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A prática da “Música Antiga” em Goiânia

24.04.2015 - 18:39:12
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Goiânia – A coluna intitulada “Interpretação histórica da música clássica”, publicada no último dia 16 de março, traz uma breve explanação sobre a Música Antiga, movimento que surgiu na Europa em meados do século XX, com os renomados músicos pesquisadores Gustav Leonhardt e Nikolaus Harnoncourt. Atualmente, a prática da Música Antiga encontra-se consolidada em vários países, principalmente com a atuação de nomes como o violinista belga Sigiswald Kuijken, o holandês Ton Koopman, o catalão Jordi Savall ou o inglês John Eliot Gardner.
 
No Brasil, destacam-se profissionais como o flautista Ricardo Kanji e o violinista Luís Otávio Santos, diretor artístico do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora, evento que há 20 anos promove e divulga a interpretação histórica da música antiga. Curiosamente, dois músicos que tiveram sua formação na Holanda, importante centro especializado nessa prática.
 
Aliás, o entrevistado nesta coluna, o flautista e professor David Castelo, fez especialização e mestrado também na Holanda (1998-2003), mais precisamente no Conservatório Real de Haia. Nesta instituição obteve o "The Post-Graduate Certificate for Advanced Studies"; o "The First Phase Diploma" e o "The Seconde Phase Diploma" (Master’s of Music – Soloist Diploma), sendo esta a mais alta titulação concedida a um instrumentista na Europa.
 
Conheci o fortalezense David de Figueiredo Correia Castelo em 2009 quando, aprovado em concurso público, tornou-se meu colega de trabalho na Escola de Música e Artes Cênicas da UFG.  Trata-se do primeiro professor universitário em Goiás especialista em Música Antiga. Sem dúvida, um marco importante para ensino e prática da chamada interpretação historicamente informada da música de concerto na terra do pequi.
 
A presente entrevista, realizada via e-mail, foi finalizada em 24 de abril de 2015.

Othaniel Alcântara: Nas últimas décadas, o movimento “Música Antiga” vem ganhando força no Brasil. Quando e como foi o seu primeiro contato com a performance histórica?
David Castelo: Eu comecei meus estudos de música aos 8 anos de idade, no Conservatório Alberto Nepomuceno, em Fortaleza (CE). Desde o início, meu instrumento foi a flauta doce. Estudei também piano e violino. Ainda em Fortaleza, tive contato com a performance historicamente informada. Lembro que foi nessa época que nasceu minha paixão pela flauta doce e pela música antiga. Aos 18 anos, deixei Fortaleza em busca de uma formação mais consistente em meu instrumento. Isso me levou a São Paulo, onde estudei regência na Unicamp e, posteriormente, me diplomei bacharel em flauta doce pela Faculdade Santa Marcelina. Minha formação teve sequência na Holanda. Lá estudei traverso barroco (flauta transversal barroca) como segundo instrumento. Flauta doce, claro, foi o primeiro! Os seis anos nos quais fui aluno do Conservatório Real de Haia foram realmente extraordinários!
 
Em Goiás, se eu não estiver enganado, tudo começou com a minha ex-colega de Filarmônica de Goiás (anos 80), Beatriz Pavan, graduada e licenciada em piano pela UFG. O que poucas pessoas sabem é que ela era violista na orquestra. Em 1990, adquiriu seu primeiro cravo e depois disso direcionou seus estudos para esta área. Fez especialização, mestrado e recentemente terminou seu doutorado na Unicamp. Nesse ínterim, formou vários grupos de câmara com outros goianos: com os flautistas Alex Pacheco, Simone Castrillon (já falecida) e Rosana Araújo; com a violoncelista Ana Cristina Pacheco e também com meus ex-alunos de violino Cindy Folly e Pedro Paulo Araújo. Como você conheceu Beatriz Pavan?
Conheci a Beatriz por ocasião do meu concurso na UFG, em 2009. Eu cheguei até ela por indicação da cravista Ana Cecília Tavares, de Brasília. Desde então, a Beatriz tem sido nossa convidada para diversos eventos ligados à Música Antiga na UFG.
 
