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Vende-se a arte de amar

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02.10.2012 - 10:43:59

 
Goiânia – Nos últimos tempos, um enorme banner num shopping center de Goiânia, com o anúncio “Casamento blindado – O seu casamento à prova de divórcio”, chamou minha atenção. Sempre que passava pelo local, ficava me perguntando o que seria aquilo. Até que a curiosidade falou mais alto e fui pesquisar.
 
Descobri que o casal sorridente que posa para a foto do banner ministra cursos Brasil afora, ensinando parceiros em crise a “resgatarem o amor” e protegerem a relação “dos ataques”. Ambos são apresentadores do programa “The love school” (A escola do amor), na Rede Record, e também autores de um livro sobre o tema.
 
Ao assistir a alguns programas no Youtube, me deparei com pérolas como os vídeos “Como domesticar seu parceiro” e “Como adestrar seu homem”, nos quais os apresentadores mostram que, assim como se faz com os animais, também é possível adestrar seres humanos para terem “comportamentos desejáveis”.
 
Com linguagem simples e direta, os apresentadores dedicam os programas, cursos presenciais ou páginas dos livros a ensinar os casais a serem bem-sucedidos na tarefa de viver juntos. Se seguirem aquelas dicas rápidas, práticas e pontuais, conseguirão resgatar o amor e ter casamentos à prova de divórcio.
 
Impossível não lembrar do livro “Amor líquido”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Na obra, o autor faz uma crítica aos pretensos conselheiros amorosos, que vendem a ideia de que se pode “aprender a habilidade de amar”, de que o “domínio da arte do amor” pode ser consumido como qualquer outra mercadoria.
 
Não se pode dar dicas generalistas sobre como agir num relacionamento, pelo simples fato de que cada pessoa é única e o que funciona para algumas, não funciona para outras. É por isso que, segundo Bauman, a ilusão de que ter várias experiências amorosas nos capacitaria para amar melhor não passa disso: uma ilusão. 
 
O autor nos lembra da incômoda – mas incontestável – verdade de que todo relacionamento afetivo é um salto no escuro. Como estamos lidando com outra pessoa, que pode, a qualquer instante, mudar de interesses, objetivos e sentimentos, “ninguém pode prever aquilo que será a partir daquilo que é”.
 
Nossas tentativas de tornar conhecido e seguro o caminho rumo ao outro, de fazermos do relacionamento um abrigo confortável contra as intempéries de um mundo hostil, esbarram na constatação de que o outro estará sempre encoberto por uma névoa de mistério e imprevisibilidade, pois trata-se de universo à parte.
 
“Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido”, observa Bauman.
 
Sim, o amor é um risco. Não há garantias de satisfação. Para estabelecer relações sólidas e duradouras é preciso aceitar esse fato e as tormentas e dádivas que podem advir dele, pois o destino – nesse caso, o outro – sempre pode nos surpreender positivamente ou negativamente.
 
Mas nossa sociedade não tolera riscos nem frustrações. Ninguém quer perder tempo com algo que não dará retorno garantido. Somos imediatistas, apressados, individualistas. Queremos que o outro entre em nossa vida como uma brisa leve, sem trazer problemas, sem tirar nada do lugar, sem causar conflitos. 
 
Buscamos o conforto do amor, mas não estamos dispostos a lidar com os incômodos que ele pode gerar – afinal, o outro pode perder o emprego, adoecer, ficar deprimido, entrar em crise sobre os rumos de sua vida, ter gostos e manias diferentes dos nossos, questionar nossos valores…
 
Para fugir da dor, estabelecemos laços cada vez mais precários, que de tantas exigências e limites impostos, se transformam em muros. Não nos expomos ao risco, mas também não conseguimos atravessar a ponte. Não existe troca. Como lembra Bauman, há conexões e desconexões, pois sempre se pode apertar o delete. 
 
O autor diz que para amar é preciso ter humildade e coragem. Humildade para reconhecer que estamos à mercê do risco, que num dado momento precisaremos rever nossos conceitos e caminhos. Coragem para fazer a travessia rumo ao encontro de outro alguém, que não sabemos como nos receberá. 
 
“Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível”, afirma Bauman. Não há receitas. Se buscarmos ajuda, precisaremos de um suporte personalizado, que nos dê um novo olhar sobre a nossa histórica única e incomparável.
 
Mas não temos tempo para isso. Precisamos de satisfação imediata. Manuais que vendem a arte de amar são mais fáceis e rápidos. Num mundo que vive de consumir e descartar objetos de desejo, que não tolera nada que seja duradouro ou sólido, o amor precisa ser líquido. Tão líquido que, fatalmente, escapará por nossos dedos.  
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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