São Paulo – A Rússia vetou neste sábado (15/3) no Conselho de Segurança da ONU a resolução que declarava ilegal o referendo sobre a anexação da Crimeia, previsto para ocorrer no domingo (16/3) na península no leste da Ucrânia. Hoje também, Kiev denunciou que tropas russas invadiram o território ucraniano, tomando um complexo de distribuição de gás.
A China se absteve da votação no Conselho de Segurança, o que demonstra o isolamento internacional da Rússia. Treze países que compõem o organismo votaram a favor da moção. As nações que apoiavam a resolução, proposta pelos EUA, sabiam que os russos usariam o poder de veto que têm por serem membros permanentes do conselho – e fizeram a votação com a intenção de demonstrar a ampla oposição à tomada da Crimeia por parte da Rússia.
O porta-voz de segurança de fronteira da Ucrânia Oleg Slobodyan afirmou que neste sábado, 15, as forças russas fizeram o que parece ser sua primeira incursão no território ucraniano: apoderaram-se de um complexo de distribuição de gás em Strelkova, a cerca de 10 quilômetros da Crimeia. Os russos usaram helicópteros e blindados para apoiar os 120 soldados que participaram da ação, segundo Slobodyan.
A chancelaria ucraniana afirmou que o país "se reserva o direito de usar todas as medidas necessárias para impedir a invasão militar da Rússia".
O barulho das botas se faz ouvir alto na Praça Lenin, no centro de Simferopol. É assim que, no fim da tarde, soldados e milicianos russos e cossacos, que tomaram o controle do Parlamento da Crimeia, deixam claro, mais uma vez, quem dita as regras na península do Mar Negro. Sem deixar espaço para o diálogo, militantes pró-Rússia antecipam o resultado do referendo que deve colocar neste domingo, 16, a república autônoma sob domínio de Vladimir Putin.
Apesar de toda a pressão internacional, o referendo na Crimeia está marcado para este domingo graças a Moscou, que oferece apoio incondicional às autoridades locais. Ao todo, 1,5 milhão de pessoas estão habilitadas a votar. "Este referendo é a nossa chance de viver melhor e em mais segurança", afirmou ao Estado o desempregado Andri Fedorovich, de 36 anos, um dos tantos saudosos do poder e da planificação econômica da antiga União Soviética.
Visão oposta, claro, têm os partidários pró-Ucrânia, que criticam a secessão. "Se as pessoas decidirem pela anexação da Crimeia à Rússia, pode ser perigoso. Poderemos ter batalhas nas ruas ou até uma guerra terrível", disse Andri Schekun, de 40 anos, coordenador do movimento Euromaidan na região.
Após a entrevista, ocorrida dentro de um carro para não chamar atenção, Schekun telefonou para um amigo e disse que estava sendo preso por milicianos na estação ferroviária de Simferopol. Desde então, não foi mais visto, assim como seu colega de movimento Anatoli Kolvaski. A chance de que a "guerra terrível" descrita por Schekun de fato ocorra, porém, é considerada ínfima porque, como seu desaparecimento demonstra, os russos têm o controle total da península.
No intervalo de uma semana, as manifestações em favor da Ucrânia desapareceram. Em seu lugar, grupos de hooligans – violentos ou não – vagam durante a noite, enquanto milicianos organizados desfilam pelas ruas e se concentram no Parlamento e na Praça Lenin durante o dia. (Agência Estado)