum alarde de sonho morrendo, para nunca mais. Fato é que não chegavam a uma decisão sobre o que ocorria na vizinhança, e a arruaça seguia. 

 
— Minhanossassenhora, mas o que foi isso? — parecia daquelas bombinhas que criança solta em dia de folia, resolutava Bernardo. — Sim, as pessoas estão só se divertindo…
 
— Pois está me cheirando a tempestade que vem vindo forte, coisa de zumzum subterrâneo que as pessoas já começam a sentir de longe, daí que vai bem chover o mês inteiro, sem cessar, aquele mar d’água porejando inundação, todos já dizendo dos seus receios…
 
Nem aquilo, nem isso. O bulício só crescia. Foi tomando conta da rua. Em alguns momentos, até parecia faiscarem frases das pessoas para tudo quanto era lado, como néon de avenida grande. Todos falavam ao mesmo tempo, disputando até silêncio de som. Alguém, no repente, começou a berrar, a berrar, suspendendo respiração do tanto que dizia e querendo dizer mais, até que, num certo momento, resolveu que precisava entrar na casa. E tocou a campainha. Os quatro se entreolharam, como se desentendendo tudo. “Abrimos, não abrimos?”, “E se for rebelião?”, “Pois se…, corremos risco”, “Vamos para onde?”
 
Repousando a taça de vinho sobre a mesinha de centro da sala, Gilberto se levantou, sereno, decidido a abrir a porta. Caminhou sete ou oito passos em direção a ela, olhou para os companheiros, sorriu dando a entender no fim das contas que… 
 
O palavreio todo do lado de fora se agigantava. Se eram pessoas conversando ou o que quer que fosse, enfins… Diante de todos, ele destrancou a casa, girou a maçaneta, tão simplesmente abriu a porta. Tomou um baita susto ao ver que as pessoas… — mas o que, afinal, era aquilo?
 
(termina no próximo domingo)
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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