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Vergonha alheia: eu tenho

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05.02.2013 - 10:14:54
Goiânia – Eu sofro de vergonha alheia. A falta de educação e de senso do outro me deixa profundamente constrangida. Quando presencio um papelão protagonizado por alguém que está próximo, tenho vontade de enfiar minha cabeça num buraco, tamanha minha sem graceza diante de quem dá vexame pensando que arrasa.  
 
A última semana foi especialmente pródiga em vergonha alheia. Na quinta-feira, ao chegar em casa fui surpreendida por um homem surtado, que aos berros xingava o vizinho que gentilmente foi pedir a ele que abaixasse o volume do som ensurdecedor da festa que ele estava dando. Detalhe: era quase uma hora da madrugada. 
 
Com o rei na barriga e cheio de razão, o dono da festa gritava que era de uma família muito influente em Goiânia e que o vizinho poderia chamar a fiscalização municipal o quanto quisesse, pois nada aconteceria com ele. “Você sabe com quem está falando? Eu não sou um João ninguém. Tenho nome e faço o que quiser”, bradava. 
 
No sábado, foi a vez de sentir vergonha alheia no salão de beleza. Na hora de pagar a conta, a senhora que estava na minha frente no caixa começou a procurar pela carteira dentro da bolsa. “Meu Deus, esqueci o dinheiro em casa. Vou embora e, da próxima vez que voltar, trago o pagamento. Afinal, sou cliente fiel!”, alegou.
 
Diante da negativa da moça do caixa, ela começou a fazer um escândalo. “Você acha que vou lhe dar o calote? Minha filha, você sabe com quem está falando? Meu marido é um médico importantíssimo de Goiânia, tenho dinheiro para comprar esse salão se eu quiser”, disse ela, saindo sem pagar nem olhar para trás.
 
Desesperada, a funcionária do salão disparou a chorar. Disse que já era a terceira vez em dois meses que a “nobre” cliente fazia isso e que o gerente a havia proibido de permitir que a senhora saísse sem pagar, senão descontaria o valor do serviço do salário dela. Sem saída, a moça amargou o prejuízo. 
 
Comentando sobre os dois ocorridos com uma amiga que é professora, ela contou que na mesma semana havia passado por algo semelhante. Ao chamar a atenção de uma aluna, ouviu da adolescente a seguinte a resposta: “Cale a boca. Você não consegue nem escolher uma roupa decente para vestir e vem querer me dar lição de moral?”.
 
A adolescente em questão desfila calças jeans caríssimas na escola. Anda pendurada de joias e a cada semana usa um relógio importado diferente. No intervalo da aula, uma aluna revoltada com a falta de educação da colega contou à professora que apesar do look impecável, a geladeira da família da jovem vivia vazia e eles estavam quase sendo despejados do apartamento onde moravam, por falta de pagamento.
 
Pouca coisa nesse mundo é mais triste do que gente que quer se mostrar melhor que os outros, que quer impor autoridade não pelo respeito e pela admiração que desperta, mas pelo status que ostenta, pela casca bem lustrada. Gente que cuida da aparência como ninguém, mas paupérrima em essência, vazia interiormente.
 
Gente assim viaja para a Europa e acha uma chatice ir a museus e exposições. Quando chega nesses lugares reclama de tudo e incomoda quem está perto, pois quer saber mesmo é de estourar o cartão de crédito em lojas famosas e desfilar os importados de marca ao voltar para a “terrinha”. 
 
Mulheres assim queimam nosso filme em outras cidades e países, pois se vestem como se fossem a um casamento na hora de ir para a praia ou para o campo e chamam a atenção pela ostentação exagerada. Apesar dos saltos, óculos, roupas e bolsas de grife, não conseguem disfarçar a falta de polidez e compostura.
 
Homens assim saem dirigindo seus carros caríssimos, em alta velocidade, enquanto falam ao celular e carregam uma garrafa de vodka do lado. Pensam que a rua é deles, quase matam quem se põe no seu caminho e acham que desse jeito vão “passar o rodo nas muié” e “arrasá na balada”.    
 
Quando me perguntam “Você sabe com quem está falando?”, minha vontade é responder: “Sei muito bem. Estou falando com alguém que quer mostrar que é dono de metade do Estado, mas só tem terra debaixo da unha”. Ou então, como dizia o finado Pedro de Lara, estou falando com gente tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro.  
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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