Adriana Marinelli
Goiânia – O ateliê ocupa um espaço pequeno. O alcance do negócio, não. De Goiânia, a artesã Rosiméria Pimentel envia acessórios autorais, como colares e adornos para o cabelo, a consumidores de mais de 25 países, principalmente noivas e profissionais da moda. Conhecida como Rosa CanaBrasil, a empreendedora transformou um trabalho manual, desenvolvido peça por peça, em uma marca com clientes na Europa, na Oceania e em outros mercados. Os preços variam conforme o modelo e a complexidade de cada criação, já que todo o processo é feito artesanalmente.
Nada disso fazia parte dos planos quando a loja Brico Reprô foi aberta, em 2014. Natural de Rio Verde, Rosa, a idealizadora da marca, trabalhava como educadora em um projeto social quando recebeu um pedido que mudaria sua trajetória. “Uma parente precisava de ajuda para confeccionar uma tiara de flores para um ensaio de gestante”, conta Rosa ao lembrar que, depois disso, outras encomendas vieram. “Em menos de um ano, o que era complemento de renda, virou prioridade. Deixei o emprego com carteira assinada e reservei um espaço da quitinete onde eu morava para montar meu ateliê”.
Peças vendidas na loja Brico Reprô (Fotos: divulgação)
O pequeno negócio ganhou estrutura e se profissionalizou ao longo dos anos, mas a essência da Brico Reprô permaneceu a mesma. Com base na bricolagem, técnica associada ao conceito do “faça você mesmo”, Rosa transforma materiais que muitas vezes seriam descartados em acessórios autorais, além de objetos e esculturas artísticas. Nos períodos de maior demanda, conta com a ajuda de outras mãos talentosas para produzir as peças.

O mercado internacional surgiu alguns anos depois da criação da marca e abertura da loja no campo virtual, impulsionado pelas redes sociais. “Foi depois de um vídeo orgânico, publicado no TikTok, em que uma noiva usava um acessório da marca. Esse vídeo atingiu mais de 500 mil visualizações em pouco tempo”, lembra. De acordo com Rosa, o alcance foi tão bom que clientes de diferentes países passaram a procurá-la. A primeira venda para o exterior foi destinada à Inglaterra, em 2023. “A cliente é fã da saga Harry Potter. Ela encomendou um adereço de cabelo para usar em uma celebração de aniversário. Fiz a peça baseada em um objeto marcante da saga e o modelo foi um sucesso. Até hoje inspira outros pedidos”, arremata a idealizadora da Brico Reprô, que ainda ostenta no currículo o fato de ter sido a primeira colocada na etapa estadual do prêmio Sebrae Mulher de Negócio, na categoria Negócios Internacionais.
Primeira peça vendida por Rosa CanaBrasil a cliente de outro país (Foto: arquivo pessoal)

A experiência de Rosa CanaBrasil com a loja Brico Reprô ajuda a explicar um cenário que vem ganhando espaço em Goiânia e outras regiões do País. Com apoio das plataformas digitais, pequenos varejistas têm encontrado no mercado externo uma oportunidade para ampliar as vendas e disputar consumidores além do território brasileiro, movimento que começa a aparecer também nos indicadores do comércio e da internacionalização dos negócios.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que, em 2025, as micro e pequenas empresas (MPEs) responderam por 49% dos empreendimentos exportadores de Goiás, ante 46% registrados no ano anterior. Em números absolutos, o Estado passou de 234 para 263 pequenos negócios atuando no mercado internacional, um crescimento de 12%, percentual superior ao avanço de 5,9% verificado entre as grandes empresas exportadoras no mesmo período.

Embora representem praticamente metade dos CNPJs exportadores do Estado, com maior número concentrado na capital, as micro e pequenas empresas ainda têm participação modesta no volume financeiro das vendas externas. Juntas, respondem por cerca de 0,2% do valor exportado por Goiás, indicador que revela um cenário de expansão em número de empresas, mas ainda marcado por limitações de escala e competitividade.
Na avaliação do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Goiânia, Gustavo Henrique Marcelo de Faria, o crescimento da participação dos pequenos negócios no comércio exterior demonstra que, apesar do cenário desafiador, existe potencial para ampliar a presença do varejo goiano em outros mercados. Em entrevista ao jornal A Redação, ele afirma que o principal desafio deixou de ser o interesse em exportar e passou a ser a capacidade de transformar essa inserção em operações mais robustas.
“Os dados mostram esse interesse dos pequenos negócios goianos para acessar mercados internacionais. No entanto, ainda há uma diferença significativa entre participar das exportações e alcançar volume financeiro relevante”, reforça. Segundo o dirigente, os obstáculos passam, entre outros pontos, pela falta de escala produtiva, pelo desconhecimento sobre o mercado externo e pelas dificuldades para atender exigências técnicas e regulatórias de outros países. “Cito ainda custos logísticos elevados, acesso limitado a linhas de financiamento específicas para internacionalização e, principalmente, pela ausência de uma cultura exportadora entre muitos pequenos empresários.”
Para Gustavo, a transformação digital vem reduzindo parte dessas barreiras e tornando o mercado internacional mais acessível aos pequenos varejistas. “Hoje a exportação deixou de ser uma estratégia exclusiva das grandes indústrias. A transformação digital abriu oportunidades para empresas de todos os portes”, destaca. Segundo ele, o comércio eletrônico permite que lojistas iniciem esse processo por meio de marketplaces internacionais ou atendendo nichos específicos com produtos de maior valor agregado, sem a necessidade de uma estrutura complexa.

