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(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

Museu Zoroastro Artiaga reabre e devolve à Praça Cívica um guardião da memória goiana

Espaço passou por restauração completa e retoma atividades no prédio art déco inaugurado em 1942

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13.03.2026 - 14:44:15

Carolina Pessoni

Goiânia – Guardião de parte importante da memória cultural de Goiás, o Museu Goiano Zoroastro Artiaga, chamado carinhosamente de Muza, voltou a abrir as portas nesta semana após passar por um amplo processo de restauração. Localizado no lado leste da Praça Cívica, o edifício histórico recebeu intervenções estruturais e museográficas que devolveram ao prédio suas características originais e permitiram a retomada das atividades expositivas.

As obras de restauração começaram em novembro de 2024 e receberam investimento de R$ 6,6 milhões do Governo de Goiás. A intervenção incluiu a recuperação da cobertura, alvenarias, pisos históricos e elementos decorativos, além da modernização das instalações elétricas e luminotécnicas, reforço estrutural, drenagem e adequações de acessibilidade e segurança.

Para a secretária de Estado da Cultura, Yara Nunes, a reabertura do museu faz parte de um esforço mais amplo de valorização do patrimônio histórico do centro de Goiânia. “Esse prédio estava em uma condição que afastava o público. A nossa principal diretriz foi preservar as características originais, mas também tornar o espaço acessível e confortável, para que as pessoas tenham vontade de frequentar o museu”, afirma. Segundo ela, a recuperação do Muza também integra um movimento maior de preservação do conjunto art déco da Praça Cívica e de estímulo à ocupação cultural da região central.

 

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

De acordo com o arquiteto e urbanista Arthur Henrique Araújo Vieira, que atuou como arquiteto residente na obra, um dos principais desafios foi conciliar as exigências contemporâneas de uso com a preservação das características históricas do edifício. “O maior desafio é adequar as demandas atuais, como acessibilidade e segurança contra incêndio, aos valores que são preservados no edifício tombado”, explica.

Durante o processo de restauro, a equipe também realizou pesquisas para identificar aspectos originais da construção. Um dos resultados foi a recuperação da cor histórica da fachada, definida a partir de análises das camadas de pintura aplicadas ao longo do tempo. O cinza, que por muitos anos fez parte da paisagem da Praça Cívica, deu lugar ao amarelo, mais próximo da cor original.

Outro achado inesperado ocorreu durante a obra: a descoberta da fundação da escada do edifício, que não constava na documentação original. O elemento foi analisado em conjunto com a Secretaria de Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para definir os procedimentos de preservação.

Nova narrativa para o acervo
A reabertura do museu também marca a implantação de um novo projeto expográfico, elaborado a partir de um estudo aprofundado do acervo da instituição. Segundo a designer de expografia Genilda Alexandria, responsável pela coordenação do projeto, a nova exposição propõe uma mudança de perspectiva sobre a formação do museu.

 

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

“A constituição do acervo começou a partir da ideia de apresentar as riquezas e potencialidades do estado. Hoje entendemos que a grande riqueza de Goiás é o seu povo e a forma como ele se relaciona com esses objetos e com o território”, afirma.

O novo percurso expositivo considera também o próprio edifício como parte da narrativa museológica. “O prédio é um objeto cultural em si. Ele também conta a história da cidade e passa a integrar a experiência da visita”, explica.

A proposta é que o museu funcione como um espaço vivo de memória, aberto a novas interpretações e à participação de diferentes comunidades que contribuíram para a formação cultural do estado, incluindo povos indígenas e comunidades quilombolas.

Museu vivo no coração da capital
Para o coordenador do museu, Giulliano Santos, a reabertura representa um novo momento para a instituição, que enfrentava graves problemas estruturais antes da obra. “Havia infiltrações e patologias em várias partes do prédio. Chegamos a retirar o acervo do edifício porque já não havia condições adequadas de preservação”, relata.

 

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

Com o prédio restaurado, o museu retoma sua função de preservar e divulgar a diversidade cultural de Goiás, reunindo coleções arqueológicas, etnográficas, de arte popular, mineralogia, arte sacra e outros registros da cultura material e imaterial do estado.

Instalado na Praça Cívica, considerada o coração histórico de Goiânia, o Muza também desempenha um papel importante na relação entre patrimônio e vida urbana. “A expectativa é retomar a presença do público escolar, pesquisadores e visitantes que trabalham ou circulam pelo centro da cidade”, afirma Giulliano.

A reabertura foi marcada também pela inauguração da exposição “Manarairema – Arte Contemporânea em Goiás”, que reúne obras de artistas do estado e permanece em cartaz até 17 de maio.

(Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)

 

Com o restauro concluído e novas exposições em curso, o Muza volta a ocupar seu lugar como um dos principais espaços de preservação da memória goiana e como uma das peças centrais do conjunto arquitetônico que marcou o nascimento da capital.

História
Primeiro museu estabelecido em Goiânia, o Museu Zoroastro Artiaga foi criado pelo Decreto-Lei nº 383, de 6 de fevereiro de 1946, que instituiu o Departamento Estadual de Cultura. O prédio que hoje abriga a instituição, porém, é anterior à própria fundação do museu: sua construção foi concluída em 1942, a tempo de integrar o conjunto de edifícios públicos apresentados durante o chamado Batismo Cultural da nova capital.

Projetado pelo arquiteto polonês Kazimierz Bartoszewski, o edifício é um dos exemplares do estilo art déco presentes na Praça Cívica, região que concentra o maior conjunto desse estilo arquitetônico na América Latina. Com dois pavimentos e cerca de 950 metros quadrados, o prédio apresenta características típicas do movimento: volumetria geométrica, simetria, frisos decorativos, platibanda escalonada e portas de ferro com desenhos geométricos.

Curiosamente, o imóvel não foi construído para sediar um museu. Inicialmente, o edifício abrigou o Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda. Com a reorganização administrativa do governo estadual, passou a receber órgãos ligados à área cultural, entre eles o Museu Estadual, a Biblioteca Pública e o Serviço de Expansão Cultural.

 

Museu Zoroastro Artiaga em 1942 (Foto: Reprodução)

 

Ao longo das décadas, o prédio também foi ocupado por outras instituições, como a Assembleia Legislativa de Goiás, a Escola Goiana de Belas Artes e a Escolinha de Arte Infantil. Somente em 1970 o espaço passou a ser utilizado exclusivamente pelo museu.

A instituição ganhou o nome atual em 1965, em homenagem ao historiador e pesquisador Zoroastro Artiaga, fundador e primeiro diretor do museu. Ele esteve à frente da instituição desde sua criação até 1957 e retornou à direção em 1971, permanecendo no cargo até sua morte, no ano seguinte.

Entre passado e presente, o Muza reabre não apenas como um museu restaurado, mas como um espaço de encontro entre memória, arquitetura e identidade. Na Praça Cívica, berço urbanístico de Goiânia, o prédio art déco volta a cumprir sua função de contar a história de Goiás a partir de seus objetos, de seus povos e de seu território.

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por Carolina Pessoni

*Jornalista formada pela UFG, especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing também pela UFG

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