Desde 2009, com sua chegada à capital do cerrado, o interesse por essa prática vem crescendo de maneira bem significativa. Sei que sua tarefa é muito difícil. Cito como exemplo o fato de não termos ainda um cravo na Escola de Música da UFG. Entretanto, ainda em 2009, você criou o “Colóquio de Música Antiga”. Fale um pouco sobre esse Evento que já faz parte da agenda anual da EMAC/UFG!
Logo que cheguei à UFG, fui muito estimulado pelos colegas, especialmente pelo então diretor da EMAC, Prof. Dr. Eduardo Meirinhos, a iniciar um trabalho mais consistente em Música Antiga. Nós então decidimos que o primeiro passo deveria ser abrir o curso de flauta doce. Mas, para que o tema da Música Antiga fosse efetivamente abordado era necessário aprofundar mais, criar um espaço para pesquisa e debate. Houve então uma feliz coincidência. A Profa. Dra Sonia Ray, nossa colega na UFG, ocupava a Presidência da ANPPOM (Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Música) e havia convidado a Gambista Joelle Morton, professora da Universidade de Montreal, no Canadá, para o congresso da entidade, daquele ano. Nós então convidamos a Joelle juntamente com a Profa. Silvana Scarinci (UFPR). Nascia assim o I Colóquio de Música Antiga (2009). Desde então, a cada edição, o Colóquio cresce em número de professores, alunos, cursos e concertos oferecidos à comunidade goianiense. Sempre com o apoio dos colegas da EMAC/UFG e de sua atual diretora, Profa. Dra. Ana Guiomar Rego Souza.
 
Quando li a palavra “gambista” na sua última resposta, fiquei pensando: quantos leitores desta coluna, já tiveram a oportunidade de conhecer uma viola da gamba (de perna) ou uma teorba ou qualquer outro instrumento utilizado pelos músicos dos séculos XVII e XVIII? Sei que o III Colóquio de Música Antiga será realizado entre os dias 04 e 08 de maio próximo. Quais instrumentos poderão ser vistos nos recitais oferecidos durante o evento?
Ótima pergunta, Othaniel! Nos Colóquios de Música Antiga, nós procuramos apresentar ao grande público os instrumentos que eram efetivamente utilizados entres os séculos XVII e XVIII. Nessa edição, ofereceremos os cursos de violino barroco, flauta doce, teorba, cravo e canto barroco. Além desses instrumentos, o público verá nos concertos a viola da gamba e o traverso barroco (a flauta transversal barroca). Importante ressaltar que os convidados do evento possuem uma longa trajetória na música antiga; estudaram a técnica específica desses instrumentos e estão entres os maiores especialistas do país na área.
 

O gambista Robert Smith e  Israel Golani interpretam “Chaccone”, do compositor barroco francês Marin Marais (1656-1728)

Ao afirmar “estudaram a técnica específica” dos instrumentos antigos, você está contemplando também os conhecimentos sobre a estética barroca?
 Sim, com certeza! Isso significa um conjunto de estudos como estética, retórica, dentre outros. A técnica dos instrumentos históricos foi reconstruída a partir dos tratados de época que informam não apenas sobre fazer soar o instrumento, mas também, e principalmente, de que maneira deveria soar. A questão da ornamentação é bastante representativa a esse respeito. Saber como cada um dos muitos (dezenas) de ornamentos são feitos não é suficiente. É necessário conhecer a maneira apropriada de utilizá-los. Mas há outra questão que nos obriga a ir além dos estudos da técnica específica dos instrumentos. É o fato de que os compositores desse período praticamente não faziam indicações sobre articulações, dinâmicas ou andamentos. As indicações dadas dizem respeito ao caráter geral dos movimentos e, no correr do século XVII para o XVIII, as indicações de instrumentação se tornaram mais precisas. Sobre o ponto de vista pedagógico, acho que os alunos deveria se confrontar com esse "problema" o mais cedo possível mediante a leitura de facsimiles (as edições publicadas no período).

