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Ser mulher é difícil demais

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28.05.2013 - 12:38:10

Goiânia – Estava no salão de beleza fazendo as unhas, quando Val entrou. Val nasceu Valter, mas descobriu logo cedo ser uma mulher no corpo de um homem. Foi expulsa de casa aos 15 anos, pelo padrasto. Virou travesti e fez programas na rua por 11 anos. Agora tornou-se maquiadora profissional e atende clientes durante o dia.

Os modos delicados, os seios de silicone e os longos cabelos negros contrastam com os braços compridos, o peitoral forte e a voz aguda. Mas não há dúvidas de que Val é uma mulher. Pensa e sente como uma. Finalizada a maquiagem da cliente e as minhas unhas, começamos a bater papo e engatamos uma conversa de duas horas.

Pergunto como é a vida de um travesti fazendo programa na rua. “Dura”, me responde ela, na lata. “Aliás, dura não. Duríssima. A gente come o pão que o diabo amassou”, completa. Além de constantes episódios de violência física, Val também diz que precisava lidar com outro problema: a resistência dos homens em usar camisinha.

“Parece incrível, mas a maioria dos meus clientes não queria colocar o preservativo. Embora eu fosse uma pessoa completamente desconhecida, que eles não tinham a mínima ideia se possuía ou não alguma doença sexualmente transmissível, não  estavam nem aí e queriam transar sem camisinha de todo jeito.”

Val afirma que nunca aceitou. “Sem preservativo não rola”, sentencia. “Mas muitas colegas minhas aceitavam. Cobravam mais caro pelo programa sem camisinha e faziam o que cliente queria. Uma delas morreu de aids”, conta. O perfil dos clientes: homens, casados em 90% dos casos, com idade entre 25 e 65 anos.

“O pior de tudo era a hipocrisia. Eram loucos para que eu fizesse sexo anal neles, exigiam as maiores extravagâncias, mas depois davam uma de machões e santos. Uma vez, um cliente ligou para a esposa quando o programa terminou e deu o maior esporro, porque ela disse que ainda não estava pronta para ir à igreja”.

Fiquei pensando nas mulheres desses caras. Elas se casam, juram fidelidade eterna e vivem sob constante vigilância, porque os maridos gritam, monitoram seus passos e exigem que elas sejam santas. Enquanto isso, os machões fazem programas com travestis sem camisinha e as expõem a todos os riscos possíveis.

Não vou questionar a preferência por travestis, porque tara é uma coisa pessoal e que foge a qualquer tipo de explicação racional. O problema é realizar as fantasias sexuais sem o menor cuidado com quem se está casado, querer gozar a qualquer custo e mandar a segurança do outro às favas.

Triste constatar que, em muitos casos, uma mulher casada fica na completa dependência da boa vontade de um travesti que se prostitui. Se ele quiser se proteger das DSTs e exigir que o cliente use camisinha, ela não correrá riscos. Se ele ceder e transar sem preservativo, ela terá de correr para o laboratório e rezar para não ter adquirido nenhuma doença.

Complicado. O que fazer numa situação dessas? Virar uma psicopata e seguir o marido todas as noites, para saber se ele sai com travestis ou não? Fazer exame todo mês para saber se está com aids? Exigir que o homem use camisinha em casa? Surtar e divorciar por medo de pegar uma doença?

Enquanto torrava meus neurônios buscando uma maneira de sair daquela sinuca de bico, Val me contava que seu sonho é fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Quer ser atendida no Hospital das Clínicas da UFG, porque acha que se enquadra perfeitamente nas exigências para realização do procedimento.

“Ainda não consegui uma vaga, mas tenho fé que meu dia vai chegar”, diz ela, esperançosa. “Na verdade, eu sou uma transexual, não um travesti”, explica. Pergunto se ela não tem medo da cirurgia. “Da operação não. Tenho medo é de quando eu me tornar definitivamente uma mulher. Ser mulher é difícil demais”. Concordo.  

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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