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Taynara Souza Santos, de 31 anos (Foto: reprodução/redes sociais)
Taynara Souza Santos, de 31 anos (Foto: reprodução/redes sociais)

Rua 4: o coração popular que pulsou o início de Goiânia

07.11.2025 - 16:56:00
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Carolina Pessoni
 
Goiânia – Entre a formalidade monumental da Avenida Araguaia e o burburinho da Tocantins, a Rua 4 sempre foi o território da vida cotidiana. Era o local onde o comércio pulsava, os aromas de feira se misturavam às conversas nas calçadas e os encontros moldavam a alma popular de Goiânia.
 
Nascida nos primeiros traçados de Attilio Corrêa Lima, a Rua 4 surgiu como uma das artérias que alimentariam o núcleo central da nova capital. Era uma via voltada ao comércio, posicionada estrategicamente entre zonas residenciais e o centro cívico. 
 
Ali, no final dos anos 1940, ergueu-se o primeiro Mercado Municipal de Goiânia, ponto de chegada de alimentos, charques e temperos trazidos de todas as partes do estado. O prédio ocupava o mesmo terreno onde hoje está o Parthenon Center, em frente ao Hotel Umuarama.

 


Mercado Central na Rua 4, onde hoje é o Edifício Parthenon Center (Foto: Hélio de Oliveira/ Divisão de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura de Goiânia)
 
“Esse mercado foi o ponto central da Rua 4. Era o local de trocas, de encontro, de abastecimento. Dali irradiava o movimento da rua”, relembra a arquiteta Simone Buiate Brandão. Ela destaca que o antigo mercado funcionou até a década de 1980, e sua substituição pelo Parthenon marcou uma mudança simbólica na paisagem urbana.
 
“O Parthenon foi o primeiro edifício-garagem da cidade, com rampa circular e lojas térreas que lembram as antigas galerias. É uma peça emblemática da arquitetura goianiense — moderna, brutalista, e ao mesmo tempo profundamente ligada à história do comércio local”, explica
 
Na memória do arquiteto Manoel Balbino, a Rua 4 era o território dos “turcos”, como eram chamados os comerciantes e pequenos lojistas da região. “Enquanto a Rua 3 e a Avenida Goiás tinham o comércio mais fino, a Rua 4 era o reduto do comércio popular. Ali estava o Bazar Municipal, uma loja imensa que atendia todas as escolas, vivia com filas na porta. E entre o Bazar e o Mercado, era um mundo de gente andando na rua, charretes estacionadas nas pracinhas, um movimento comparável ao da Rua 44 de hoje.”


Parthenon Center se tornou um dos símbolos da Rua 4 (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
 
A via abrigou de tudo: armarinhos, lojas de tecidos, sebos, livrarias, lojas de discos e, mais tarde, grandes redes como as Lojas Americanas. A “divisão” entre o tipo de comércio é feita pela Avenida Goiás. No trecho entre as avenidas Araguaia e Goiás, o comércio é mais voltado para itens de utilidades domésticas, calçados e roupas. Na segunda metade, que vai até a Avenida Tocantins, as livrarias, sebos, lanchonetes e armarinhos.
 
Muitos goianienses guardam lembranças afetivas desses espaços. Simone, por exemplo, recorda o ritual de comprar livros escolares nos sebos e depois passar em uma lanchonete famosa da região, tradição de quem cresceu nos anos 1990 frequentando o centro. “Depois, na faculdade, os sábados eram de passeio na Rua 4, olhando discos raros, curtindo o tempo com os amigos”, conta.
 
Ao longo do tempo, a Rua 4 testemunhou transformações que contam muito sobre a própria Goiânia. O fechamento do antigo mercado, a construção do Parthenon Center e do Centro de Convenções onde ficava a antiga Santa Casa, episódios que sedimentaram novas camadas de memória e significado.
 

Centro de Convenções de Goiânia está localizado já no trecho final da via (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
 
A rua também teve papel urbanístico marcante. Attilio Corrêa Lima planejou o núcleo central de Goiânia com um zoneamento bem definido: a Avenida Goiás como eixo monumental e abaixo da Paranaíba as moradias populares, destinadas aos trabalhadores que construíram a cidade, muitos deles vindos de regiões rurais ou de outros estados.
 
Hoje, hotéis, lanchonetes e comércios que resistem ao tempo, a Rua 4 segue sendo um retrato da cidade viva. Ali, as vitrines antigas convivem com novas lojas, e os edifícios sem recuo lembram a densidade da ocupação histórica da região. “A Rua 4 sempre foi de um comércio de muito giro, de contato direto com o público”, diz Manoel Balbino. “Era uma rua de movimento, de mistura, e isso é o que faz dela tão goianiense.”
 
No mosaico urbano de Goiânia, a Rua 4 permanece como uma das joias mais simbólicas do centro: nem monumental como a Goiás, nem silenciosa como as vias residenciais. É o ponto onde a cidade se revela em sua essência popular: feita de gente, de histórias e de trocas que seguem atravessando gerações.

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