Quando se fala em interpretação historicamente orientada, discutimos vários temas. Um deles é a busca pela autenticidade, ou seja, o ideal de reconstrução dos parâmetros de performance da época em que a obra foi escrita. Também ouvimos muito a frase “respeitar a intenção do compositor”. E sempre a discussão se esquenta e duras críticas surgem. Na opinião de muitos, a busca pela autenticidade é um objetivo inalcançável e até ridicularizam a escolha por instrumentos de época. O que você pensa sobre isso?
Essa é uma excelente pergunta! A resposta não é simples e certamente não temos espaço aqui para um aprofundamento adequado. Gostaria de citar uma reflexão de Bruce Haynes (em seu livro The End of Early Music: p. 10) que me parece bastante lúcida: “(…), Autenticidade parece ser uma intenção. Chegar a uma Performance Histórica absolutamente acurada é provavelmente impossível. (…). Mas esse não é o objetivo. O que produz resultados interessantes é a busca pela autenticidade (…).” Tão certo quanto a impossibilidade da recriação exata da música antiga é o fato de que o conhecimento histórico, conforme argumenta Nikolaus Harnoncourt, nos oferece meios para tornar ainda mais rica a execução desse repertório! O conhecimento que se desenvolveu nos últimos 100 anos é realmente substancial. Ignorá-lo seria um desperdício. Isso não significa que só devamos executar Bach com um violino barroco. Aliás, é mais comum que o desejável que músicos de alto nível se sintam desencorajados ao trabalho de performance historicamente informada por não utilizarem instrumentos de época. Para muitos, um contato mais próximo com questões estilísticas seria o suficiente. Para outros, surge a necessidade de uma experiência mais consistente com o instrumento histórico. Considero muito seriamente essas e outras questões ao organizar cada edição do Colóquio de Música Antiga de maneira a torná-lo um evento o mais inclusivo possível.
 


Suíte orquestral “Zoroastro” escrita francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764) e interpretada pelo Grupo musical “Le Concert des Nations”, sob a direção de Jordi Savall.

Esse tema é fascinante, mas temos que encerrar a entrevista.  Então vamos para a última pergunta. Como você acha que poderia se dar a relação dos instrumentistas modernos com a música antiga?
Esse é um ponto muito curioso. O repertório da dita música antiga, de fato, foi escrito há muitos séculos. Os instrumentos “de época” também foram construídos já há muito tempo. Mas nós, músicos, somos sempre modernos, independentemente do repertório que escolhamos como nossa especialização.  Eu gostaria de colocar essa questão pela ótica da música contemporânea, sobretudo aquela que se utiliza da chamada técnica estendida. Repertório e técnica aos quais também me dedico com muito interesse. Nesse contexto, é determinante a busca da técnica e do instrumento apropriados para a execução daquilo que o compositor concebeu. Instrumentos ou técnicas pouco adequadas eventualmente impossibilitam a performance da obra contemporânea. No caso da música antiga, não é tão diferente. Claro que Bach ou Vivaldi podem ser tocados com instrumentos modernos. Mas será que não valeria a pena olhar para esses compositores com outros “ouvidos”? Será que não valeria a pena explorá-los à luz de novas sonoridades, de novas possibilidades? Mesmo no instrumento moderno! Não se trata de dizer que isso ou aquilo é certo ou errado, atual ou ultrapassado. Esse tipo de juízo de valor empobrece discussões, investigações e práticas que podem tornar nosso fazer artístico mais e mais rico. Seja ele o da música moderna ou o da música antiga! 

Fica o convite:
 
III Colóquio de Música Antiga
04 a 08 de maio de 2015

 
Cursos:
Violino Barroco / Prática de Orquestra Barroca – Prof. Juliano Buosi
Canto Barroco / Prática de Madrigal – Prof. André Vidal e Profª Cecília Apprigliano
Flauta doce – Profª Lúcia Carpena
Cravo – Profª Beatriz Pavan
Teorba – Profª Silvana Scarinci
 
Concertos
Dos dias 04 a 08 de maio, às 20h, na Paróquia São Francisco de Assis 
Maiores informações aqui

 

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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