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O poder da música

05.06.2015 - 10:50:00
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Goiânia – Quando surgiu a música? Na verdade, sabemos muito pouco sobre as primeiras manifestações musicais até o início da Era Cristã. Especula-se que, inicialmente, os sons eram usados apenas como uma forma de comunicação entre os primeiros hominídeos. Podemos apenas imaginar como alguns desses sons eram produzidos: gritos, percussão no corpo ou batidas com pedaços de paus.
 
Depois, provavelmente, a emoção ou a intenção expressiva levou o homem primitivo ao cultivo das variações na altura e no timbre da voz. Mais adiante, o homem pré-histórico partiu para a construção de objetos sonoros um pouco mais elaborados, certamente feitos de madeira, pele de animais, cana de bambu, ossos etc. Os vestígios mais antigos desses objetos, encontrados até hoje, têm aproximadamente 67.000 anos de existência; são instrumentos musicais parecidos com flautas, capazes de emitir apenas uma nota.
 
É verdade que não sabemos muito sobre as origens da música. Porém, temos uma certeza! Fontes arqueológicas, como pinturas em cavernas e resquícios de instrumentos musicais, revelam que a prática musical tornou-se essencial no dia a dia das tribos primitivas.  Acredita-se que os nossos ancestrais do Paleolítico atribuíam grandes poderes à música e que os primeiros objetos sonoros serviam, antes de tudo, às manifestações mágicas, como uma forma de atuar diretamente sobre a natureza.

Em seguida, a prática musical esteve ligada também aos rituais de evocação de espíritos, certamente com o objetivo de solucionar problemas do cotidiano. Mas, será que as flautas rudimentares e os tambores teriam sido utilizados também como divertimento ou simplesmente pelo prazer estético? É difícil dizer.
 
Nesse sentido, Roland de CANDÉ, em “História Universal da Música”, sugere que a construção de instrumentos musicais sempre mais elaborados levou o Homo sapiens a uma “consciência musical”; fato que teria acontecido por volta de 40.000 anos atrás. Sobre isso, uma descoberta realizada por pesquisadores americanos e canadenses em 1998, na Eslovênia, mostrou-se reveladora. Trata-se de uma flauta feita com um pedaço de fêmur de uma espécie extinta de urso, com a idade aproximada de 45.000 anos. O impressionante é que esse instrumento possui quatro orifícios, ou seja, um sistema de dedilhar. Então, certamente, nessa época já existia algum tipo de escala e, consequentemente, melodias.
 
Já no início do Período Neolítico (por volta de 9.000 a. C) surgiu um fenômeno sociológico de considerável importância para a evolução da música: o sedentarismo. Com o desenvolvimento da agricultura e a construção de abrigos, a música passou a ser associada também ao trabalho; além do seu uso nos rituais de colheita, seu poder foi usado, supostamente, no sentido de propiciar a fertilidade da terra. Até então, a música era uma atividade comunitária. Um aspecto importante a ser mencionado aqui é que ainda não existia a ideia de “obra musical” e praticamente não havia separação entre autor, intérprete e público.
 
Não obstante, as concentrações urbanas favoreceram a formação de uma tradição musical que aos poucos foi perdendo sua vinculação imediata com as forças produtivas. Como consequência, veio a especialização do músico. Ao que tudo indica foram os sumerianos (primeira civilização da Mesopotâmia) e egípcios, os primeiros a desenvolver uma profissão musical organizada. É evidente que essa tradição musical não se desenvolveu de forma igual entre os diferentes povos das chamadas “altas culturas arcaicas”. Quanto a isso, a arqueologia encontrou, nas diversas civilizações (China, India, Egito, Mesopotâmia etc) evidências de diferenças no status do músico, do uso de diferentes escalas musicais e da existência de distintas funções sociais da música.
 
Sobre algumas funções sociais dessa época, sabemos, por exemplo, que nas primeiras civilizações da Mesopotâmia (Sumerianos, Império Assírio e Império Babilônico), a música era considerada símbolo de poder e de vitória. Um curioso baixo relevo encontrado nas ruínas daquela época, exibe Assurbanipal, o último grande rei da Assíria, que governou por volta de 668 a 627 a. C., voltando vitorioso de uma guerra atrás de um grupo composto por 26 músicos (instrumentistas e cantores), comandados por um flautista. Ainda sobre as funções militares, podemos citar as várias referências bíblicas sobre o uso da música pelos hebreus. Quem se lembra das trombetas na tomada de Jericó (Josué 6, 4-20)?
 
Sabemos também que os povos da Antiguidade atribuíam funções terapêuticas à música. Para Maria de Lourdes SEKEFF, em “Da música: seus usos e recursos”, a primeira referência acerca da ação da música sobre o homem encontra-se registrado Bíblia, mais precisamente no capítulo 6 do livro de I Samuel. O versículo 23 relata que o David (Rei de Israel por volta do ano 1.000 a. C.), tocava a sua harpa para afastar o espírito do mal que se apoderava de Saul. Outra fonte, um papiro médico egípcio, datado de 1.500 a. C., registra a utilização da música para estimular a fertilidade das mulheres.
 
Todavia, de modo geral, a cultura das civilizações da Antiguidade estava centrada no culto. A música foi quase sempre venerada como um meio de transmitir ordens divinas e agradecer por elas. Aliás, naquela época, a criação ou a descoberta da música, via de regra, foi atribuída a seres míticos, como Osíris no Egito, Shiva na Índia ou Apolo na Grécia.
 
É na Grécia que a música se torna arte. É verdade que esteve vinculada às manifestações sociais, culturais e religiosas. Contudo, para CANDÉ, foi pela primeira vez, no nível de uma “consciência musical”, que apareceu a ambição de criar e o gosto de escutar. Também foram os primeiros a dominar o que convencionamos chamar de “consciência científica”. Fundaram as bases da teoria musical; deixando textos que, posteriormente, foram absorvidos pelo Cristianismo.
 
Entretanto, o que chama a atenção é que com o tempo a música passou a ser um dos principais elementos na organização política do estado grego. Para Najat NASSER, no artigo “O Ethos na Música Grega”, os gregos acreditavam que existia uma correlação entre determinadas fórmulas musicais com processos naturais capazes de influenciar o comportamento humano. Para tanto, a música foi transformada em um requisito básico na educação dos cidadãos. Assim, além do poder de moldar o caráter, a educação musical direcionava a conduta social e política de cada indivíduo; cumprindo assim, adequadamente seu papel junto ao estado. Concluindo, as questões relativas aos princípios éticos e estéticos da música foram tratadas por Aristóteles (“Política”) e Platão (“República” e “Leis”).
 

Sugestões de leitura:
FREIRE, Vanda Bellard. Música e Sociedade: uma perspectiva histórica e um a reflexão aplicada ao ensino superior de música. Florianópolis: ABEM, 2011.

SEKEFF, Maria de Lourdes. Da música, seus usos e recursos. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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