No ano de 1933, encontramos ao menos duas importantes datas relacionadas à História da Música de Goiânia. Melhor detalhando, a primeira delas – 27 de maio – diz respeito ao início dos trabalhos de organização do plano definitivo da cidade que seria a nova capital do Estado, conforme bases fixadas no Decreto N. 3.359, de 18/05/1933, assinado pelo Interventor Federal Dr. Pedro Ludovico Teixeira. Já a segunda, 24 de outubro, refere-se ao Lançamento da Pedra Fundamental1 da atual capital do Estado de Goiás.
Nas duas datas acima mencionadas, houve uma série de eventos de natureza política e religiosa e, como não poderia deixar de ser, a música ali se fez presente, por meio das apresentações de bandas, corais e de outros pequenos conjuntos instrumentais. Mas, de onde vieram esses músicos?
Dos autores que se atentaram a relatar tais acontecimentos, alguns deles fizeram breves relatos acerca dos artistas responsáveis pelas primeiras atividades musicais na região destinada à construção da cidade que, apenas em 1935, receberia o nome de Goiânia.
Os primeiros deles [músicos] eram residentes na cidade vizinha – Campinas – também conhecida por Campininha das Flores, hoje, bairro da atual Capital goiana. Especula-se, ainda, que outros tantos teriam vindo de várias cidades do interior de Goiás.
A primeira Missa (27/05/1933)
Nesse sentido, conforme atesta a Irmã Áurea Cordeiro Menezes (1981, pp. 20 e 184), autora de O Colégio Santa Clara e sua Influência Educacional em Goiás, sabe-se que no dia 27 de maio de 1933, quando foi celebrada a primeira Missa no local da fundação de Goiânia,
Foram as alunas do Santa Clara que a solenizaram com os cantos. Trepada em um tronco de árvore, ali tombado, Irmã M. Letícia acompanhou aquelas vozes juvenis, ao violino, enquanto que a Irmã M. Izabel fazia vibrar as teclas do harmônio, levado do Colégio para aquele local, e Irmã M. Benedita regia o coral. (Menezes, 1981, p. 184).
Em outro trecho, a autora diz ainda:
No dia 27 de maio de 1933, organizado pelo Dr. Carlos de Freitas, realizou-se um grande mutirão, do qual participaram fazendeiros e grande número de habitantes de Campinas, para a roçagem do local onde deveria ser construída a nova Capital, precedido de uma Missa – a primeira – oficiada pelo padre Conrado. Lá estava o Colégio Santa Clara, representado pelo coral composto de alunas, abrilhantando o ato religioso. (Menezes, 1981, p. 20).
Nas palavras de Márcia Regina, esta que assina o Capítulo “Colégio Santa Clara Patrimônio Cultural”, encontrado no livro Campininha das Flores e sua História (2010), organizado por Antônio Moreira da Silva e Ubirajara Galli,
O coral formado pelas alunas participou, em maio de 1933, de uma missa e de um mutirão para roçagem do local onde seria construída a nova Capital. A partir de então, todas as solenidades cívicas da cidade contaram com a presença do Santa Clara. (Regina, 2010, pp. 63-64).
No livro Memória Musical de Goiânia, o musicólogo Braz Wilson Pompeu de Pina Filho assevera que o Colégio Santa Clara é o pioneiro na educação musical das cidades de Campinas e Goiânia. Braz de Pina acrescenta que, a partir de sua fundação – em 1921 -, as irmãs franciscanas ofereciam aulas de “canto, violão, piano e harmônio” (Pina, 2002, pp. 13-14).

Fonte: Campininha das Flores e sua História (2010)
Organizadores: Antônio Moreira da Silva e Ubirajara Galli
A segunda Missa (24/10/1933)
Em relação às solenidades ocorridas em 24 de outubro de 1933 – data do Lançamento da Pedra Fundamental de Goiânia – Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro (1938, p. 88) – fazendo referência à edição de 27 de outubro de 1933 do Correio Oficial de Goiás, afirma que o primeiro evento daquele dia foi uma missa campal. Esclarece a autora que essa celebração religiosa foi dirigida “pelo Padre Agostinho Forster, com acompanhamento do côro [sic] de alunas do Colégio S. Clara”.
