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Peçam perdão a suas mães

29.04.2015 - 11:46:29
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Goiânia – Nesse dia das mães, deem as flores de costume, doem os frascos de perfume, as panelas que fritam sem gordura, os novos modelos de celular, um dia de princesa num spa. Poupem-nas de chorar ao cortar as cebolas do almoço ou do jantar. Façam com que corem e chorem com suas coroas de leoas trabalhadoras ou de divas do lar. Atendam à chantagem emocional do comércio e repitam os clichês do marketing como néscios. Mas peçam principalmente perdão a suas mães. E como os políticos demagogos, mas sem tal demagogia, na pessoa delas, cumprimentem e roguem que sejam perdoados por todas as mulheres que elas reinventam e reapresentam, desde que homens inventaram a criação, a danação de Eva, a maldita culpa feminina, a caixa de Pandora onde se guardam todos os males do mundo.

 
As suas dívidas de homens são incalculáveis. Não, vocês não lhes devem a vida, porque também são criadores dela. Não se ajoelhem num altar de mero pesar. A maternidade é uma escolha, é consentida, ainda que muitas vezes não seja escolhida. A maternidade é um ato de profundo egoísmo, não de generosidade-chantagem. É uma mãe que vos fala, uma mulher que desejou ser mãe para que pudesse amar plenamente, para que pudesse completar-se como gente.  A maternidade é instinto, é a vida clamando por ser vida, é dar-se presente.
 
As dívidas de que falo referem-se à privação de liberdade; aos tempos em que pertenceram a seus pais ou maridos, em que foram acorrentadas por anéis de noivado e casamento,  coisificadas; em que tiveram seus corpos violentados pelo sufocamento de vestidos, véus e conventos, apedrejados, tostados em fogueiras; em que tiveram seus lábios, seios e clitóris amputados, seus olhos furados, seus estudos proibidos, em que foram mantidas no calabouço e no cala-boca da ignorância. Isso até hoje acontece real ou figurativamente em muitos lugares, não só no mundo mulçumano, não só nos distantes e cruéis países africanos, inclusive aqui perto, aí dentro da sua casa, nas grandes como nas pequenas coisas cotidianas. E independentemente de se darem aqui ou agora, todas essas torturas ainda doem em nossos genes.  Ainda valemos menos no mercado, o que não dá pra entender, se damos tão bom caldo. 
 
São sutis, refinadas e diversas as formas de violência. Não se trata de pedir perdão só pela mão em soco; pela discriminação; pelos olhos roxos de pancada; pelas costelas quebradas; pelos salários menores; pela tripla jornada do trabalho, da casa e da beleza (esquálida, bombada, lipoaspirada e siliconada). Vocês devem pedir perdão a suas mães pelo seu esquecimento, porque tantas vezes, crescidos em arrogância e ambição, esquecem-se de onde vieram e para onde vão. Todos provieram daquele útero sangrento, para os vãos da terra que também são elas, as mulheres. Vocês se esquecem, homens de terno e de nariz ereto, que uma vez foram bebês, que mamaram, que tiveram as fraldas trocadas, e que não são eternos.  Talvez ao se recordarem disso, saibam que até Saddam Hussem teve uma mamãe, até ele foi neném. Quiçá possam imaginar assim também a dor que não sentiria a mãe daquele miserável ditador ao ver a foto de seu filho enforcado nas páginas dos jornais, ainda que ela soubesse que ele igualmente enforcou tantos filhos iguais. Até mesmo um iletrado jogador de futebol, ao ganhar seu primeiro milhão, corre a comprar uma geladeira frost free e uma casa nova para a mãe, até o meu guri dá a ela “tanta corrente de ouro, seu moço que haja pescoço pra enfiar”, até o mais cruel dos criminosos de pés de toddy ou de alvíssimo colarinho é capaz de voltar a ser menino chorão ao levar um puxão de orelha da sua velha progenitora, ou fechar o caixão daquela de onde saiu para a sua vida de danação.
 
