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Pirlimpsiquices nos Platiplantos de José J. Veiga

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20.12.2015 - 13:34:00

 
Carol Piva*

 

Ao Germano Xavier, escritor-dos-mais-gigantes
E à profa. Eni Freitas e Souza, a quem sempre devi todos os agradecimentos do mundo

 
Goiânia – Eu era também muito criança quando comecei a pôr análise nas coisas que nem os adultos, não.
 
Talvez fosse o caso de enxergar no viés dos acontecimentos. Ou que os gatos pingados — e isso lá era possível? — viviam numa ilha só deles. Ou então o verdadeiro porquê de a dona Maria Teresa — nossa vizinha de frente — preferir o pequi com frango caipira, "Tem que ser o caipira", ela era toda insistências, e a gente testemunhava tudinho. Ou mesmo, no fim das contas: fosse o que sendo… não importasse. E sim que eu dava de ver além das coisas quando na minha meninice, e penso até hoje que todas as crianças veem decerto bem assim: (re)trans(vi)vendo.
 
Exemplifico: ali com os meus sete-oito-ou-doze anos de idade, eu tinha já percebido que, à insignificância de qualquer estória que contássemos, podíamos contra-apresentar a radiância da forma como contávamos. Ou seja: importava mais a encenação, o representar da estória, aquilo da mais pura palavra-invencionice, a fim de que o episódio ficasse interessante, elegantoso, feito de magias.


 
E então eu bem que… inventava, desinventava, ficava de transinventices.
 
— Dona Aparecida, a senhora não descuida dessa menina — alertava a parentada toda — que ela desanda a fantasiar até de noite, hein?
 
E eu me ria. Já que tudo isso se deveu, afinal, a um preliminar acontecimento: tínhamos um conhecido na vizinhança, o Josué, cujo pai era — como se diz, ou como entendíamos — "cuidador de biblioteca". Virava-e-mexia, vinha lá o homem com exemplares às vezes encardidos, bem pelintrinhinhas; mostrava para a meninada no maior regozijo, falava que eram "feito estrada feita de alçapões, mundéus tentadores, porém, da mais esplêndida e magnânima serventia".
 
Deu-se, assim, que um dos livros trazidos para casa pelo homem tinha lá um nome muito esquisito. Sim, observamos. Encafifávamos. Mas era mesmo que nada: ele não dizia palavrinha sequer, mandava pararmos com a ladainha, que só contaria as estórias-ali, se quiséssemos, tão logo terminasse de ler.
 
E então chegou o dia em que ele terminou. Cumprida a promessa: foram doze estórias, de cedinho — porque, sim, naquela época ainda fazíamos prontidão para escutar narrativas, eu lembro — até de tarde, bem noite. Uns meninos caçoaram, "Que trem mais sem pé e sem cabeça". Outros: "Como é que pode alguém 'tirar farinha com as pessoas' ou achar que 'afogar doía', como?". 
 
Fato é que: nunca fomos os mesmos depois daquele dia. Se a gente brincasse de pique-pega, miolo-mole, queimada, ou o que fosse: Camilinho ou o Cedil, Tia Zi, menino-irmão, pulquério-professor, eita — dávamos jeito de inserir qualquer estripulia sobre. Fácil, bem facilzinho. E foi como ficamos sendo bastante fantasistas nessa época. Mãe e pai da gente, na condição de adultos, coitados, até tentavam compreender, alguns sim, outros simplesmente desentendiam. Até que, para maiores desentendimentos, inventamos montar competição para escolher quem conseguiria fantasiar a estória mais fantasiosa de todas. Mandamos fazer troféu e tudo. Foi ‘brabêra’, todos engajados, ninguém cogitava não vencer.
 
Uma das estórias, que foi no fim das contas vencida, era a minha: sobre um menino que dava de enxergar azul e, logo-então, talvez ficasse a vida toda de pirlimpsiquices…
 
Foram muitas. Estórias, de um "representar sem fim". E o tal livro: Os cavalinhos do Platiplanto, publicado pela primeira vez em 1959, do goiano José J. Veiga. Cujo centenário celebramos neste 2015 e de quem eu poderia, aliás, dizer de uma "tanta coisa a dizer" ainda: dos contos, romances, rêveries; nascimentos e acontecimentos; ou que, indo do alegórico ao simbólico, do estranho ao absurdo, o autor soube como lidar com o longínquo, o distante e o isolado, entrecruzando "elementos emblemáticos com os quais o imaginário goiano se identifica", sopraria a profa. Zaira Turchi. 
 
Coisa da mais profunda e bonita fabulação! Era como eu dizia… E que, enfins, em contracenas miríades, é como se ele, escritor também das oralidades do sertão, das tais muito extraviadas máquinas, escritor da gente, afinal, como se ele sempre tivesse representado mesmo nossas todas bem-de-dentro, inventadas estórias…
 
Os nossos próprios mundos platiplantos. Infinitando(-se). E que eles não cansem de existir, de reaparecer, se (nos) estarem de vida. Tim-tim!  
 
*Carol Piva é uma das editoras-fundadoras do jornal literário O Equador das Coisas, tradutora e ficcionista.
 

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por Carol Piva

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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