Logo
Dr. José Israel (Foto: reprodução)

Testosterona repensada

WhatsAppFacebookLinkedInX
05.08.2026 - 07:32:15

A testosterona é um dos temas que permanecem em evidência tanto no meio científico quanto no debate público. Nos últimos anos, porém, essa discussão passou a exigir menos entusiasmo e mais equilíbrio. Durante um período, a chamada onda do “low T” transformou a reposição hormonal em um símbolo de juventude e desempenho, muitas vezes extrapolando os limites das indicações clínicas. Como consequência, surgiu um movimento de cautela, marcado por alertas sobre possíveis riscos cardiovasculares e pela preocupação com a prescrição indiscriminada.

Agora, novas evidências reacendem uma discussão importante: a terapia com testosterona deve ser oferecida a um grupo maior de homens? A proposta do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos para revisar as informações de bula representa um avanço relevante, mas não deve ser interpretada como uma autorização para banalizar um tratamento que exige avaliação médica criteriosa.

O estudo TRAVERSE, que envolveu mais de 5.200 homens, trouxe uma informação relevante ao mostrar que a reposição de testosterona não aumentou a ocorrência de eventos cardiovasculares graves em pacientes criteriosamente selecionados. Esse achado contribui para uma avaliação mais equilibrada da terapia.. No entanto, o estudo também identificou aspectos que ainda merecem investigação, como sinais relacionados à fibrilação atrial, à embolia pulmonar e a outros desfechos clínicos.

O maior desafio está em diferenciar os pacientes que realmente apresentam deficiência de testosterona daqueles que buscam a terapia hormonal como solução para alterações relacionadas ao envelhecimento. Cansaço, perda de disposição e redução da massa muscular podem ter diversas causas, e nem sempre a reposição hormonal é a resposta mais adequada.

A medicina precisa evitar os extremos. A testosterona não deve ser tratada como um “elixir da juventude”, como ocorreu no passado, mas também não deve ser cercada por barreiras baseadas em receios que vêm sendo parcialmente revistos à luz das evidências científicas.

O caminho mais seguro é a individualização do tratamento. Homens com sintomas compatíveis, exames laboratoriais que confirmem níveis baixos de testosterona e acompanhamento médico adequado podem se beneficiar da terapia. Por outro lado, o uso de hormônios para melhorar o desempenho físico ou combater o envelhecimento natural representa uma prática que pode expor o paciente a riscos desnecessários.

Outro ponto fundamental é a capacitação dos profissionais de saúde. Uma eventual ampliação das indicações clínicas precisa vir acompanhada de critérios claros para diagnóstico, acompanhamento e interrupção do tratamento quando não houver benefícios.

A testosterona é, de fato, uma ferramenta terapêutica, mas não uma promessa de juventude eterna. As evidências mais recentes contribuem para o amadurecimento dessa discussão e reforçam que a responsabilidade clínica deve continuar sendo o principal critério. Entre a restrição excessiva e a liberação indiscriminada, a medicina deve permanecer no caminho da ciência, da prudência e da decisão individualizada.

*José Israel Sanchez Robles é médico nutrólogo e intensivista

 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]