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Sobre troncos grávidos, tempo e um grande pai

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14.02.2014 - 18:22:24
Goiânia – Impressionante como a vida se renova. Uma árvore que germina dentro de outra árvore morta. Na fazenda onde vivem meus pais e onde passei grande parte da infância, uma gameleira brotou onde menos se esperava. Fora substituir outra, que já partira para o céu verde das árvores.

Diante da casa, bem no centro de uma área que os da roça chamam de piquete, onde costumam deixar os bezerros depois de apartados das vacas nos currais, ou os cavalos antes de arreados ou depois de libertos dos arreios e da peleja, havia uma imensa gameleira, uma árvore bela e imponente que me lembro de ver desde que me entendo por gente. Natural, posto que ela tinha exatamente minha idade. 

Muito embora árvores costumem viver muito mais que a gente, a gameleira já não exibia, nos seus mais de trinta anos vastos, muita vitalidade. Havia se vergado sob o peso de seus exacerbados galhos. Por mais que lhe fincassem estacas para sustentação, ela caía sobre  si mesma e se tornara não mais encantador porto de passarinhos, mas um triste poleiro, logo aquela gameleira onde nos tempos dourados da infância, eu brincara e fantasiara dias inteiros, onde  os meninos ou peões da fazenda haviam inscrito seus nomes a canivete. Pois ela foi adoecendo, secando de bichos e de tristeza, e meu pai não teve como senão cortá-la, sem que fosse para o nobre destino de fazer gamelas.

Foi um trabalhão desterrá-la dali com suas raízes imensas. Precisou-se de um trator para puxar a ossada. E como aquele terreno ficou triste e desolado sem ela. Mais um motivo para eu não querer ir para fazenda. Já não encontro nela os sinais grandiosos e a alegria da minha infância.

Tudo ficou tão pequeno e devastado. Eu é que cresci decerto. Então, quando a gente retorna aos locais da infância, tudo que antes parecia grande se tornou tão pequenino. E meus olhos também foram deliciados e corrompidos por outras ambições e paisagens. 

Minha mãe costuma dizer, na impiedade natural aos que já conviveram por 50 anos, que papai nunca foi dos mais zelosos com o terreiro.  No quintal, diminuído por cercas, muitas árvores já não existem: abacateiros, mangueiras, o grande pé de tamarindo. Foram morrendo, foram sendo cortadas e ele nada de renovar o pomar.

O paiol, onde antes se armazenava milho e onde eu muito brinquei, com grãos e remelentos gatos, foi caindo aos pedaços até desaparecer por completo. Do mesmo modo, o chiqueiro, o mangueiro, onde se criavam livres os porcos, são hoje apenas pedaços de madeira velha, compondo ruínas. Felizmente até, porque hoje por ali já não se pegam bichos de pé. A varanda onde antes se desnatava leite, a bica d água com seu gemido de monjolo, amassando milho, tudo foi ruindo e se extinguindo em vermelho pó. 

Cem anos de solidão – Como escrevi certa vez em que retratei a fazenda Taperão, ela que teve seus anos de magia, grandeza e de progresso, e que depois se rendeu ao seu destino de batismo de tapera, eis o que o tempo opera, em seus cem anos de solidão. Tal como dizia Garcia, o Marquez, não meu pai, que por ironia também tem esse apelido (ignoro por qual motivo), o tempo tudo avacalha e tudo vilipendia. 

O tempo tudo vai corroendo, até as nossas próprias forças. A ferrugem avança sobre os ferros, as madeiras apodrecem. Até as árvores nascidas para viver muito deixam de dar fruto, e sem adubo e indefesas contra as pragas, morrem. A batalha contra ele existe esforços incansáveis. E é impossível deter a decrepitude do corpo e a transformação da matéria. Podemos apenas tentar adiá-la, numa luta vã e inglória.  

