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Sweet Lou

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28.10.2013 - 09:45:26

Zurique – E Lou Reed morreu sem avisar. E os amigos morrem, os malucos somem e o disco na vitrola fica parado no mesmo lugar, repetindo o final da música num arranhão absoluto. E o mundo vai ficando cada vez mais careta, simples, repetitivo, e eu me pergunto onde foram parar os meus, os selvagens, os companheiros de estrada, aqueles que andavam de cabelo comprido e alpargatas e bolsa de couro a tiracolo, aqueles que dormiam na praia e pulavam os muros, acendiam fogueiras nas noites de lua cheia? Onde foram parar os que cantavam e desafinavam e insistiam em enxergar duendes no meio do mato e cachoeiras lavando as nossas almas, abrindo trilhas nas montanhas de lumiar ou das chapadas, debaixo das lonas dos circos voadores e dos trapezistas sem rede, dos palhaços tocando acordeon e dos poetas, ferindo a noite com suas línguas certeiras feito flechas e os olhos faiscando de ira e devoção? Cadê meu povo sem rumo e sem medo ? Aqueles que não tinham futuro nem locomoção, que andavam de ônibus ou a pé, pegavam carona na rabeira de qualquer caminhão, também não tinham mapas nem se preocupavam com as minas do rei salomão. E não tinham medo de rimas nem de ratos de porão. E Lou Reed morreu sem avisar. E saiu assim sem se despedir. E os heróis vão saindo de fininho, levando o copo na mão, indo tocar em outro lugar, o que passou, passou. Hey babe, onde foram parar todos eles, os desiludidos, os embriagados de luz e lucidez ? Hey Joe, vamos passear por aí, sempre sobram alguns perdidos pelo caminho, por eles ainda me oriento, eles têm o faro da noite e a absolvição dos inocentes, não fazem mal nem a si mesmos, além do absolutamente necessário para se manter atento em busca de um dia perfeito, just a perfect day, que nos traga o alívio necessário.
O alívio que nunca vem, nem agora, quando tudo parece calmaria antes da tempestade, sweet jane, sweet joe, sweet lou, vamos andar mais uma vez por aí. Os roqueiros, os poetas, os malditos, todos tem um coração, everybody, solto por aí como um balão, uma barraca levada pelo vento, toda escrita é desespero, todo amor salva e condena, e o grito dos rebeldes e os acordes das guitarras pregam o evangelho dos perdidos, tornam a vida sustentável, entre mistérios vagabundos, entre contas de banco e fins de semana a vencer, cartão de crédito, escola a pagar, a banalidade infinita de existir e funcionar, produzir e consumir, infinitamente real e necessária, a vida é normal demais para ser verdadeira. E viva os malucos, viva os malditos, viva os rebeldes e viva a vida que se mantém acesa, na busca do rio, do risco d’água na superfície do nada, do palco diário, eu que nada sei, nem nunca saberei,  todos que perguntam mais do que afirmam, que se lançam no vazio, se arriscam a abrir a janela pra ventania, pisar na brasa, subir nas árvores, nos arcos da lapa, pular dos muros, andar no meio-fio da contramão, always on the wild side, always contra o vento, maresia, maremoto, celacanto já dizia. E nossa juventude não volta nem acaba, o nunca mais será o mesmo, nunca mais um outro dia, e sempre o  mesmo erro, o mesmo acerto dos dias, das contas a fazer, dos planos, dos cantos, das teses, dos livros, das cervejas, das praias, da santas, das loucas e bruxas, de gente em estado puro, como os animais. Sweet lou, vamos andar mais uma vez por aí.

 

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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