Goiânia – Dalila tem 15 anos, estuda o 2º ano no Colégio Estadual Irmã Gabriela e é artista de circo. Luzia Lucena tem 82 anos, só sabe escrever o nome (e ainda escreve errado, brinca) e trabalha na portaria do forró para terceira idade aos domingos na Serrinha. Nora Leide tem 55 anos, é casada, mãe de três filhos e professora da rede municipal aposentada. Tatiza tem 25, não é casada, nem tem filhos. Divide a casa e as contas com a mãe e se formou, recentemente, em engenharia-agrônoma.
Em comum todas elas têm uma remuneração própria e responsabilidade por atividades de casa. Têm o sonho de um futuro com mais justiça para as mulheres e vivem um presente de preconceito velado e de constante superação de uma desigualdade entre homens e mulheres. A Redação procurou saber dessas mulheres como vivem, como vêem o mundo e o que desejam.
Dalila Rodrigues de Souza, 15 anos. Solteira, sem filhos, estudante do Ensino Médio (Foto: arquivo pessoal)
Carreira
Nora Leide conta que, por ser professora concursada, não assistiu em seu ambiente de trabalho a problemas que considera comuns, como diferença salarial entre homem e mulher. No entanto, quando teve de enfrentar a sala de aula do Ensino Médio, o preconceito bateu em sua porta. “Os alunos preferiam a presença masculina”. E ela reconhece que nos ambientes de trabalho privado a realidade é ainda mais desigual.
Eugênia, professora de escolas privadas comprova a opinião de Nora. “No meio em que trabalho, mulher para estar no mercado tem que se desdobrar”. Ela explica que homens não apresentam limitações: podem trabalhar qualquer horário, como aos fins de semana e domingos. “Isso é um diferencial. Mas por trás há uma esposa que assume estar com os filhos, cuidar da casa enquanto eles podem topar qualquer parada”, justifica.
Eugênia Fraietta, 43 anos, e o único filho, Lucca. Solteira, professora de literatura (Foto: arquivo pessoal)
Constante provação
Em sua carreira, a professora Eugênia afirma já ter negado muito trabalhos por não admitir estar ausente da vida do filho. O resultado dessa escolha: “Tive que ser muito mais eficiente e capaz para ter a opção de negar”.
A ministra Delaíde afirma que para fazer parte de espaços de poder, não é diferente. “A gente tem que se esforçar mais”. Ela lembra que muitas mulheres ingressam em carreiras públicas por concursos, que garantem salários iguais. Mas na hora de assumir chefias… “são os homens quem ocupam os cargos”, afirma.
A esperança reside em espaços como aquele que a adolescente Dalila convive: o Circo Lahetô, em Goiânia. Ela diz que alguns exercícios são considerados por aí como “de meninos”. Mas, lá, é coisa para menina também. “No início tive medo e isso me limitava, mas depois encarei. A gente busca quebrar essa ideia de que menina não pode”, explica.
Conquistas
Dalila, de 15 anos, diz que era muito chata mais nova e que hoje convive bem com a família, o que é razão de satisfação. A jovem Tatiza também se orgulha de sua maturidade em lidar com o ambiente familiar. Eugênia se sente realizada pela relação que tem construído com seu filho e, Nora, pela harmonia familiar que tem em casa.
Mas elas também se realizam fora de casa. Dalila, ainda tão jovem, se orgulha de suas técnicas de circo. Tatiza, de sua graduação. Eugênia de sua independência financeira e de sua autonomia. “Que é estar bem comigo mesma, desmistificando a necessidade de ter um par”, explica.
Nora se orgulha de ter sido feliz e realizada durante os anos que deu aula. Delaíde, de ter escolhido a carreira jurídica e de não ter se voltado para seu crescimento individual somente. “Vivemos muita desigualdade. Sempre trabalhei para termos uma sociedade melhor”. Já Luzia, simples e sábia, se realiza por ter arroz , feijão e um teto. “Cheguei aqui da Paraíba sem nada. Minha casa é uma mansão para mim. Todo mês compro cinco quilos de arroz. Eu subi na vida”.
Vida prática
Com exceção de Dalila, a remuneração de todas elas tem como destino o pagamento das despesas domésticas integralmente ou compartilhando com parceiros ou mãe. Todas elas também colocam a mão na massa para cuidar da casa. Tatiza e Eugênia contam com ajuda somente de uma faxineira, o resto é com elas.
Luzia, com mais de 80 anos, faz tudo sozinha. Por ela, pelo parceiro de 83 e pelo neto de 22 anos. “Um folgado (risos). Diz que cuida de mim, mas eu quem cuido dele. Não faz nada. Tô dizendo pra você, mulher tem muito mais responsabilidade que homem”, reclama.
Nora reconhece que os filhos tiveram dificuldade em assumir as atividades domésticas e que é ela a cabeça da casa. “O homem tem dependência. A gente que tem que tomar as decisões. Os filhos não tinham essa responsabilidade, mas só a de estudar”. Agora que saíram de casa, ela diz que dois dos três já sabem cuidar dos serviços da casa.
Já Eugênia cuida para que seu filho Lucca, desde pequeno, seja responsável pelas demandas domésticas. “Tenho me esforçado para partilhar com ele o que é possível. Ele não é hóspede. Vejo o que ele consegue fazer e peço, sem alguma valoração do trabalho doméstico. Isso dá ganho de autonomia para ele”, explica a professora.
Donas de suas próprias remunerações e de muitas responsabilidades, elas ainda conseguem achar um tempo livre. Os hobbies passam longe do salão de beleza e dos centros de compras. Estar com amigos e família, viajar, fazer atividade física, ler e ir ao cinema são as atividades favoritas da maior parte delas. Dalila não dispensa o facebook e animes. Na outra ponta da vida, Luzia não abre mão do tricô e do forró. “Faço isso para não estar esquecida do mundo. Temos que lutar com a vida para ir para frente”.
O futuro
Delaíde, que já tem netas, deseja que elas não enfrentem uma dupla jornada: dar conta do serviço sozinha dentro e fora de casa. “É um fardo muito pesado que a mulher deve carregar e que pode ser amenizado com a divisão do trabalho. Se ela assumir toda a tarefa, é difícil se profissionalizar”, defende.
A preocupação de Eugênia vai além. “Tenho mil preocupações, mas tem me assustado a violência física contra a mulher. Os números são assustadores”.
Mas a maior parte teve uma única resposta: desejo de que as oportunidades sejam iguais. “Desejaria que a mulher fosse reconhecida por sua competência e não por seu gênero”, defendeu Tatiza.
Luzia, que tem netas, justifica seu desejo. “Eu não sei escrever uma letra e não subi na vida foi por conta disso. Não quero que elas sejam assim também. Não dá para querer casar sem estudar. A mulher não pode confiar em homem. Não dá para contar com eles. Tem que ser independente”. Sábio conselho de avó.