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Um brinde às largadas

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07.05.2012 - 16:00:33

Engraçado perceber como algumas coisas mudam e outras permanecem sempre iguais. Uma delas é o machismo da mulher brasileira. Sim, eu disse machismo. Muitas lutam por um espaço no mercado de trabalho, batalham salários melhores, defendem sua independência com unhas e dentes, mas, no final das contas, o que querem mesmo é um marido. Precisam se casar a qualquer custo para se sentirem realizadas.

Percebi isso claramente na minha última viagem, para Santiago (Chile), na semana passada. Durante o city tour em grupo para conhecer os pontos históricos da cidade, eis que uma paulista linda, de pele clara e cabelos negros, entra de repente no ônibus da excursão. Sozinha. Bastou isso para chamar a atenção de todos os turistas brasileiros, principalmente das brasileiras.

Ao ver aquela bela moça ousar viajar totalmente desacompanhada para outro país, várias mulheres passaram a hostilizá-la. Se perguntasse algo, era ignorada. Se tentasse puxar papo recebia uma cara virada. A cada vez que ela passava perto de um casal, via-se a esposa brasileira apertar o braço do marido com força, para mostrar à moça que aquele homem “já tinha dona”.

O crime da paulista? Ser solteira, livre e não ter o menor pudor em demonstrar isso. Afinal, para muitas brasileiras solteirice é sinônimo de doença, de desvio de caráter. De infelicidade. Se a mulher está na casa dos 20 anos, pode se dar ao luxo de fazer 300 intercâmbios e passear sozinha para todo lado, pois ainda é uma jovenzinha em busca de aventura, quase uma adolescente imatura.

No entanto, quando a brasileira chega aos 30 anos e não se casa, a barra pesa. Ela deixa de ser alguém em busca de aventura para se tornar uma “largada”. É aquela que ninguém quis, que foi incompetente na hora de arranjar um marido e que vai morrer seca de tanta solidão e tédio. É uma problemática, traumatizada. Leia esse artigo da antropóloga Mirian Goldenberg e verá que não estou exagerando.

Como não gosto de clichês, fico pensado cá com os meus botões quem é mais digna de pena: a “largada”, solteira confessa, ou aquela que está com alguém apenas para dar uma satisfação social? Quem sofre mais: aquela que assume o que quer (e, sobretudo, o que não quer), ou quem pensa que é fraco e sem importância demais para viver conforme seus próprios sonhos e convicções?

Ter um relacionamento afetivo é maravilhoso, desde que seja para acrescentar, para tornar a vida mais leve e alegre. Mas nem todos os casais vivem de forma saudável e construtiva. Aliás, se você for reparar bem, verá que a quantidade de gente que não se suporta, mas que não tem coragem de pedir o divórcio, é bem maior do que se imagina. Verá que há muita solidão a dois por aí.

Enquanto ficávamos encabuladas com a forma como a paulista da viagem foi tratada, e eu e a amiga que me acompanhava prestávamos atenção nos casais ao nosso redor. Embora estivessem juntos, muitos não se olhavam, não dirigiam uma palavra sequer ao outro e davam a clara impressão de fazer uma força tremenda para aguentar o parceiro, para não ceder ao ímpeto de estrangulá-lo.

Enquanto isso, a paulista, com a leveza e a alegria típica dos que têm coragem de fazer o que dá na telha sem se importar com o que os outros vão falar, ria, se divertia, apreciava cada detalhe do passeio e acabou se tornando uma grande companheira de viagem para mim e minha amiga. De quebra, também acabou conquistando um dos homens mais bonitos que vimos em Santiago.

Uma das coisas que aprendi é que tudo o que queremos a todo custo sai caro demais. E que as mulheres que precisam de um homem ao seu lado assim como necessitam do ar que respiram são justamente aquelas que, muitas vezes, acabam sozinhas. Porque os homens não querem ser escoras, príncipes salvadores de ninguém. Querem apenas ser homens, seres humanos com qualidades e defeitos.

Se ser “largada” é decidir ser feliz independentemente do estado civil e das cobranças sociais, é assumir que ainda não se encontrou o relacionamento ideal e que isso não é demérito algum, pois triste mesmo é viver a dois de birra e covardia, então sugiro aqui um brinde às largadas. Brindemos a essas mulheres que tornam nosso mundo mais divertido, feliz, autêntico e criativo.

Um brinde a essas mulheres que nos mostram diariamente que estão solteiras, mas não sozinhas, porque quem possui amigos, família, um trabalho gratificante e projetos pessoais interessantes nunca morrerá de solidão. Saudações a elas, que têm coragem de seguir a jornada da vida tratando com todo carinho e atenção a melhor companhia que uma pessoa pode ter no mundo: a sua própria.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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