É relevante informar que três das fontes consultadas para esse estudo disponibilizaram fotos referentes a pelo menos uma das aludidas missas. Contudo, foram encontradas incongruências nas legendas desse material. A legenda da foto abaixo, apresentada pela historiadora Irmã Áurea Menezes, diz:
"Missa: Lançamento da Pedra Fundamental de Goiânia – Presente, o "Santa Clara" – 1935.
Fonte: O Colégio Santa Clara e sua Influência Educacional em Goiás (1981, p. 271)
Autora: Irmã Áurea Cordeiro Menezes
De fato, esta foto refere-se ao Lançamento da Pedra Fundamental da Catedral de Goiânia. Nesse caso, a Missa foi conduzida pelo arcebispo Don Emanuel, em 1935. De costas e com as mãos para trás (canto esquerdo da foto): Governador Pedro Ludovico Teixeira e o Sr. Hermógenes F. Coelho (presidente da Assembleia Legislativa ).
A foto seguinte consta dos trabalhos dos historiadores Ófélia Monteiro (1938, p. 91) e Iúri Ricon Godinho (2013, p. 98). No entanto, as legendas são desconexas. Na legenda grafada na página 98 do livro A Construção (2013), lê-se: “Alunas do Santa Clara preparadas para a apresentação musical durante a primeira missa”.
Então, adotou-se para esse artigo, a descrição oferecida na edição de 1938 da obra Como nasceu Goiânia, de Ofélia Monteiro.
Alunas do Colégio Santa Clara, durante a Missa de Lançamento da Pedra Fundamental
(Segunda Missa: 24/10/1933)
Fonte: Como nasceu Goiânia – Ófélia Monteiro (p. 91).
Uma segunda foto (abaixo) presente no livro A Construção (2013, p. 98), do historiador Iúri Godinho, diz reportar ao dia 27 de maio de 1933, com os seguintes dizeres: “A missa do mês de maio, a primeira atividade naquela que seria a nova capital”. Todavia, face aos equívocos já apontados, não seria prudente fechar essa questão.
Missa celebrada em Goiânia
As bandas de música
Ao que parece, a atuação de bandas de música naquele ano de 1933, no local onde seria erigida a atual capital do Estado de Goiás, aconteceu apenas no dia do Lançamento da Pedra Fundamental. Nesse sentido, Ofélia Monteiro, mais uma vez fazendo referência à edição de 27 de outubro de 1933 do Correio Oficial de Goiás, diz que “desde o amanhecer do dia 24 cruzavam-se os acordes de diversas bandas de música, que emprestaram um caráter festivo a todas as solenidades realizadas” (Monteiro, 1938, p. 88).
Embora não deixe clara a fonte utilizada, o historiador Iúri Ricon Godinho (2013, p. 88), em seu livro A Construção, diz que se tratavam de sons de “variadas bandas de diversas cidades do interior” tocando “marchinhas populares”. É importante mencionar que, na pesquisa bibliográfica efetuada para a elaboração desse texto, não foram encontrados maiores detalhes sobre as referidas bandas musicais, exceto pela banda da cidade de Campinas, a qual será contemplada nos parágrafos seguintes.
Por sua vez, Bariani Ortencio (2011, p. 142), acrescenta que, mais tarde, terminada a parte religiosa daquela solenidade (24/10/1933) que contou com a participação das alunas e professoras do Colégio Santa Clara, uma Banda de Música oriunda de Campinas/GO, regida por José Ferreira de Araújo interpretou o Hino Nacional Brasileiro.
Zé do Ó, como era conhecido o maestro José Ferreira de Araújo, embora nascido em Minas Gerais, é considerado o músico mais antigo da região (Goiânia e cidades próximas). Conforme atesta Braz de Pina (2002, pp. 11-12), o músico transferiu-se de Pirenópolis para a Cidade de Campinas/GO, no final do século XIX. Nesta cidade histórica, foi instrumentista da Banda de Música “Euterpe” dirigida pelo ilustre maestro Antônio da Costa Nascimento (Tonico do Padre).

