Logo

Roma, publicidade aberta

WhatsAppFacebookLinkedInX
14.04.2014 - 16:06:10
Goiânia – Acompanhei mais comentários sobre esse A Grande Beleza, longa italiano vencedor do último Oscar de filme estrangeiro, do que sobre 12 Anos de Escravidão, premiado como Melhor Filme. Aí resolvi tirar logo o atraso.
 
Uns tantos gostam, outros tantos não gostam. Com este não parece haver meio termo. Na verdade, reformulo: o time dos que são felizes com o filme parece ser maior.
 
Eu não gostei nada, confesso. Bom, pra não dizer que nada ali me agrada, simpatizo bastante com o Toni Servillo no papel do escritor-de-um-livro só Jep Gambardella. Mas paro por aí.
 
O que pega pra mim é Sorrentino ser tão clichê em suas escolhas nas 2h20 – que mais parecem 8h – que usa para refletir sobre o vazio da burguesia elitista da Itália contemporânea. Itália de hoje, sim, com seus Macs, iPhones e festas de toque eletrônico, mas que acaba dando aquela olhada sobre o ombro, seguida de piscadela, para A Doce Vida (1960), de Fellini, reflexo mais evidente neste filme que tenta muito, mas muito mesmo, honrar um "cinema italiano anterior".
 
O Marcello Rubini interpretado por Marcello Mastroianni tomaria uns drinks com Jep numa boa, aliás. Falariam de mulheres, literatura, italianices, ócio. Daria outro filme, provavelmente mais curto e melhor.
 
Enquanto Jep, já com mais de 60 anos, resiste em voltar a escrever, insistindo no bonvivantismo que fez de sua vida em Roma, participando de festas, visitando manifestações artísticas diversas (da mais atual e questionável performance moderna aos clássicos lapidados) e discutindo a vida com e dos amigos, Sorrentino filma suas idas e vindas sociais como se tivesse de cumprir algumas exigências para que seu filme venha a atingir o nível de "excentricidade" (felliniana? Quisera ele; porque um dos brilhos de Fellini era transformar o "excêntrico" em algo seu, portanto felliniano) esperado. Elementos como a editora anã e duas cenas envolvendo animais – uma girafa e um conjunto de flamingos – parecem surgir por obrigação. "Tá muito normal ainda, põe ele pra encarar uma girafa", talvez esteja anotado à caneta no roteiro original.
 
Esses animais, por sinal, trazem na garupa uma ou duas lições de moral que tratam de deixar a segunda metade desse longo filme ainda pior. O mágico que diz que, se soubesse fazer pessoas desaparecer, já não estaria mais entre nós, e, constrangimento dos constrangimentos, a santa desdentada explicando o porquê de comer apenas raízes e, em seguida, soprar as aves para longe. E a câmera do Sorrentino ali, viciada em sua elasticidade, repetitiva, quase um estilingue ao aproximar-se ou distanciar-se de pessoas ou objetos.
 
Também damos de cara com o imenso desejo de fazer de A Grande Beleza uma crônica de Roma e de tudo o que uma capital dessas poderia oferecer (oferece Fanny Ardant, por exemplo, que, embora francesa, já teve seus affairs com o cinema italiano, sobretudo com Ettore Scola). Nada contra filmar uma cidade como Roma. Até um pouco inspirado Woody Allen conseguiu. Impressão aqui, no entanto, é que a grande Roma, por mais bela, histórica e cinematograficamente aberta que seja, é usada por Sorrentino como estratégia de compensação.

"A SACADA DE SEU PRÉDIO É DE FRENTE PARA O COLISEU", o movimento de câmera parece gritar, como se precisasse nos esfregar na cara que, embora tenha vista VIP para uma das maravilhas do mundo, Jep não está imune à decadência (humana, intelectual, corporal, enfim…). Não por acaso, depois do "the end" só dá imagens pelo rio Tevere, muito mais vivas que o desfecho recado-aos-mais-jovens, versinho juvenil que se esforça para, no último gole, sublinhar A Grande Beleza como um possível filme de amor e arrependimento.

