A geografia específica de cada região carrega suas peculiaridades e traduz ao longo de milhares de anos características particulares, em consequência do clima e bioma.
É o que acontece com a paisagem singular do Rio de Janeiro. Você pode ter estado em qualquer lugar do mundo, mas é só lá que se sente a brasilidade na pele, até mais, talvez, que na própria Bahia. Há um espírito de liberdade, um encantamento despretensioso, perigoso, selvagem.
Um caos dentro da ordem sistemática da Natureza.
Um clima propício onde tudo brota, tudo floresce, tudo deságua no doce e salgado da vida.
Um útero sul-americano, que foi miscigenado seres, raças, etnias.
O Rio mantém, sim, seu posto único de Cidade Maravilhosa e, que se quiserem, fiquem na fila as demais.
Seu jeito dengoso de bossa, sua malandragem sorrateira, seus becos, suas quebradas, suas favelas, as legítimas favas, os favos. O rap, o funk, o fel… mas ali, entendam bem, se pode encontrar a lua, o mel, a casa amarela.
Palco vitalício do Carnaval no mundo, o Rio dita tendência, enredo, harmonia, evolução, alegoria, alegria.
Até a Natureza parece sambar nesse clima. Se reclina em direção à luz, procura o Sol, se nutre de maresia, se esconde nos morros, se expõe na Barra, na Lapa, na Urca, na orla da praia, na beira, beirada, de onde couber. E sempre cabe.
Seu paisagismo generoso, sem medo, sem pudor, sem preço, expande o verde, o azul e o amarelo em intensidade fresca, frenética, fervente, como cantava Fernanda: “purgatório da beleza e do caos”. Ou ainda como uma metáfora da música da Rita Lee “Sexo e Amor”: “é isso, é aquilo, tal e coisa”…
O Rio estoca espécies, coleciona polêmicas, troca praças por rocinhas, reservas por laje, providências por pedregulhos.
Adentrar na densa floresta da ‘cidade’ de Deus, de Cristo Redentor é se embrenhar nos maciços, nos realengos, nos teleféricos e bondinhos que transportam os sonhos e, as fantasias, de uma noite de verão carnavalesca!