O presidente da CDL Goiânia ressalta, ainda, que esse movimento tende a ganhar força à medida que mais empresas compreendam a exportação como estratégia de crescimento. “Em muitos casos, a internacionalização pode acontecer de forma gradual. Além disso, exportar reduz a dependência do mercado doméstico, amplia o público consumidor, fortalece a marca e cria novas oportunidades. Em um cenário econômico cada vez mais globalizado, pensar internacionalmente deixou de ser uma opção e passou a ser uma estratégia importante de diversificação para muitas empresas”, acrescenta.

A relevância desse movimento também se explica pelo peso que o varejo exerce na economia goiana. Os dados mais recentes da Pesquisa Anual de Comércio (PAC), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no fim de julho deste ano, mostram que o segmento concentra a maior parte das empresas comerciais em atividade no Estado. Das 79,7 mil empresas do comércio registradas em 2024, mais de 57,3 mil pertenciam ao varejo. O atacado reunia 13,7 mil empreendimentos, enquanto o comércio de veículos automotores e motocicletas somava 8,8 mil empresas. Embora o atacado tenha liderado a geração de receita, com R$ 153 bilhões, é o varejo que sustenta a maior parte da estrutura empresarial do setor.
A liderança também se reflete no mercado de trabalho. Segundo o IBGE, o comércio varejista ocupava 264,6 mil pessoas em Goiás em 2024, se firmando como o principal empregador do setor comercial. A força do varejo no mercado interno também ajuda a explicar por que um número crescente de pequenos negócios tem voltado os olhos para o exterior. Mas nem todos os segmentos reúnem as mesmas condições para competir fora do País. Enquanto alguns produtos enfrentam maior concorrência internacional, outros encontram justamente na identidade regional, no design e no valor agregado o caminho para conquistar consumidores em diferentes mercados.

Na avaliação de Gustavo de Faria, setores como moda, confecção, calçados, joias e semijoias, cosméticos naturais, alimentos industrializados com identidade regional, bebidas especiais, artigos de decoração, produtos artesanais e itens ligados ao agronegócio reúnem características valorizadas pelo mercado internacional. De acordo com ele, esses segmentos conseguem agregar valor por meio da qualidade, do design, da identidade cultural e da diferenciação. “O consumidor internacional busca cada vez mais autenticidade, sustentabilidade e produtos com história, características que muitas empresas goianas já possuem”, complementa.
Há, conforme pontua o presidente da CDL Goiânia, um fator que tende a impulsionar a presença de pequenos varejistas goianos no mercado internacional nos próximos anos. Após quase três décadas de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio, estabelecendo uma zona de livre comércio entre os dois blocos. A expectativa é de redução gradual de tarifas e de parte das barreiras comerciais, tornando mais previsível o ambiente de negócios, incluindo os empreendimentos do ramo varejista. “A eventual implementação do acordo representa uma oportunidade importante para ampliar o acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo. A redução gradual de tarifas e a maior previsibilidade nas relações comerciais tendem a aumentar a competitividade das empresas brasileiras”, avalia Gustavo. Ele pondera, entretanto, que os benefícios não serão automáticos. “Essa oportunidade será mais bem aproveitada pelas empresas que estiverem preparadas”, conclui.
O cenário de otimismo, mas com cautela, descrito pelo presidente da CDL Goiânia é compartilhado por varejistas goianos que buscam ampliar presença com clientes de outros países. Entre eles estão os responsáveis pela Mapila Alimentos, indústria familiar especializada na produção de temperos e molhos de pimenta que também atua diretamente no varejo, comercializando produtos ao consumidor final principalmente pela Shopee, marketplace que conecta compradores e vendedores, e na loja física instalada na própria fábrica, em Goiânia. À frente da empresa, Marcelo Pinheiro de Lima Abreu vê no acordo entre Mercosul e União Europeia uma oportunidade para acelerar e intensificar a internacionalização. “Estamos bastante otimistas. São países com grande potencial e nossos produtos chegarão bastante competitivos”, projeta.