Peçam perdão para que vocês possam justamente se recordar que são gente como toda a gente, que não são filhos de chocadeira, que alguém teve que lhes assear o traseiro, que na hora derradeira seus intestinos vão novamente se esvaziar e que vocês vão tornar a berrar como bebês choravam por uma mamadeira, necessitando quem lhes cuide e console, e certamente  muitos vão rezar à  Pietà, à santa intercessora e compadecida, àquela mãe que teve o filho morto em uma cruz, porque só quem experimentou a maior dor pode provar da maior compaixão e exceder-se em perdão, até pelo crucificador. Ou será que pensam que todos terão a sorte de morrer dormindo, heroica e silenciosamente, com a cabeça repousada em uma consciência limpa de ignomínia?  Peçam perdão para voltar a ter percepção de sua minúscula humanidade, para livrar seus corações de crueldade, para que tornem a ver a si mesmos como miseráveis humanos e aos outros como irmãos, iguais em leite, fezes e sangue, antes que seja tarde e debalde.
 
Peçam perdão por toda a devastação e guerra que promoveram nessa terra. Porque as mulheres são por natureza mais inclinadas à paz.  Por mais que tenham dentro de sim também a força da morte, as pulsões de Thanatos, são Deméter, desejam principalmente lavrar a terra, amar e criar suas crias. No livro On the Road, Jack Kerouac diz que tudo seria melhor se de repente os homens, sedentos de aventura, voltassem para suas casas e pedissem perdão a suas mulheres. 
 
"Certa vez minha mãe disse que o mundo jamais encontraria a paz até que os homens se jogassem aos pés de suas mulheres e lhes pedissem perdão. Isso é verdade. No mundo inteiro, nas selvas do México, nas ruelas de Shangai, nas boates de Nova York, maridos enchem a cara enquanto suas mulheres ficam em casa com os bebês de um futuro cada vez mais negro. Se esses homens parassem a máquina e voltassem para casa – e ficassem de joelhos – e pedissem perdão – e as mulheres o perdoassem – a paz desceria subitamente à terra com um grande silêncio como o silêncio inerente ao Apocalipse."
 
Não, não queremos o silêncio do Apocalipse, não desejamos castrá-los, silenciar-lhe direitos e bagos, nem que os homens nos tratem como santas ou vítimas. Também contribuímos para construir o mundo que aqui está em ruínas. Os oprimidos se transformam facilmente em opressores dos próprios oprimidos. As mulheres aprenderam a repetir papeis e a oprimir na escola da opressão. Talvez se as sociedades matriarcais tivessem se mantido, até hoje os seres humanos vivessem em cavernas. O instinto explorador, inquieto e belicoso do homem sem dúvida foi e é necessário para o desenvolvimento da ciência e da civilização, como foi preciso devorar outros animais, comer carne para  desenvolver o cérebro humano e prevalecer sobre os demais. O mundo não prescindiu de carnívoros, de engenheiros, de soldados, mas hoje carece de mães e pais completos e genuínos ou se dilapida. Não veem que estamos ficando soterrados sob tanto lixo, dor e abandono? Cavamos um fosso coletivo. A terra que retiramos é sobre nós que jogamos.
 
E pensem também no que o mundo já ganhou ao se tornar um pouquinho mais feminino. Os aleijados já não são atirados do alto dos montes. Tem-se ao menos o direito de amamentar o próprio filho. Os bebês já não são entregues a amas de leite. Todavia, mulheres ingressaram no mundo do trabalho, mas esse ele não se preparou suficientemente ainda para recebê-las com seus hormônios. Elas tiveram para ali penetrar que se portar como homens, adequar-se a regras, a sistemas de trabalho, horários masculinos. Tosaram e prenderam os cabelos, usaram ombreiras masculinizantes, vestiram terninhos, coçaram os sacos, tiveram que escolher entre prosperar na carreira ou ter filhos. Quantas empresas oferecem horários de trabalho mais flexíveis, que permitam às mães conciliar suas atividades profissionais com a maternidade? O mercado não quer saber disso. Então peçam perdão às suas mães, ajudando-as a dizer ao mercado que ele é que não lhes serve, que ele é que deve mudar, não elas.
 