 
O filme ainda me parece extremamente mal montado. Um excesso de cortes, às vezes beirando a montagem desses blockbusters de ação. E a luz, tentando encontrar uma perfeição absoluta em tudo, me fez pensar em algo encomendado por agência de publicidade, uma Roma de calendário que se manifesta na tela.
 
Se jogado no WinRAR, talvez A Grande Beleza reaparecesse como uma versão estendida de comercial da Campari. Porque, voltando a Fellini, que tanto respira na nuca do longa de Sorrentino, por sua vez um Fellini edição Martin Claret, acredito que seja como o José Miguel Wisnik conclui na sua coluna do O Globo: "Fellini elevou o kitsch sentimental ao sublime. A Grande Beleza reduz o sublime ao kitsch."
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
02.11.2026
Morce-GO Vermelho reúne cinéfilos em programação especial de terror; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Morce-GO Vermelho – Goiás Horror Film Festival chegou à 10ª edição no último fim de semana, com uma programação dedicada ao cinema fantástico e de horror. O evento foi realizado em Goiânia e Anápolis. A seleção reuniu 42 filmes, escolhidos entre 1.082 obras inscritas. A curadoria é assinada por Mônica Trigo, […]

Curadoria Afetiva
01.11.2026
Zen Vergonha

Peço licença para me apropriar do título do podcast da destemida, Fernanda Lima que tem como principal objetivo falar de assuntos sem tabus ou constrangimentos e que, no meu caso e nesse texto específico, serviu como uma luva. Para início de conversa indicarei a série alemã, “Assassino Zen” (2024), disponível na Netflix, cuja segunda temporada […]

Noite e Dia
30.10.2026
Prêmio Fieg de Inovação 2026 reconhece projetos que impulsionam a indústria goiana

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) anunciou, na última quarta-feira (28/10), os vencedores do Prêmio Fieg de Inovação 2026. A cerimônia, realizada no Centro de Convenções de Goiânia durante a programação da Expoind 2026, reconheceu projetos que contribuem para o desenvolvimento da indústria goiana por meio de novas […]

Joias do Centro
30.10.2026
Maria Fumaça nº 11 é símbolo da chegada do progresso a Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Entre os marcos da Estrada de Ferro de Goiás, as locomotivas estão entre os mais representativos. Por meio delas, o progresso chegou ao Estado e, consequentemente, à nova capital. Bem no Centro de Goiânia está um dos símbolos deste tempo, a Antiga Estação Ferroviária, que guarda uma peça que chama a […]

Meia Palavra
28.10.2026
‘Carrie’ renova clássico sem perder o espírito original

Olá, sumidos. Nada mais adequado para a semana do Dia do Saci do que falar da nova encarnação de Carrie, a Estranha, agora uma série da Prime Video feita por Mike Flanagan, de Missa da Meia-Noite e outros sucessos do terror recente. Já renovada para a segunda temporada, isso, por si só, já deve informar […]

Noite e Dia
27.10.2026
Jardim Potrich celebra o aniversário de Goiânia com yoga e sabores do Cerrado; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em comemoração ao aniversário de Goiânia, o Jardim Potrich realizou, no último sábado (24/10), uma experiência que uniu yoga, alimentação saudável e valorização da biodiversidade do Cerrado, convidando o público a celebrar a cidade por meio do cuidado com o corpo, a mente e os sentidos. A programação contemplou uma aula […]

Noite e Dia
26.10.2026
População comemora aniversário de Goiânia no tradicional desfile cívico; veja galeria de fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia comemorou seus 93 anos, no último sábado (24/10), com a realização do tradicional desfile cívico-militar na Avenida 24 de Outubro, no Setor Campinas. A programação, realizada durante a manhã, reuniu mais de 1,2 mil participantes e marcou as celebrações pelo aniversário da capital goiana. O prefeito Sandro Mabel e a vice-prefeita […]

Curadoria afetiva
25.10.2026
Equilíbrio

“A Anitta fez um curta musical que é um dos maiores acontecimentos do ano. Equilibrivm I-II tem 35 minutos. Acho que uma boa maneira de resumi-lo é dizer que ele é uma grande homenagem à cultura brasileira, feito com muito cuidado e respeito. A pesquisa visual do projeto vai fundo em três pilares. Primeiro, as […]