Fundada em 1986, em Mozarlândia, no Norte goiano, a empresa nasceu como Conservas Caseiras Mapila. Marcelo conta que começou a cultivar pimentas e produzir molhos artesanalmente ainda aos 16 anos. Hoje, na segunda geração da família, a indústria abastece o mercado nacional por meio de representantes comerciais, marketplace e televendas, além de já operar no mercado externo. A primeira exportação surgiu após a participação na Feira Internacional do Comércio Exterior do Brasil Central (Ficomex), realizada em Goiânia, em 2025. “Apresentamos nossa marca e nossos produtos para oito empresas de oito países e tivemos êxito primeiramente pela Índia, através de um distribuidor em Mumbai”, relata. Desde então, a empresa também apresentou seus produtos a representantes de outros 26 países em feiras de negócios e por intermédio de embaixadas.
Para Marcelo, iniciar as exportações justamente pela Índia teve um significado especial. “Iniciamos nossas exportações com o pé direito, porque a Índia é bastante conhecida pelas especiarias e temperos. É um povo que consome muito condimento e que vive no país mais populoso do mundo”, ressalta. Atualmente, a Mapila possui capacidade para produzir até 200 mil unidades por mês, reúne mais de 80 produtos no portfólio e investe em certificações voltadas ao mercado internacional, como o certificado de alimento confiável concedido pelo Senai e a certificação Halal, exigida pelo mercado muçulmano.
Mapila Alimentos vende produtos na loja física e em marketplaces (Fotos: divulgação)
Segundo o empresário, a entrada no comércio exterior também foi resultado do suporte recebido durante o processo de internacionalização. “O apoio do Sebrae, por exemplo, foi fundamental para termos acesso às rodadas de negócios junto aos importadores e também aos programas da Apex Brasil”, afirma.

Apesar do cenário promissor, desde que seja explorado de forma estratégica, ainda é grande a parcela de varejistas que enxerga a exportação como um processo distante da realidade dos pequenos negócios. “Em muitos casos, eles possuem produtos competitivos, mas não conhecem os canais adequados para comercialização internacional, distribuidores ou programas de promoção comercial. O desafio, portanto, não é só vender para fora, mas estruturar o negócio para competir internacionalmente de forma sustentável”, enfatiza Gustavo de Faria, que preside a Câmara de Dirigentes Lojistas de Goiânia.
Nesse processo, entidades representativas têm assumido papel estratégico na preparação dos empresários para o mercado internacional. Segundo o dirigente da CDL Goiânia, um dos principais entraves ainda é a falta de informação sobre como iniciar uma operação de exportação. Para reduzir essa distância, a entidade atua como elo entre os varejistas e instituições especializadas, promovendo capacitações, seminários, rodadas de negócios, missões empresariais, encontros com especialistas em comércio exterior e eventos voltados à internacionalização.
“O nosso papel é criar um ambiente em que o pequeno empresário tenha acesso à informação, orientação e conexões estratégicas para transformar o potencial exportador em geração efetiva de negócios, renda e desenvolvimento econômico para nossa cidade”, afirma Gustavo.
O trabalho de preparação dos pequenos varejistas para o mercado internacional também conta com a atuação do Sebrae Goiás, parceiro da CDL Goiânia em ações de capacitação e orientação empresarial. Por meio do programa Move+ Internacionalização, a instituição oferece uma jornada que começa com o diagnóstico de maturidade da empresa e avança para consultorias especializadas, capacitações e aproximação com compradores internacionais. Entre 2025 e 2026, 47 empresas passaram pelo diagnóstico, 32 participaram de capacitações e 15 já estiveram presentes em ativações comerciais e eventos de mercado. Uma delas, inclusive, fechou uma exportação de US$ 30 mil para a Índia.
Segundo o diretor técnico do Sebrae Goiás, Marcelo Lessa, a internacionalização exige um planejamento individualizado, já que cada negócio possui características e desafios próprios. “Quando a gente fala de mercado de exportação, não tem como ser uma consultoria genérica. Ela é muito específica, direcionada mesmo”, afirma. Além da preparação técnica, o Sebrae também promove rodadas de negócios, missões empresariais e ações de conexão comercial com mercados estratégicos, como a missão realizada neste ano para o setor de cachaças goianas em Lisboa.
Para Lessa, o crescimento da presença dos pequenos negócios goianos no mercado externo depende menos do porte da empresa e mais do nível de preparo para competir internacionalmente. “As pessoas precisam entender que esse é um mercado promissor e cheio de oportunidades, mas exige planejamento, competitividade e estratégia. Exportar não é para qualquer um, não é para qualquer empresa, é para quem está disposto a se preparar para competir no mundo.”

