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Tinha uma vaca no meio do caminho

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14.03.2012 - 17:49:33

 

Quarta-feira é um dia em que saio de casa bem cedinho. Entro no ar na Rádio Interativa às 6h30 da manhã. Portanto, antes disso já estou no meu trajeto para o trabalho. Logo na Praça Cívica, em frente aos Correios, saquei que tinha algo diferente na cidade. Uma vaca cheia de selos estava na porta do tradicional prédio do Setor Central. Aí me lembrei que a Cow Parade havia voltado às ruas de Goiânia para nos surpreender em cada esquina.

Subindo a 85, vi mais duas vaquinhas estilizadas: uma na esquina com a T-10 e outra na Praça do Chafariz. Todas chamavam a atenção dos transeuntes mesmo tão cedo. Alguns faziam fotos, outros estranhavam e riam. Mas ninguém ficava indiferente aos bovinos cheios de firula espalhados na cidade.

Para quem não sabe, aCow Parade começou em 1998 nas mãos do artista suíço Pascal Knapp. A intenção do cara foi nobre: espalhar esculturas em formato de vaca pela cidade para divertir quem topasse com aquele ruminante em lugares inusitados. A partir de 2000, a empresa americana CowParade Holding Inc. comprou os direitos das esculturas de Knapp e coisa adquiriu proporções monstruosas: outras 4 mil vacas foram criadas e espalhadas em todos os continentes. No Brasil, a Cow Parade já passou por São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Sacou a proporção dos quadrúpedes fornecedores de picanha e cupim, né?

A ideia é inegavelmente boa e instiga o debate. Pode ver que o hit nas redes sociais de hoje foram as vacas. É fotinha no Instagram, é comentário perspicaz no Twitter, é marcação no Facebook. Agora, você sabia que essas vaquinhas que rendem comentários simpáticos nas redes sociais custaram R$ 1,5 mi aos cofres da Prefeitura de Goiânia? Bom, nunca é demais repetir o quanto de grana pública foi gasta: R$ 1,5 mi. São 50 vacas e 10 bezerros que foram estilizados por estudantes do ensino público. Dá um custo de R$ 25 mil por rês. Segundo meu amigo Marcos Caiado postou no Facebook, ainda no ano passado, cada artista recebeu míseros R$ 500 como ajuda de custo. Existe uma desproporção gigante entre o custo unitário e o recebido pelo artista.

Não preciso dizer que o montante de R$ 1,5 mi seria importantíssimo para amenizar as diversas demandas do setor cultural goianiense, como, por exemplo, quitar os cachês não pagos aos artistas locais em vários eventos. E nem que o dinheiro das vaquinhas não vai ficar circulando em nossa cidade. Uma pergunta: será que a empresa organizadora do Cow Parade vai ficar esse tempo todo sem receber como os artistas locais estão?

Apesar de uma boa ideia, o Cow Parade não responde à demanda real de investimentos que a classe cultural precisa. Se a grana é curta, e sabemos que ela é, que se priorize as prioridades como bem diz B-Negão. E as vaquinhas nas esquinas definitivamente não são uma prioridade.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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