Imagine passar anos acreditando que o ronco é apenas uma característica comum na hora de dormir. Para quem ronca, talvez seja apenas um incômodo. Para quem divide a cama, pode significar noites mal dormidas, interrupções constantes e, em alguns casos, até a decisão de dormir em outro quarto. Mas e se parte desse problema estiver no nariz e puder ser tratada?
O ronco atinge cerca de 40% a 50% dos adultos brasileiros, segundo a Associação Brasileira do Sono. Embora seja mais frequente entre homens, quase 40% dos roncadores no país são mulheres. Por trás do som que atravessa a madrugada podem estar diferentes fatores, entre eles alterações anatômicas que dificultam a passagem adequada do ar pelas vias respiratórias.
É justamente nesse ponto que a rinoplastia pode ganhar um papel que vai muito além da estética. Quando há alterações estruturais no nariz, como desvios, estreitamentos ou outras obstruções, a cirurgia pode ser indicada para melhorar a função respiratória. Não se trata apenas de mudar o formato do nariz, mas de avaliar se sua estrutura está contribuindo para uma respiração inadequada durante o sono.
A discussão ganhou um exemplo recente e bastante próximo da realidade de muitos casais. A apresentadora Eliana contou, no programa Saia Justa, que ela e o marido, Adriano Ricco, eventualmente dormem em quartos separados por causa do ronco. O chamado sleep divorce, ou “divórcio do sono”, pode ser uma alternativa para preservar o descanso, mas também revela o quanto um problema aparentemente simples pode afetar a rotina e a convivência.
Antes de aceitar essa situação como definitiva, é preciso investigar. Em pacientes com alterações anatômicas nasais, uma rinoplastia funcional, muitas vezes associada à correção do septo, pode contribuir para melhorar a passagem de ar e a qualidade da respiração. A cirurgia não deve ser apresentada como solução universal para o ronco, já que suas causas são diversas e podem envolver estruturas além do nariz. Em casos de suspeita de apneia obstrutiva do sono, por exemplo, é indispensável uma avaliação médica específica.
O interesse dos brasileiros pela rinoplastia ajuda a dimensionar a relevância desse procedimento. Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) apontam que mais de 100 mil rinoplastias são realizadas anualmente no Brasil, que figura entre os países com maior número de procedimentos desse tipo no mundo. Parte dessa procura está ligada à estética, mas existe também uma demanda relacionada à função respiratória e à qualidade de vida.
Essa diferença é importante. Durante muito tempo, a rinoplastia ficou associada quase exclusivamente à aparência. Hoje, é possível olhar para o procedimento também sob a perspectiva funcional. Um nariz que respira melhor pode representar noites mais tranquilas, menos desconforto e uma rotina com mais qualidade.
Talvez seja essa a principal mudança de perspectiva. O ronco não precisa ser tratado como piada, castigo ou motivo inevitável para separar casais durante a noite. Em muitos casos, ele é um sinal de que algo precisa ser compreendido. E, quando a causa está na anatomia do nariz, a rinoplastia pode deixar de ser apenas uma escolha estética para se tornar parte de uma solução que devolve o direito de dormir bem.
*Gustavo Jorge Magalhães é otorrinolaringologista, especialista em rinoplastia