 Certo dia, o patrão de uma mãe que eu conhecia, mandou-a trabalhar em seu horário de almoço. Como ela disse que não poderia, porque precisava levar seu filho à escola, ele respondeu aos gritos: eu também tenho filhos! Você tem que escolher o que é prioridade pra você! Como se pode pedir a uma mãe que escolha o que é prioridade para ela? Conseguem enxergar o absurdo disso? Um mundo que pede às mães que escolham o que é prioridade para elas? Sua carreira ou seu filho? Até quando as empresas e organizações, vestidos com bonitos discursos de responsabilidade social, darão “bom dia, hipocrisia” e distribuirão rosas vermelhas e clichês nas datas comemorativas, fechando os olhos para o fato de que as mães têm que deixar seus filhos em casa trancados ou delegando o cuidado a pessoas desqualificadas, ou empurrados para escolas que se são verdadeiros depósitos de crianças. De vez em quando os jornais noticiam histórias de bebês que morreram queimados ou em acidentes domésticos enquanto suas mães estavam no trabalho. Quantos filhos não entram para a marginalidade, porque elas, sendo chefes de família, precisam passar o dia fora e eles ficam nas ruas, sem que lhes ensine o dever e a ser humanos nessa vida? Peçam perdão para as mães desses filhos para os quais vocês reivindicam a redução da maioridade penal. Em vez de tal reivindicação, ajudem-nas a criar oportunidades para que possam educar melhor seus filhos, para que eles não sejam sacrificados no mundo do trabalho e do consumismo.
 
Ora, mas alguns dirão: as mulheres têm filhos porque querem.  Desse jeito constituiremos um mundo de exceção? Já não bastam as cotas para negros, para pobres? Agora querem cotas também para mães? Sem cotas, então.  Mas parem de passar um simples batonzinho nessa realidade covarde. Por mais justiça nas relações pessoais e profissionais entre os sexos. Paremos de virar as costas à verdade da maternidade, porque sacrificá-la é também  imolar nossas crianças e esperanças de um mundo com mais beleza e justiça.  Então é pouco gerar e fabricar um ser humano? Não, realmente não precisaremos de cotas, se os homens se lembrarem de que mulheres não procriam sozinhas. Onde estão então todos esses pais? Nos botecos, nas prisões? São pais só na hora de fazer gostoso ou de final de semana? Quantos Gèsu Bambino por aí existem?
 
Muito fácil lhes pagar salários menores, preferir contratar as jovens, bonitas, solteiras sem filhos, tratar-lhes como vasos de flores sobre a mesa e com menosprezo, e ao mesmo tempo descartá-las quando se tornam velhas e feias. Que lhes exijam de vez um atestado de estupidez e esterilidade.  Ou então parem de apontar para as mulheres os seus dedos em riste, de lhes tratar como se fossem um peso morto para uma economia que precisa produzir a cada dia mais metros e mais litros.  Já cogitaram pensar em como uma trabalhadora, se tratada com respeito pelas suas especificidades e idiossincrasias de mãe e mulher, pode se tornar mais produtiva? 
 
Estou certa de que muitas delas quando vocês lhes pedirem perdão, também lhes estenderão as mãos e lhes dirão: me perdoe também, meu filho, por minha culpa cristã, por querer enforcá-lo com meu cordão. Sim, eu sei, tendemos a ser controladoras, tendemos a querer-lhes amputar as asas, comme femme. Mas basta muitas vezes que nos digam: “nos perdoem”, que também serão perdoados, “nós as libertamos” e serão libertados. De outro modo, as mulheres, essas criaturas sangrentas e devoradoras, personificando a terra, provedora, acolhedora, mas também vingativa, irão lhes apresentar uma fatura muito alta. Já está apresentada, ora essa!
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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