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Viver a vida

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24.04.2017 - 12:31:13
Os desajustes de hoje desaparecerão amanhã. Os embates tão apaixonados darão lugar a outros. As dores também serão substituídas. Problemas que parecem montanhas intransponíveis serão reduzidos a areias inofensivas. É esse o poder cicatrizante do tempo.
 
Pense em uma discussão de trânsito. Que significado terá ela para uma vida? Por que tanta efusividade com o que passa no abrir de um sinal? Uma escolha para onde ir em um entre tantos finais de semana? Brigas? Por quê? Porque o time fez um gol? Outros jogos nos preencherão, outros gol poderão ser defendidos ou marcados.
 
Um vaso se quebrou? Que o tempo da varredura seja o mesmo que o tempo da chateação. E nada mais. E prosseguir. 
 
Um machucado? Algumas lágrimas. E nada mais.  Um aparelho que se quebrou. Uma encomenda que não chegou. Um projeto que falhou.
Sucessões de "nãos" nos incomodarão, mas nos ensinarão, também, a dizer os "nãos" necessários. Que hão de nos proteger.
 
Uma doença chega e nos ensina. Ensina-nos a valorizar o que poderíamos perder.
 
Uma amiga, que venceu uma doença que parecia invencível, um dia me disse: "É preciso 'viver a vida', porque a vida que passa não volta e a que ainda haverá de vir talvez não venha.
 
Desperdiçamos tanto tempo maculando o sagrado tempo do amor, da amizade, dos encontros. Precisamos inaugurar uma pedagogia do encontro. Do encontro com os sonhos que restaram em nós. Que sobrevivam! Do encontro com mãos que ainda acreditam no caminhar juntos. Do encontro com os amores imperfeitos que conseguimos amealhar. Não esperem amores perfeitos. Ainda não foram inventados. Nem pessoas perfeitas. Basta que nos olhemos no espelho da consciência  e percebamos que em nós também mora a imperfeição.
 
Certo amigo disse ao outro: "Te perdoo pelos seus erros".  O outro apenas sorriu. Sorriu o sorriso da compreensão. Quem não erra?
 
Quando vejo dois idosos caminhantes, fico imaginando o meu amanhã. Acompanhado. De amores. De amigos.
 
O tempo há de nos presentear com alguma lucidez. Menos desperdícios com o efêmero e mais celebração com o eterno. O que gostaria de eternizar nos meus gestos? A arrogância ou a compreensão? A avareza ou a generosidade? O orgulho ou a delicadeza?
 
Hoje, é plantio. Amanhã, é colheita. Hoje, é colheita. Amanhã, é plantio. Plantamos e colhemos sem pausas. O que falamos expressa e constrói o que sentimos. O que sentimos se materializa no que falamos e somos. Por isso, é preciso "viver a vida". Sem concessões. Em qualquer idade. Diante de qualquer enfermidade. No enfrentamento de qualquer dor. Viver a vida como um decisão inegociável. Aproveitar cada instante para a reinvenção. Se o que foi, foi, então, é viver o que fica. Se um movimento se perdeu, há outros que merecem atenção. Se um amigo nos decepcionou, há alguém, logo adiante, aguardando um olhar amoroso.
 
Se não há dinheiro para uma longa viagem de celebração, celebre o pôr do sol. Em alguma esquina. Mas acompanhado. Sempre há alguém – não necessariamente quem teimamos desejar – disposto a assistir ao espetáculo.
 
O sol se põe. E o sol nasce. E novamente se põe. E novamente nasce. Os ciclos são um convite a separarmos o bom do que passa rápido. O que é bom permanece. Como obra humana inspirada e inspiradora. O que é bom permanece nos oferecendo sorrisos gratuitos.  Basta uma prosa, em um dia qualquer, e a alma se alimenta. 
 
Ao contrário do grito, do xingamento, das rasuras. Eles assustam a alma. E ela encolhe. E, pequena, já não vê a sucessão de belezas que compõem a nossa vida.
 
Em um velório, presenciei o adeus de uma mulher ao marido amado. O choro da saudade e a gratidão do amor sem economias. Palavras lindas de quem encontrou alguém para costurar os sentimentos e cuidar como decisão e necessidade.
 
Todos os dias chegam vidas e todos os dias vidas partem. A sabedoria está em compreender as chegadas e as partidas e viver o tempo que temos sem complicações. 
 
Vez ou outra, eu me pego lembrando do tempo ao qual gostaria de voltar. Acabo voltando às caixas tantas que armazenam o bem que vivi. Volto onde estou com vontade de prosseguir. Sabendo que sou capaz de enfrentar as tormentas com o depósito de amor que meus pais e tantos que amei, por mim, passaram.
 
Plantios e colheitas. Colheitas e plantios. Vida que segue… de preferência com bagagem leve. Para que não nos descuidemos de quem precisa de nós. 
 
*Gabriel Chalita é escritor, doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica.
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por Gabriel Chalita

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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