Fonte: Livro Memória Musical de Goiânia
Autor: Braz Wilson Pompeu de Pina Filho
Considraçãoes Finais
Após a instalação do Município, em 20 de novembro de 1933, vários outros músicos oriundos principalmente de Pirenópolis e de Vila Boa (Cidade de Goiás) chegaram à região visando explorar o novo mercado. Assim, mesmo antes de Pedro Ludovico Teixeira assinar o decreto de transferência do Governo Estadual para Goiânia (23/03/1937), as bandas2 de música já abrilhantavam eventos sociais e cerimônias de inauguração de importantes construções na cidade, tais como o Automóvel Clube3 (atual Jóquei Clube), fundado em 10/03/1935 e o Grande Hotel, inaugurado em 17/02/1937.
Quanto à implantação da música clássica na nova capital, o marco importante foi a transferência do
Lyceu de Goyaz, da Cidade de Goiás para Goiânia, em 1937. Aqui, é importante expor que os corais e pequenos grupos instrumentais organizados pelo violinista e compositor Joaquim Édison de Camargo (1900-1966), então professor daquela instituição – do futuro Liceu de Goiânia – tiveram destaque no cenário musical goianiense nos anos seguintes.
Tudo leva a crer que a prática da música instrumental (piano4 , instrumentos de cordas, instrumentos de sopros etc.) na Goiânia da década de 1930, era ainda incipiente. Por sua vez, parece ter havido uma robusta atividade no campo da música vocal.
A propósito, como bem lembra Ângelo de Oliveira Dias (2008, p. 133), no artigo O Canto Coral em Goiânia: uma trajetória, na nova capital, "os primeiros registros importantes de uma atividade orfeônica sistemática” em Goiânia surgem, principalmente, em três instituições: no Liceu, no Instituto de Educação e na antiga Escola Técnica Federal [atual IFG]. E tais atividades corais, em uma primeira fase, estiveram centralizadas “nas figuras dos professores Joaquim Édison de Camargo, Nair de Morais, Edméia Camargo, Maria Lucy Veja Teixeira e Maria das Dores Ferreira de Aquino".
Mas as atividades musicais realizadas em Goiânia após o ano de 1933 serão temas de futuras colunas. Até a próxima!
NOTAS:
1) Em matéria veiculada pelo Diário da Manhã, no dia 24/10/2001, lê-se que o marco inicial de Goiânia, sua pedra fundamental, é alvo de polêmicas e controvérsias. Para o escritor Bariani Ortencio, “uns falam que a pedra está no Palácio das Esmeraldas e o mais indicado é que esteja lá; outros falam, ainda, que estaria no Setor Universitário”, teoria do historiador Nars Chaul. No entendimento do escritor José Sêneca, o local seria a Praça do Cruzeiro, local escolhido, inicialmente para a construção da primeira catedral de Goiânia (Ortencio, 2011, pp. 144-145).
2) Especificamente acerca das bandas de música, Braz de Pina (2002, p. 18) destaca os seguintes corpos artísticos: a Banda de Música da PM, transferida da Cidade de Goiás para Goiânia em 1936, A Jazz Band da PM, A Jazz Band considerada o primeiro conjunto de dança instalado na nova capital e a Jazz Band Imperial.
3) Sobre o Automóvel Clube, a professora Maria Helena Jayme Borges versa em seu livro A música e o piano na sociedade goiana (1805-1972): “Atendendo aos anseios da população por diversão, foi fundado, em abril de 1935, o Automóvel Clube de Goiás (futuro Jóquei Clube), tendo por finalidade intensificar o convívio social dos seus agremiados (…). Após sua inauguração, o Automóvel Clube tornou-se o centro das atividades sociais da cidade (…). Ali eram realizados bailes oficiais, de carnaval, de formaturas, promoções sociais e inúmeros recitais”. (Borges, 1999, p. 77, grifo nosso).
4) De acordo com a pesquisadora Maria Helena Jayme Borges, Goiânia recebeu seu primeiro piano no dia 10 de dezembro de 1935. O instrumento foi adquirido pelo Secretário Geral, Dr. Benjamin Vieira. E “seus primeiros sons, em Goiânia, foram tirados por sua filha, Angélica Vieira, que tocou nele no mesmo dia, logo após a sua chegada (…). O segundo piano a chegar a Goiânia pertencia à escritora Rosarita Fleury (…)”. (Borges, 1999, p. 77).
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