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50 músicos na pista de patinação

15.09.2015 - 09:17:41
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Goiânia – Não, não estou falando de patinação artística. O assunto é a Filarmônica de Berlim, uma das mais prestigiadas orquestras do mundo. Sua atual sala de concerto, a Philharmonie, foi eleita recentemente, pelo jornal britânico “The Guardian”, como a quinta melhor do planeta. A instituição ostenta ainda uma sala virtual de concertos, além de sua própria gravadora. Mas, as primeiras décadas dessa Orquestra não foram fáceis.

 
O site oficial da Orquestra Filarmônica de Berlim informa que tudo começou em março de 1882, quando 50 dos 74 músicos de um conhecido conjunto musical de entretenimento, insatisfeitos com as condições de trabalho, decidiram romper com o empregador Benjamin Bilse. Rapidamente organizaram-se numa espécie de cooperativa que ficou conhecida pela sigla Gmbh. Ainda no mês de fundação, os integrantes da nova orquestra elegeram o alemão Ludwig von Brenner (1833-1902) como regente titular. O primeiro concerto aconteceu no mês de maio. E nos meses seguintes, várias apresentações foram realizadas em Berlim e em turnês pela Alemanha. 
 
Berlim, à época, não possuia uma tradição musical. Estava distante de outros centros como, por exemplo, Leipzig e Viena e suas imponentes salas de concerto. A recém-criada Orquestra não conseguia atrair um grande público, mesmo optando por manter um repertório “leve”, de entretenimento. Diante das dificuldades financeiras iniciais, os músicos firmaram parcerias com o famoso violinista austro-húngaro Joseph Joachim (1831-1907), então diretor da Academia Real de Música (Berlim), e com o empresário alemão Hermann Wolff (1845-1902). Por intermédio desse último, a jovem orquestra conseguiu um espaço fixo para ensaios e concertos, uma casa de patinação desativada em Berlim.
 
O primeiro concerto em casa e já usando o nome Philharmonisches Orchester, foi realizado em 17 de outubro de 1882. Na verdade, não sei se todos aqueles 50 músicos rebeldes participaram dessa apresentação ou se o grupo já estava maior. Enfim, o local ficou conhecido como Philharmonie.
 
A Philharmonie em Bernburger Strasse, Berlim – cartão postal de 1900 (Foto: Wikipedia)

Mesmo diante das adversidades, durante os cinco anos da “era” Ludwig von Brenner, a Philharmonisches Orchester teve como regentes e solistas convidados em seus concertos, alguns dos mais importantes nomes da música clássica de todos os tempos: Joseph Joachim (1831-1907), Clara Schumann (1819-1896), Anton Rubinstein (1829-1894), Johannes Brahms (1833-1897), Antonín Dvorák (1841-1904), Camille Saint-Saëns (1835-1921), Max Bruch (1838-1920) e Hans von Büllow (1830-1894).

O primeiro revés – partituras e instrumentos destruidos.
Em 1885, Joseph Joachim conseguiu um bom contrato para a Filarmônica de Berlim. Durante aquele verão, e por mais 25 anos ininterruptos, o grupo musical “entreteria” hóspedes de um luxuoso spa localizado em Scheveningen, na Holanda. Mas, segundo Norman Lebrecht, no livro “O mito do maestro”, no verão de 1886, devido a um incêndio no cassino daquele estabelecimento, os músicos perderam seus instrumentos e partituras. A agência do violinista Joseph Joachim comandou uma operação para salvar a Orquestra, levantando fundos através de recitais. Os Mendelssohns, família de banqueiros da cidade, ajudaram financeiramente. Hermann Wolff prometeu empresariar toda a temporada por sua própria conta e risco. A partir de então, assumiu definitivamente a gestão financeira da Philharmonisches Orchester, com uma condição: a permissão para escolher o novo regente titular.
 
Assim, em 1887, Hermann Wolff contratou para o cargo de regente titular, o grande pianista alemão Hans von Büllow (1830-1894), genro do famoso pianista e compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886). No ano seguinte, o prédio da pista de patinação, passou por uma grande reforma, transformando-se, de fato, em uma sala de concertos. O novo maestro fez também algumas modificações na rotina da Orquestra. Com ele, a música passou a ser, realmente, o elemento principal dos espetáculos. Para isso, aboliu a comelança durante as apresentações. E acreditem! Chegou a mandar trancar as portas de uma sala em Hamburgo, com o objetivo de “educar” o público. Para Norman Lebrecht, embora outros tenham auxiliado, o intransigente Bullow foi decisivo no sentido de trazer respeito à instituição. Formou a base para a posterior fama internacional da Filarmônica de Berlim.

As primeiras gravações em áudio
Com a aposentadoria de Hans von Büllow em 1892, o empresário Hermann Woff, depois de testar alguns postulantes, entregou, em 1894, o cargo de regente titular ao jovem alemão Richard Strauss (1864-1949), um aluno e protegido de Büllow. No entanto, o brilhante compositor não atendeu às expectativas comerciais, seus programas não atraíram muito público para os concertos por assinatura da Orquestra. Seu substituto, o húngaro Arthur Nikisch (1855-1922), fez sua estreia em 14/10/1895. Com um contrato vitalício, conduziu a Filarmônica por 27 anos, até a sua morte aos 67 anos, em janeiro de 1922.
 
Foi na “era” Nikisch, mais precisamente em setembro de 1913, que a Filarmônica de Berlim fez o primeiro registro fonográfico de sua história. Sob a batuta de um regente convidado, o alemão Alfred Hertz (1872-1942), a Orquestra gravou em 78rpm, trechos da Ópera “Parsifal” de Richard Wagner (1813-1883). Em novembro do mesmo ano, sob a direção de Nikisch, a obra gravada foi a Quinta Sinfonia de Beethoven. Abaixo, esse registro:
 

Mais um revés – a destruição da Philharmonie
A primeira sede da Orquestra Filarmônica de Berlim foi completamente destruída em 30/01/1944, em um ataque aéreo imposto pelos aliados, durante a Segunda Guerra Mundial. A instituição esperaria quase vinte anos por outra casa própria.
 
O regente titular da época, o alemão Wilhelm Furtwängler (1886-1954), havia sido eleito, pelos músicos, para o cargo em 1922, contrariando a vontade da viúva de Hermann Wolff (1845-1902), Louise Wolff (1855-1935), à frente da agência fundada pelo marido e ainda responsável pela gestão financeira da Philharmonisches Orchester.
 
A Filarmônica de Berlim e o nazismo
Com a ascensão dos nazistas ao poder na década de 1930, a agência de Loise Wolff (Wolff & Sachs) foi fechada. A Filarmônica de Berlim, que vinha enfrentando constantes crises financeiras, foi comprada pelo Reich e utilizada como instrumento de propaganda do regime. Furtwängler, por sua vez, ficou conhecido pela relação ambivalente com o Partido Nacional-Socialista alemão. Teria usado seu prestígio para ajudar músicos judeus? Ou teria feito um pacto com Hitler, como perguntaram os jornais de Berlim depois da guerra.
 
Leia mais sobre a história da Orquestra Filarmônica de Berlim nas colunas:

 
Visite o site da Orquestra Filarmônica de Berlim:
 

 
* CONCERTOS ONLINE – o Digital Concert Hall oferece concertos ao vivo, em live-streaming, além de um arquivo com apresentações mais antigas e documentários. Funciona na base de assinaturas, com taxa única.

* VISITA VIRTUAL – conheça a atual sede da Orquestra Filarmônica de Berlim por meio de imagens interativas em 360 graus. É grátis!

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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