Meu pai nunca fez grande esforço para isso, não protegeu a pele contra o sol, nem os cabelos contra a brancura da paina, nem a coluna da curvatura, nem as benfeitorias da fazenda, embora guarde dentro de sua frágil ossatura uma invejável vitalidade a tanta gente futura. E hoje, aos 80 anos recém-completados, não tem pelo menos forças físicas para tudo renovar e reconstruir. E os filhos, ah, pobres de nós, filhos, com as gerações,   raleia o sangue, se degenera e esmaece o brilho.

Mas essa decadência – enxergo – além de estar ligada à velhice, tem a ver também com o fim dos velhos modelos de fazenda, onde se fazia de tudo para a subsistência: o sabão preto, as cobertas de lã, a farinha de mandioca, onde se criavam porcos e galinhas. Ainda vivi o tempo da luz de lamparina e do lampião de querosene, a água aquecida na serpentina do fogão. Mas todas essas coisas – o paiol onde se armazenava o milho para alimentar a criação foi substituído por um grande e metálico galpão – todas elas foram cedendo espaço a novas invenções, para tornar a vida menos dura e mais rápida.

E as  tristonhas vacas gir, com seus grandes chifres, seu couro estampado e nomes poéticos (dedicarei a isso uma crônica à parte), ou as nelore bravas soltas no pasto, foram sendo trocadas pelas holandesas ou cruzadas, melhores de leite. E os pastos foram dando lugar a imensas plantações de soja. E a paisagem me parece hoje ainda mais desolada e o sol ainda mais impiedoso nesse cerrado que às vezes tem clima de deserto.

Pois eis que há algum tempo, depois de vencer a resistência e visitar a fazenda, vejo que no lugar onde havia a gameleira, brota outra, já alta. Meu pai orgulhoso e paciente me explica como aquela outra árvore foi parar ali. Conta-me que a colheitadeira estragou e para consertá-la, foi preciso erguê-la para retirar-lhe o motor. Ele mandou ficar ali umas tantas estacas onde a máquina foi dependurada, na verdade, uns troncos enegrecidos de árvores.

E por dias consecutivos naquelas estacas pousaram pássaros. Até que um dia notou que dentro da madeira oca de uma delas brotara algo. Reconheceu pelas folhas que se tratava de uma gameleira.  Os passarinhos carregaram as sementes no ventre e as transportaram para ali com suas fezes. Com muito cuidado, ele transplantou o tronco com a muda para o lugar onde existira antes a outra gameleira.

E a vida hoje se renova e segue ali dentro da estaca convertida em ventre. Então ao olhá-la e ao misturar na memória e na imaginação as reminiscências do passado, as transformações que se operaram, as que ainda se operam, sou tentada a pensar que a felicidade, era ali que ela estava. E tudo aquilo que antes nos parecia atraso, de repente volta a ser promessa.  Então observo as pessoas tentando resgatar antigos modelos de fazendas autossustentáveis, a moda da agricultura orgânica e dos produtos feitos na roça, sem tantos adubos, venenos e conservantes. 

Tudo aquilo que antes parecia penoso e errado hoje é que nos parece certo. E olho para aquele tronco seco grávido de uma nova árvore e suponho que ela simboliza meu pai: sua casca já ressecada e frágil, mas que guarda dentro de si a energia para uma vida inteira ainda, para muitas vidas. Se ele me dá mais uma lição com isso, além de todas as já tão essenciais que já me deu? Talvez que não podemos reviver o passado, mas podemos nos dedicar ao plantio de uma nova realidade que ainda preserve seus traços mais bonitos. 

P.S: Embrenhada num sertão de lembranças, ouço mais uma canção triste triste triste, mas doce doce doce, que associo sempre meu pai, à bonita família Nania, aqueles que já partiram e um tempo distante que passou. Essa Mágoa de Boiadeiro não é minha, mas com ela me identifico, sofrendo de semelhantes saudades passadas e futuras: 


“Não sou poeta, sou apenas um caipira
e o tema que me inspira é a fibra de peão
Quase chorando encolhido nesta mágoa
rabisquei estas palavras e saiu esta canção”
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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