Zurique – Quando a intensidade do que se vive é muito grande, as palavras somem. Foi tanto tumulto, que preferi calar. Todos falando ao mesmo tempo, disputando verdades e mentiras. Cacofonia pura.
A Copa que não ia acontecer, aconteceu, entre mortos e feridos salvaram-se alguns, derrotas e vitórias foram esquecidas. Houve guerras, prisões, revoltas, bombas, acidentes, mortos, escândalos, crimes e também férias nas praias, nas montanhas, em Paris, fotos de princesas em St. Tropez e bombas caindo em escolas e hospitais. O mundo continuou a girar, a rir e a sangrar.
Por isso, quis falar sobre o sexo dos anjos, de tudo um pouco ou quase nada, falar de algo tão imponderável, que ao invés de dividir, possa unir em um denominador comum qualquer. Cansada de política e escândalos pré-fabricados nas manchetes dos jornais. Sempre digo, é mais fácil amar a humanidade inteira do que o vizinho barulhento.
É mais fácil amar o abstrato do que o concreto, é mais fácil resolver os destinos do país e da economia mundial do que os problemas da escola do filho ou do pai doente. A distância torna tudo mais próximo e a ausência facilita o entendimento. Como não amar um amigo querido que só vemos uma vez por ano? Mas como evitar brigar com o irmão, o ex-marido ou a filha adolescente, que nos irrita já no café-da-manhã?
Para as doenças do mundo não há cura, mas é possível acalmar a dor de cabeça de um amigo com uma aspirina ou uma pequena cumplicidade. O mais próximo é sempre possível. Uma troca de olhares, a mão nos ombros, um comentário sobre o tempo, chuva, sol ou tempestade. Não importa, qualquer tipo de proximidade é benção.
Todo macro é feito de muitos micros. Se cuidarmos bem do vizinho ou do moleque que limpa os vidros por uns trocados, estaremos cuidando bem do país ou da economia mundial. Mas não pretendo escorregar na retórica política, nem mesmo sem querer. Os índices do Brasil vão muito bem, obrigada. Basta consultar as fontes, mas o momento é polêmico, discórdias invadem qualquer possível debate. Por isso, me calo. Não para sempre, apenas no exato instante presente. Outro ventos me movem.
Os ventos que trazem o que nos sustenta. O que realmente importa, os vínculos emocionais, os sentimentos que tecem a teia da vida. O que sempre fica, quando todos se vão, um a um. Quando a vida se desfaz e vira quase ar, mar, vira furacão, ciranda louca, girando tão rápido, dando tantas voltas, que quanto mais se prende, mais se cai. E não adianta querer parar, descer do trem porque só existe a estação final.
E se você tenta segurar o tempo com as mãos, ele escorrega entre os dedos, feito areia, feito água. E as pessoas queridas se vão, os filhos crescem e as casas caem, amigos adoecem e você fica parado em pé na calçada se perguntando pra que lado correr. Pro supermercado, pra escola, pra casa da avó que não existe mais, subir na árvore que cortaram, para onde você quer correr?
Não adianta, não existe fuga, o tempo é um só, ele não passa, ele fica. Flui como o rio mais próximo, não vai a lugar algum, não vem de lugar algum, é início meio e fim. E nós somos pouca coisa, ventania, água e ar. Aquilo que escorre entre os dedos, aquilo que fica e vai, o que fomos e deixamos de ser, o que sentimos e esquecemos, o que amamos e deixamos de amar, vida não se segura.
Como diria um querido poeta russo, sou toda coração.