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Zeros que não são vazios — o mundo, (n)os nossos espaços de representação

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18.01.2016 - 09:17:23
À Helena Frenzel, escritora-editora maranhense vivendo hoje na Alemanha, pela forma como
estica horizontes com a escrita e pelas suas encantáveis letripulias  

Goiânia – Na semana em que morreu o historiador francês Jacques Le Goff, me atropelou uma pergunta em princípio esquisita, feita por um senhor de setenta e nove anos bem no meio da rua, enquanto eu pensava que nem tinha tido tempo para processar direito as ausências e presenças deixadas pelo idealizador da “Nova História”, dos melhores intelectuais do século XX, grande epígono da terceira geração dos “Annales”.

 
Era abril de 2014, a cidade pulsava sem muito sol ainda, sete-cedinho da manhã. Eu descia de escada mesmo o par de andares do prédio de um amigo (que estudou as línguas, suas etimologias e literaturas). Tínhamos acabado de falar, durante o café da manhã, sobre Le Goff, sua “História e Memória”, as formas de linguagem-expressão de fatos e pr’além-dos-fatos, um pouco mais, um pouco menos, mas especialmente: confabulávamos. Muito em torno de um tema ainda controverso para ambos — o que vem a ser, afinal, patrimônio?
 
O tal do “documento-monumento” — pensávamos. Pelas vias do que, aliás, se imortaliza a história. E esta, sendo “forma científica” da memória coletiva, não constitui evidentemente o que “existiu no passado”, senão um bastante “esforço das sociedades para impor ao futuro determinada imagem de si próprias” — éramos já nós, retoricando. A história é o resultado de uma construção, é claro, a gente bem-sabe… 
 
E enfins… eu vinha com isso na cabeça, titilando. Sem fim de conceitos, conjeturas, inquietudes. Formando ou sem formar ainda imagens: sistemas simbólicos estruturam (conhecimento e comunicação), o poder simbólico constrói (a realidade), os símbolos integram (as pessoas em suas sociedades), a produção simbólica cria (imaginaturas) e domina (sonhos de sonhar e de viver). Estar na fração de tempo e contratempo — autoridade e silêncio — entre lembrar, escrever, historiar. 
 
E a representação das coisas (como uma fotografia, uma narrativa, mesmo uma rasura ainda no ar) é capaz de repor a memória, de pintá-la como presença-ausência? Quem, afinal de contas, recorda e tem o poder de contar fazendo o outro imaginar? 
 
A história, a memória, a escrita. A rua da minha casa é dessas que ainda têm janelas de olhar dentro. Dentre os vários vizinhos, sempre reparei um homem ali nas suas sete ou oito décadas de vida. Ordeiro e cumpridor, de pouca prosa, mas sorrindo para a gente toda a vida, e com um viralatinha serelepe que o acompanha para todo canto no bairro. 
 
Seu Maciel. Dono de uma vendinha no quarteirão da frente, perto de casa. Foi quem me interpelou naquela manhã em que eu ainda pensava na morte do historiador Le Goff, na conversa minutos-antes com meu amigo sobre “a herança do passado”, as memórias, histórias, linguagens — os patrimônios da gente… Ele, o seu Maciel, tinha na mão esquerda um bloquinho cheio de rabiscos. De caneta também em preparo, olhar divagando, mas sem austeros nem sustenidos, ele foi de-logo me abordando:
 
— Ei, moça, me diz assim, o que você pensa, você acha que todo zero é vazio?
 
— Como? 
 
Pensei três coisas ao mesmo tempo, num zás: primeiro, no desespero bonito de acreditar na linguagem, nas definições das coisas da gente e naquilo que orienta o nosso estar-no-mundo, como se desinventando modelos e modelando o vazio; depois, imaginei a estranhez que é ter as histórias — conceitos, astros e desastres, memórias — delimitadas no vazio da construção de poucos, que se apoderam do mundo. Pensei, afinal, em cada um dos protagonistas do documentário “O Zero não é vazio”, lançado em 2005.
“O Zero não é vazio” (2005), documentário de Marcelo Masagão e Andrea Menezes 
 
Com trilha primorosa de José Miguel Wisnik, o filme se abre ao lugar que a escrita tem para aqueles que escrevem, personagens de fato imiscuídos em pequenas-grandes frestas do cotidiano, historiando: Gregório, que mapeia as presenças no instante mesmo em que são criadas, e Arturo, que poetiza a existência dizendo enterrar-se na terra para virar pântano; Márcia, a escritora dos postes de iluminação que recontorna o espaço público da alegria e da dor; Orlando, ah… o eterno feminizador de palavras; o Condicionado, um “industrial fabricante de histórias”, parado no tempo, de relógio sempre atrasado; e a Tatiana, então?, com sua máquina própria de reversão do tempo… 
 
Todos e tantos-mais ali na rua… em redescobertas… escrevendo, desenhando, em criação… De caderno a imaginação bem a postos: frases não feitas, perguntas sem resposteio, traços e contrastes, eles em vida como se desinventando a fatalidade de não historiar, mas historiando, sem cerimônias, a própria vida…
 
Escritas singulares, histórias da gente, carregadas de sentidos. Delicadas, submersas. Raramente lidas… 
 
O Seu Maciel me contou uma infinidade de histórias naquele dia. Eu lembro. A filha, que mora sabe-se-lá-como no Egito, a neta que peleja pela sobrevivência, a separação com a esposa em meio a tantos traumas-rasgos-reinvestidas, a vendinha aonde chegam as pessoas todos os dias com suas infinidades de dores e cores… e-e-e…
 
Lembrei, no por-fim, do Jacques Le Goff. Como as histórias são construídas…
 
E respondi ao seu Maciel: 
 
— Não, o Zero é onde a gente dá volta de manipular a existência para que, no fim das contas, ela não seja assim… tão vazia…

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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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