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Vai deixar saudade

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29.04.2013 - 12:18:42

Goiânia – Sempre que um grande profissional sai do jornalismo diário, um sentimento de orfandade toma conta de mim. Fico pensando com os meus botões: “Puxa, agora temos menos um para fazer esse negócio direito…”. Na sexta-feira não foi diferente. Soube que a amiga Deire Assis vai tomar outros caminhos e trocar a vida na redação por novos projetos.
 
Tive o privilégio de trabalhar com ela durante alguns anos. Primeiro, na mesma editoria. Mais tarde, no mesmo jornal, mas numa editoria diferente. É uma grande jornalista, que vai fazer falta tanto pelas excelentes reportagens que produzia, quanto por seu comportamento nos bastidores da notícia. Comportamento exemplar, de quem honra o que faz e enobrece o ofício.  
 
Deire é de uma geração rara de jornalistas nos dias atuais. Uma gente que não se deixa dominar pela vaidade pessoal, que não quer aparecer mais que a notícia. Uma gente que está menos interessada em saber se o novo corte de cabelo ficou bem no vídeo, se o terno vestiu bem ou se o nome apareceu nas manchetes do jornal mais de uma vez por semana, e mais interessada em trabalhar certo e direito.
 
Ela integra uma safra de profissionais que sabe que jornalismo de verdade dá trabalho e não se intimida por isso. Uma geração que não se deixa dominar pelo comodismo que o Google oferece e que paga para ver. Que checa a mesma informação mil vezes, se preciso for, que entrevista fontes de todos os lados envolvidos, que duvida e pergunta, até que tudo esteja claro e pronto para ser veiculado.
 
Uma leva rara de jornalistas, que não grita, não sapateia, não esmurra a mesa, porque sabe que o quê o público necessita não é de berros nem de espetáculo, mas de respeito e seriedade. Um time de profissionais que não busca transformar o jornalismo em assistencialismo, porque não quer a gratidão, mas a credibilidade da população. Que garante a audiência ou leitura não pela troca de favores, mas pela competência.
 
É uma gente que não dá carteirada, que não usa do cargo nas redações para conseguir ingressos de shows, festas e afins, que não mendiga almoços e jantares de graça em restaurantes famosos. Uma gente que tem vergonha de dizer: “Você sabe com quem está falando? Sou o fulano de tal, do veículo tal!”, porque tem consciência de que respeito a gente não impõe, conquista.
 
Falo de um grupo de jornalistas que conhece a língua portuguesa, que sabe que um bom texto requer gramática em dia, coerência e coesão, e que rala para conseguir isso. Que não tem preguiça de ler nem de estudar, que não se importa de abrir o dicionário 30 vezes numa tarde. Que se mortifica quando erra a ortografia de uma palavra, ou quando se equivoca numa concordância nominal ou verbal. 
 
É uma gente que olha nos olhos do público, que consegue ver além das estatísticas. Que enxerga por trás dos números frios seres humanos, que precisam ser ouvidos, respeitados, compreendidos em sua complexidade, para que nosso trabalho seja mais comprometido com a verdade e com a busca de uma situação mais justa e igualitária para os que vivem na exclusão. 
 
Deire vem de uma geração que não precisa fazer propaganda do drama alheio, que não vê beleza no mundo cão, porque sabe que nesse tipo de situação os fatos falam por si. Repetições e adjetivos são dispensáveis. E também porque sabe que não há mérito nenhum em despertar a pena do púbico, em transformar a dor em espetáculo. Mérito mesmo é noticiar com responsabilidade, sem trocar a cidadania pela filantropia.  
 
São profissionais que não têm como passatempo reclamar de seus salários aos quatro ventos nem denegrir a carreira, pois estão muito ocupados em desempenhar seus ofícios da melhor maneira possível — e, justamente por isso, têm a certeza de que o mercado sempre reconhece quem se dedica de verdade. Eles sabem que nossas ações falam tão alto, que acabam tornando nossas palavras inaudíveis. 
 
É uma gente que não perde tempo falando mal dos colegas, posando de ombudsman, porque tem humildade suficiente para reconhecer que erros acontecem, e que mais importante do que criticá-los, é trabalhar para que eles não se repitam. Gente que está preocupada demais com a própria função, que rala demais, para ter tempo de palpitar no trabalho alheio. 
 
Tchau, Deire. Desejo toda sorte do mundo na sua nova empreitada. Quem sabe o bichinho da redação não volte a coçar sua mão e você nos dê uma palinha semanal em algum outro veículo? Saiba que vai deixar saudade. Vou ficar aqui, torcendo para que a nova geração de jornalistas nos traga um pouco do que você e alguns outros deram à nossa profissão: dignidade.  
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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