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Você tem fome de quê?

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30.07.2012 - 16:38:31
A inauguração do Outlet Premium, no caminho para Alexânia, deixou os consumidores de Goiânia e Brasília em polvorosa. No dia da abertura do complexo de lojas, 30 mil pessoas se acotovelaram para conferir os produtos e foi preciso chamar a Polícia Rodoviária Federal para organizar o congestionamento que se formou no local. 
 
Alguns dias depois, a proprietária da Plus Galeria de Arte, Lydia Himmen, fez um comentário interessante no Twitter. “Queria muito que as mulheres se interessassem por arte como se interessam por roupas, bolsas e sapatos”. Certíssima. Só que nesse hall aí também podemos incluir os homens. O problema não escolhe gênero. 
 
Conheço muita gente capaz de passar o maior aperto do mundo para comprar uma calça jeans de marca de R$ 800, um carrão importado de R$ 80 mil ou um smartphone de R$ 2,5 mil. Geralmente, são as mesmas pessoas que acham um absurdo pagar R$ 10 de couvert artístico, R$ 50 por um ingresso de teatro ou R$ 300 por uma gravura.  
 
É interessante analisar o padrão de custo-benefício adotado pela maioria das pessoas. Pagam o que não podem por produtos que, por alguns instantes, num determinado grupo, darão a impressão de que elas são o que não são de fato. Depois disso, esses mesmos produtos irão para o lixo ou ficarão mofando no armário.
 
Quando se compra uma obra de arte, a coisa muda de figura. O que se consome ali não é um objeto, mas uma experiência. Lembro-me da primeira vez em que vi uma obra da artista plástica Ana Maria Pacheco. A sensação inicial de desconforto foi substituída por uma importante descoberta.
 
Diante dos personagens de aspecto sombrio pintados ou esculpidos por ela, me dei conta de que não adiantaria tentar ser sempre uma pessoa “solar”, alegre, aberta. Cada um de nós tem um lado negro e aceitá-lo é o primeiro passo para aprender a viver em paz, a se censurar menos, a ter mais tolerância consigo e com o próximo. Percebi que até mesmo na escuridão era possível encontrar a beleza.
 
E o interessante é que, com o passar dos anos, essa percepção foi mudando e novas sensações e constatações foram despertadas. A arte tem o poder de nos fazer refletir sobre nossas questões internas e sobre o mundo em que vivemos. Pude comprovar isso com muita nitidez na semana passada, quando fui convidada por Lydia a conhecer a sede da Plus Galeria, localizada numa charmosa casa no Setor Sul. 
 
Em meio a xilogravuras, quadros, gravuras, ilustrações e outros diversos tipos de obras de artistas plásticos talentosos, de Goiás e também de outros Estados, consegui passar da perplexidade à alegria, do encanto à introspecção, em questão de minutos. A cada manifestação artística, um novo olhar, uma nova descoberta. 
 
É impossível, por exemplo, ficar indiferente às serigrafias, aos adesivos e outras manifestações artísticas de Oscar Fortunato. Provocativo, ácido, perspicaz, ele sempre nos incita a algum tipo de reação – como passar incólume a alguém que usa uma camiseta dizendo “Eu sou o Marginal Botafogo”? 
 
O mesmo se dá com os artistas plásticos Rustoff e Marcelo Peralta. O primeiro nos seduz com retratos de corpos e rostos repletos de detalhes e significados. O segundo nos surpreende com suas incríveis ilustrações sobre objetos inusitados, como tábuas de skate. Confira mais aqui (www.plusgaleria.com.br) e verá que não é exagero.
 
Conversar com esses artistas também foi uma experiência à parte. É bonito perceber como são motivados e o quanto gostariam de ter a oportunidade de viver exclusivamente da arte. Com anos de estrada, Oscar considera que faltam políticas públicas de incentivo aos artistas plásticos goianos. “Além de termos pouco espaço para exposições, não há estímulo para a visitação de museus e galerias”, diz. 
 
Rustoff e Marcelo Peralta concordam com Oscar. Ambos são autodidatas, pois se interessaram por arte desde cedo e, por conta própria, passaram a ler livros sobre o tema, acompanhar a trajetória de outros artistas e desenvolver suas técnicas. Os dois também fazem o possível para driblar as dificuldades de conciliar seus empregos – Rustoff trabalha na Celg e Peralta na Agehab – com a carreira artística. 
 
Para Lydia, que se orgulha de manter há dois anos uma galeria que hoje é referência não apenas de apoio aos jovens artistas, mas também de qualidade e credibilidade em e-commerce de obras de arte, há uma nova geração de goianienses que viajaram para outros países ou Estados, adquiriram o hábito de visitar museus e galerias e passaram a apreciar as manifestações artísticas. Outros herdaram dos pais o gosto pela arte. Porém, ela observa que ainda é preciso percorrer um longo caminho até que eles se tornem a maioria.  
 
Enquanto isso, vamos entupindo nossos armários, gavetas e garagens com objetos que nada nos acrescentam, entulhamos nossos lixos com aquilo que um dia acreditamos que iria nos trazer alegria e satisfação. Vemos nossos impostos sendo investidos em ações que passam longe, muito longe da cultura. 
 
Nietzsche dizia que a arte existe para que a verdade não nos destrua. Para o filósofo, somente ela pode nos dar força e capacidade de enfrentar as vicissitudes do mundo e dizer sim à vida. Muitos se iludem com o pão do corpo, mas é a arte o pão da alma. Enquanto alguns estão famintos por mais produtos massificados, pasteurizados e mudos, outros buscam o que é único, repleto de significados e transforma o espírito. E você, caro (a) leitor (a), tem fome de quê? 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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