Logo

Zeros que não são vazios — o mundo, (n)os nossos espaços de representação

18.01.2016 - 09:17:23
WhatsAppFacebookLinkedInX
À Helena Frenzel, escritora-editora maranhense vivendo hoje na Alemanha, pela forma como
estica horizontes com a escrita e pelas suas encantáveis letripulias  

Goiânia – Na semana em que morreu o historiador francês Jacques Le Goff, me atropelou uma pergunta em princípio esquisita, feita por um senhor de setenta e nove anos bem no meio da rua, enquanto eu pensava que nem tinha tido tempo para processar direito as ausências e presenças deixadas pelo idealizador da “Nova História”, dos melhores intelectuais do século XX, grande epígono da terceira geração dos “Annales”.

 
Era abril de 2014, a cidade pulsava sem muito sol ainda, sete-cedinho da manhã. Eu descia de escada mesmo o par de andares do prédio de um amigo (que estudou as línguas, suas etimologias e literaturas). Tínhamos acabado de falar, durante o café da manhã, sobre Le Goff, sua “História e Memória”, as formas de linguagem-expressão de fatos e pr’além-dos-fatos, um pouco mais, um pouco menos, mas especialmente: confabulávamos. Muito em torno de um tema ainda controverso para ambos — o que vem a ser, afinal, patrimônio?
 
O tal do “documento-monumento” — pensávamos. Pelas vias do que, aliás, se imortaliza a história. E esta, sendo “forma científica” da memória coletiva, não constitui evidentemente o que “existiu no passado”, senão um bastante “esforço das sociedades para impor ao futuro determinada imagem de si próprias” — éramos já nós, retoricando. A história é o resultado de uma construção, é claro, a gente bem-sabe… 
 
E enfins… eu vinha com isso na cabeça, titilando. Sem fim de conceitos, conjeturas, inquietudes. Formando ou sem formar ainda imagens: sistemas simbólicos estruturam (conhecimento e comunicação), o poder simbólico constrói (a realidade), os símbolos integram (as pessoas em suas sociedades), a produção simbólica cria (imaginaturas) e domina (sonhos de sonhar e de viver). Estar na fração de tempo e contratempo — autoridade e silêncio — entre lembrar, escrever, historiar. 
 
E a representação das coisas (como uma fotografia, uma narrativa, mesmo uma rasura ainda no ar) é capaz de repor a memória, de pintá-la como presença-ausência? Quem, afinal de contas, recorda e tem o poder de contar fazendo o outro imaginar? 
 
A história, a memória, a escrita. A rua da minha casa é dessas que ainda têm janelas de olhar dentro. Dentre os vários vizinhos, sempre reparei um homem ali nas suas sete ou oito décadas de vida. Ordeiro e cumpridor, de pouca prosa, mas sorrindo para a gente toda a vida, e com um viralatinha serelepe que o acompanha para todo canto no bairro. 
 
Seu Maciel. Dono de uma vendinha no quarteirão da frente, perto de casa. Foi quem me interpelou naquela manhã em que eu ainda pensava na morte do historiador Le Goff, na conversa minutos-antes com meu amigo sobre “a herança do passado”, as memórias, histórias, linguagens — os patrimônios da gente… Ele, o seu Maciel, tinha na mão esquerda um bloquinho cheio de rabiscos. De caneta também em preparo, olhar divagando, mas sem austeros nem sustenidos, ele foi de-logo me abordando:
 
— Ei, moça, me diz assim, o que você pensa, você acha que todo zero é vazio?
 
— Como? 
 
Pensei três coisas ao mesmo tempo, num zás: primeiro, no desespero bonito de acreditar na linguagem, nas definições das coisas da gente e naquilo que orienta o nosso estar-no-mundo, como se desinventando modelos e modelando o vazio; depois, imaginei a estranhez que é ter as histórias — conceitos, astros e desastres, memórias — delimitadas no vazio da construção de poucos, que se apoderam do mundo. Pensei, afinal, em cada um dos protagonistas do documentário “O Zero não é vazio”, lançado em 2005.
“O Zero não é vazio” (2005), documentário de Marcelo Masagão e Andrea Menezes 
 
Com trilha primorosa de José Miguel Wisnik, o filme se abre ao lugar que a escrita tem para aqueles que escrevem, personagens de fato imiscuídos em pequenas-grandes frestas do cotidiano, historiando: Gregório, que mapeia as presenças no instante mesmo em que são criadas, e Arturo, que poetiza a existência dizendo enterrar-se na terra para virar pântano; Márcia, a escritora dos postes de iluminação que recontorna o espaço público da alegria e da dor; Orlando, ah… o eterno feminizador de palavras; o Condicionado, um “industrial fabricante de histórias”, parado no tempo, de relógio sempre atrasado; e a Tatiana, então?, com sua máquina própria de reversão do tempo… 
 
Todos e tantos-mais ali na rua… em redescobertas… escrevendo, desenhando, em criação… De caderno a imaginação bem a postos: frases não feitas, perguntas sem resposteio, traços e contrastes, eles em vida como se desinventando a fatalidade de não historiar, mas historiando, sem cerimônias, a própria vida…
 
Escritas singulares, histórias da gente, carregadas de sentidos. Delicadas, submersas. Raramente lidas… 
 
O Seu Maciel me contou uma infinidade de histórias naquele dia. Eu lembro. A filha, que mora sabe-se-lá-como no Egito, a neta que peleja pela sobrevivência, a separação com a esposa em meio a tantos traumas-rasgos-reinvestidas, a vendinha aonde chegam as pessoas todos os dias com suas infinidades de dores e cores… e-e-e…
 
Lembrei, no por-fim, do Jacques Le Goff. Como as histórias são construídas…
 
E respondi ao seu Maciel: 
 
— Não, o Zero é onde a gente dá volta de manipular a existência para que, no fim das contas, ela não seja assim… tão vazia…

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]