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Sim, eles existem

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13.03.2012 - 19:54:11
Semana passada um leitor deixou um recado interessante no meu perfil do Facebook. “Eu realmente gosto muito da sua coluna, mas sinto falta de um texto sobre os homens. Não aqueles grosseiros, machistas que mancham nossa reputação. Estou falando de homens de verdade; bons, cavalheiros, corretos. Eu sei que são uma espécie rara, mas eles existem, eu garanto”, disse ele.
 
Sim, os homens bons existem. O leitor está certo. Tento me lembrar de alguns e acabo me dando conta de que, na verdade, conheço um punhado. Como o pai que vejo toda semana no Bosque dos Buritis. É ele quem leva um bebê, que deve ter cerca de 1 ano de idade, e uma garota, de uns 5 anos, presumo, para passear no parque.
 
Um dia, ouvi esse pai justificar ao amigo a razão pela qual era sempre ele que levava as crianças para brincar e tomar sol. “Minha mulher deixou de estudar para cuidar da nossa filha mais velha e me ajudar a formar. Agora que tenho uma empresa e estou bem, nada mais justo que seja ela a conseguir o diploma e investir na carreira”.
 
O amigo não se deu por vencido e fez chacota da situação, dizendo que o homem tinha virado uma bela babá. “Rapaz, e tem profissão melhor do que ser pai? O prazer que sinto em ver meus filhos correrem por aí, em ouvi-los aprender a falar uma nova palavra, a descobrir o mundo, não tem dinheiro que pague”, rebateu.
 
Também me lembrei do marido de uma amiga. Ela teve câncer de mama há pouco tempo. Jovem e bonita, ficou arrasada ao ter de retirar um dos seios em função da doença. Para piorar, ainda teve rejeição à prótese de silicone. Tornou-se triste e depressiva, sem querer sair de casa nem deixar que o marido a tocasse.
 
Diante da tristeza da mulher, um dia ele escreveu um bilhete (que ela, gentilmente, autorizou que eu reproduzisse aqui): “Meu amor, o que sempre me encantou em você foi sua alma, não seu corpo. Sua bondade, alegria e atenção iluminaram o meu caminho e me deram forças. Por favor, luz da minha vida, volte a brilhar! Eu e nossos filhos não queremos viver na escuridão…”
 
A sensibilidade da mensagem do marido valeu por mil terapeutas e próteses. Ela conseguiu se reerguer e voltar à vida. O namorado de uma amiga minha também conseguiu, com apenas um gesto, mostrar a ela que além de não ser ciumento, também era generoso e dedicado.
 
A moça é publicitária e, em épocas de grandes campanhas, precisa ficar até altas horas da noite trabalhando na agência. Era traumatizada com homens possessivos, que não entendiam sua rotina. Até que um dia, o namorado apareceu de repente na agência, às 2h da madrugada. Ela esperava um ataque de raiva dele, mas ficou sem graça ao receber um pacote com seu sanduíche e seu suco prediletos. Sorrindo, ele disse apenas “não queria que você ficasse com fome”, e foi embora.
 
Há também aqueles que são capazes de tudo para matar a saudade, como o marido de outra grande amiga. Na época do namoro, ele vivia no Rio Grande do Sul e ela em Goiás. De família humilde, ele não tinha telefone celular, mas era capaz de ficar três, quatros horas seguidas, de pé, num orelhão de rua, enfrentando o frio terrível e os perigos da noite, apenas para falar com ela e mostrar que se importava.
 
Sim, eles existem. Esses homens sensíveis, que sabem tratar com respeito e consideração uma mulher, que não fazem dela um objeto, mas uma companheira na grande jornada da vida, não são uma ilusão. “Mas onde estão eles?”, “Por que não conseguimos enxergá-los”, devem se perguntar muitas leitoras.
 
A resposta é simples. Na maioria das vezes, estamos com os olhos voltados para a fantasia masculina que criamos, e não para os homens de verdade. Buscamos o protótipo do “macho ideal”, que é viril, tem atitude, “chega chegando” e resolve. Queremos o mais forte, o mais firme, o mais falante, o mais sedutor.
 
Acontece quem nem sempre o Senhor Mais Tudo quer chegar para ficar. Ele pode seduzir uma mulher com atitude, segurança e riqueza, e partir no dia seguinte sem remorsos, pois não pretende criar laços. O que interessa é o risco da conquista, não a relação em si. Ele não busca uma mulher. Busca uma presa, um alvo.
 
Esse homem perfeito é como Teseu, o herói da mitologia grega. Rei de Atenas, ele derrotou o Minotauro, venceu batalhas sangrentas e expressa a figura da coragem, do entusiasmo e da firmeza de vontade. Porém, jamais poderia construir um lar, pois acreditava que sempre haveria uma grande causa, um dragão a ser vencido, um desafio a ser aceito e alguma coisa muito errada no mundo para ser consertada.
 
De outro lado, temos o jovem Aristeu, filho de Apolo. Ele não pode ser classificado como um “herói”, pois não enfrentou dragões com fogo saindo pela boca nem missões impossíveis. Sua tarefa era cuidar de abelhas doentes, coalhar o leite e cultivar as oliveiras. Trata-se de um homem humilde o bastante para se relacionar com qualquer forma da natureza, e executar com perfeição e carinho qualquer função que lhe fosse dada, por mais medíocre e sem importância que parecesse.
 
Minha impressão é que estamos de olho nos Teseus e cegas para os Aristeus. Buscamos a impetuosidade, a força, a aventura, a rigidez, e nos esquecemos dos milagres que o aconchego, o carinho e a dedicação que o amor devotado de um homem bom e tranquilo podem nos trazer. Sim, os Aristeus existem. Graças a Deus eles existem. E a cada vez que cuidam de nossos corações – que assim como as abelhas, muitas vezes estão doentes –, nos mostram que a vida pode ser doce como o mel. 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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