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The Cure faz show de mais de três horas e revisita maiores sucessos

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09.04.2013 - 09:13:23

São Paulo – Robert Smith não poupa seus fãs. É necessário, no mínimo, sacrificar as panturrilhas para compreender o alcance de sua genialidade, dos hits aos lados B. Tal leque de canções, feito mais vibrante pela resistência exigida, deu o tom do show do The Cure, no sábado, na Arena Anhembi. Pernas arderam, semi fãs desistiram, indies veteranos – agora com barriguinhas e filhos acoplados – sentaram-se no asfalto para assistir ao épico de Smith, um Ben-Hur do pós-punk, tocado para 30 mil pessoas, durante 3 horas e 20 minutos, em palco e telões.

E o endiabrado anti-herói do pop alternativo, padroeiro de punks e indies há 30 anos, não deixou a peteca cair. Navegou por lirismo cintilante e digressões sombrias com a mesma contundência, do início ao fim das 47 músicas em sua playlist. Foi uma exibição de invejável resistência, operada por Smith aos 53 anos e pouco vista em shows de veteranos do mesmo calibre. Empunhando violões e uma guitarra que diz “cidadãos, não sujeitos”, o cantor ostenta o mesmo cabelo aracnídeo e maquiagem pálida do Cure dos anos 80 e 90.

Está gordinho, e não fosse o afinco com que interpreta sua música, seria mais uma caricatura decadente do rock, em busca de dinheiro fácil em palcos subequatoriais. Mas 30 segundos de show bastam para notar-se que se o The Cure não é mais a fábrica de hits de outrora, está em plena forma para recriá-los. Às 20h20, uma figura instrumental simples e hipnótica surgiu em meio à fumaça (gelo seco sem economia, por tratar-se de um flashback oitentista) e o The Cure deslanchou com a prazenteira “High”, do disco “Wish”.

A banda está afiada. Reeves Gabrels, ex-guitarrista de Bowie, e colaborador de longa data, acompanha Smith com categoria, sem roubar a cena. Jason Cooper constrói um sólido alicerce rítmico. Roger ODonnel, nas teclas, e Simon Gallup, no baixo, alfinetam os andamentos. Mesmo quando toca triste, o The Cure é viril. Entretanto, nada seria do The Cure sem a praticamente imaculada voz de Smith, que não arrefece durante as três horas de show. Não há economias. Seja nos destaques conhecidos, como “In Between Days”, ou nas do lado escuro de seu cancioneiro, como “Sleep When Im Dead”, o cantor se atira com abandono.

Não é o mesmo que ter visto o The Cure em seu auge, mas os obstáculos, embora diferentes, rendem os mesmos resultados. Smith parece ter o que provar mesmo depois de todos estes anos. Sua cara envelhecida, surrada, remete ao triunfo. Quer mostrar que não é apenas um ídolo acomodado. Como se ainda precisasse da glória para sobreviver. E de sua superação faz-se ouro pop de 24 quilates.

Foi a primeira passagem do The Cure por aqui em 17 anos. O público quis os hits e Smith não o poupou, tocando tudo, de “Boys Dont Cry” a “Friday”. Mas estes foram os detalhes. O que surpreendeu foi a forma com que foram tocados, ainda prenhes de confusão adolescente, de emoções que oscilam da alegria imensurável à angustia existencial. As lágrimas exageradas, a vaidade umbilical de nossos anos incríveis, o espelho erguido à face descabelada, antes de nos darmos conta do tamanho do mundo, ainda vivem na música do The Cure.

E como um hábil maestro, quiçá um que ainda habita os tempos perdidos, Smith reanima seu repertório com vibração pueril. Foram dois bis e até o fim, o The Cure não amoleceu. Passou por viagens instrumentais psicodélicas e uma série de hits enxutos, que incluiu “Boys Dont Cry” no segundo bis. E só depois que o último acorde de “Killing an Arab”, tocado com fúria punk, foi desferido, o fantástico Robert Smith sossegou. (Agência Estado)

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por Yuri Lopes

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