Adriana Marinelli e Mônica Parreira
Ter sobrevivido é motivo de alegria para Donizete, ainda que as sequelas físicas o acompanhem. O vendedor ficou tetraplégico e, desde então, depende da esposa e dos filhos para quase tudo. No início, ele precisava de ajuda até para as tarefas mais simples, como se alimentar.
(Donizete Pimenta Faleiros, 58 anos)
Conforme está previsto, a partir de 31 de dezembro deste ano o uso dos simuladores de direção veicular na formação do condutor será obrigatório em todos os Estados e no Distrito Federal.
Simulador será obrigatório em todos os Estados e no Distrito Federal (Foto: Adriana Marinelli/A Redação)
Serão cinco aulas de 30 minutos com conteúdo didático, como conceitos básicos de condução, marchas, aprendizado de circulação em avenidas, curvas, estradas, vias de tráfego, regras de segurança, congestionamento e em situações de pista molhada e outros riscos. Cada aula vai custar ao aluno em média R$ 50.
Sobre o responsável por toda essa reviravolta, Donizete é direto ao afirmar: "Não sei nem onde ele está hoje. Ele nunca me procurou para saber se eu estava sentindo dor ou se eu precisava de um comprimido, por exemplo."
Terapeuta ocupacional Sávio Araújo auxilia Donizete nos exercícios (Foto: Adriana Marinelli/A Redação)

Presidente da Comissão de Trânsito da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Goiás (OAB-GO) , o advogado e gerente de Controle Regional do Detran-GO, Assis Silva Netto, acha válido o aprimoramento das leis, mas vai além. "O trânsito é tratado em três colunas: informação, engenharia de tráfego e punição. O trabalho de conscientização está sendo feito e muito já foi melhorado, mas ainda está longe de ser o ideal", diz. "Infelizmente não é possível mudar uma realidade como essa do dia para a noite", conclui.

Em entrevista exclusiva ao jornal A Redação, o tenente Augusto Sampaio de Oliveira, chefe de planejamento do Batalhão de Trânsito e supervidor do Balada Responsável, detalhou os números positivos durante uma blitz acompanhada de perto pela reportagem.
Tenente Sampaio apresenta balanço positivo da Operação Balada Responsável (Foto: Mônica Parreira/A Redação)
"Trata-se de uma redução de 61%", destaca. "Também diminuíram os acidentes com mortes envolvendo pessoas sob efeito de álcool. Em 2011, entre janeiro e setembro, foram 63 acidentes assim. Neste ano, foram 36, o que representa redução de 48%."

“Eu
não me lembro de nada. Só sei que bebi e acordei dias depois”, relata ele, com dificuldades na fala. Flávio perdeu o controle da moto que pilotava sem habilitação e colidiu com o meio fio. “Estava de capacete, mas não travei ele direito”.
Sua mãe, Edinalva de Jesus, recebeu a notícia do acidente e, ao chegar no local, presenciou o filho sofrer duas paradas cardíacas.
"Ele ficou oito dias respirando com a ajuda de aparelhos e um mês internado", relembra. A falta de oxigênio no cérebro comprometeu os movimentos de Flávio que, mesmo às vésperas de completar dois anos pós acidente, ainda precisa de cadeira de rodas para se locomover.
(Flávio de Jesus, 33 anos)
Toda semana Flávio vai ao Crer para uma série de atividades que o ajudam, aos poucos, a recuperar os movimentos. "Eu agradeço a Deus por estar vivo. Se Ele me permitir voltar a andar, eu nunca mais vou pilotar uma moto. Quero voltar a trabalhar para comprar um carro", planeja, garantindo que o álcool nunca mais fará parte da sua vida.
"Cachaça não é bom, não é bom. Eu queria ter escutado e seguido os conselhos da minha mãe. Bebida nunca mais me pega", garante.

Amante de música eletrônica e apaixonado por uma boa balada, o rapaz não abre mão de uma ou duas doses ou de alguns chopes "de vez em quando". Mesmo que ele já tenha sentido no bolso o valor do prejuízo após ter batido o carro alcoolizado, a prática de beber e dirigir ainda é presente na vida de R. S.
"Sei que não é legal beber e dirigir! Vários familiares e amigos já me alertaram, mas eu fico dois ou três dias pensando nisso e logo volto a repetir o erro", completa o jovem, que não esconde o medo de provocar um acidente sério.
(R.S., 24 anos)

R. S. insiste em combinar bebida e direção (Foto: Aline Mil/A Redação)
"Nos primeiros meses ele via o sofrimento do Flávio e até parou de beber, mas depois de um tempo a coisa ficou ainda pior", lamenta dona Edinalva que, no começo deste ano, precisou até pagar fiança para tirar o filho da delegacia, quando foi detido por meio da Lei Seca.
"Agora fica aí sem habilitação, com problemas na justiça e praticando o mesmo hábito. Ele diz que, quando dá vontade de beber, ele bebe. A gente aconselha, mas não tem como mandar em um homem que já tem quase trinta anos, né?".
"Quanto mais as pessoas vivem reféns das demandas internas, dos próprios desejos, mais difícil fica andar dentro do que determinam as leis."
De acordo com Susie, os perfis de R. S. e Alexandre se enquadram nos casos de Personalidade Narcísica, que é a necessidade de ser admirado. São pessoas muito preocupadas com elas mesmas, com ambições elevadas.
"Eles pensam 'estou bêbado, mas me garanto', têm uma sensação de onipotência e acabam colocando em risco a própria vida e a vida de outras pessoas", explica ela.
"Eles não têm noção de riscos. Não enxergam vantagem em abrir mão de um prazer, no caso a bebida, em função de um possível desprazer, no caso o acidente", acrescenta a psicóloga.

Atualmente, o candidato precisa assistir a 45 horas/aula teóricas e realizar 20 horas/aula práticas antes das avaliações. Esses números em 2008 eram de 30 e 15, respectivamente, e a tendência é que aumentem nos próximos anos.
O sistema local deve ficar ainda mais eficaz a partir do dia 1º de outubro, quando começa a implantação do leitor biométrico nos Centros de Formação de Condutores (CFC's). Além de agilizar o processo de obtenção da CNH, a tecnologia promete maior segurança e fiscalização, evitando riscos de fraude ou negligência na presença dos alunos durante o curso.

Para professor Gregório, aulas teóricas são fundamentais (Foto: Mônica Parreira/A Redação)
"O candidato adquire informações e conhecimentos que vai levar para vida toda. É um trabalho de educação e conscientização", diz o diretor, que também é professor de Direção Defensiva.
Dados do departamento mostram que são atendidas no Estado, em média, 160 pessoas todo mês. Pelo menos 40% delas tiveram a CNH retida por consequência das fiscalizações realizadas pela Balada Responsável.
O curso possui 30 horas/aula de duração, acompanhadas de uma prova. No caso da retenção pela Lei Seca, além da aprovação no Reciclagem, a pessoa precisa aguardar o período de um ano a partir da data da punição.
"O processo educativo é indispensável. Acidente não existe, isso é um paradoxo. O que existe é falha humana. Então a pessoa que bebe e dirige, por exemplo, foi negligente com sua condição. A sala de aula é o ambiente certo para o indivíduo conhecer a realidade do trânsito, e isso gera a mudança de comportamento", conclui Gregório da Silva.