“É muito difícil amar alguém que não tem perdão, alguém tão cheio de raiva”, desabafa Gustav Borg, o personagem de Stelan Skarsgard em Valor Sentimental, embriagado, enquanto confronta sua filha mais velha, Nora. Nós enquanto audiência, sabemos, porém, o tempo todo, das falhas de Gustav como pai, da sua ausência, distância, frieza e, ainda assim, conforme os olhos de Nora se enchem de lágrimas furiosas, é difícil não sentir simpatia: nós também conhecemos sua solidão, sua insegurança, sua depressão.
Valor Sentimental é um filme que aposta na delicadeza das emoções e colhe resultados profundamente humanos. Com uma narrativa intimista, a obra constrói seus conflitos a partir de relações familiares marcadas por silêncios, ausências e afetos mal resolvidos, tratando a memória e o pertencimento não como ideias abstratas, mas como forças vivas que moldam escolhas e identidades e que guiam ações e comportamentos que podem durar a vida toda.
O filme gira ao redor do relacionamento de Gustav com as filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), mas também a infância delas, a infância dele e o momento presente, tudo junto, abordando de maneira orgânica como o trauma geracional anda de mãos dadas com os amores e os ressentimentos de família.
A metáfora mais óbvia do filme gira ao redor da casa de família, construída duas gerações atrás. A casa é linda e espaçosa, e cada geração deu vida própria ao imóvel. A casa, porém, tem uma falha na fundação, em sua raiz: com o passar do tempo, rachaduras se proliferam e, um dia, ela vai quebrar. Não é exatamente sutil, mas é um palco rico para os embates afetivos da trama.
Gustav é um diretor de cinema famoso e Nora é uma atriz de teatro consagrada, mas o abismo entre eles é assombroso. Com mais de 70, o velho cineasta busca se reaproximar das filhas e, principalmente, quer que Nora estrele seu novo filme, um longa-metragem autobiográfico e visceral, como forma de finalmente lavar a roupa suja e apaziguar os ânimos.
Mas as falhas de Gustav são muito abundantes. O ressentimento de Nora é muito profundo. Conversas amigáveis e superficiais rapidamente se transformam em discussões acaloradas. A dor, a mágoa, que está à flor da pele de ambos os lados, é muito visível e, até certo ponto, compreensível. Agnes fica no meio, tentando fazer o meio de campo, enquanto ela mesma, casada e com um filho, busca fazer o possível para não repetir o passado. Já Nora, impactada pela infância complicada, se isola, não forma laços afetivos significativos, não tem a coragem necessária de ter um relacionamento estável.
A direção se destaca pelo olhar sensível, que evita excessos dramáticos e confia no poder dos gestos contidos e dos diálogos precisos. As atuações são o ponto alto: os personagens soam autênticos como pessoas de carne e osso, carregando contradições e fragilidades que os aproximam do espectador. É fácil reconhecer neles dilemas universais — o peso das expectativas, o desejo de reconciliação e a dificuldade de expressar sentimentos.
Visualmente sóbrio e narrativamente elegante, Valor Sentimental encontra beleza naquilo que é simples e cotidiano. O filme convida à reflexão sobre o que realmente damos valor ao longo da vida, deixando uma sensação duradoura de empatia e melancolia serena. É um cinema sensível, maduro e profundamente tocante.
