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Quando o artista relê sua própria obra

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25.09.2012 - 10:21:08

Goiânia – Amanheci hoje com vontade de ouvir Gilberto Gil. Então, coloquei no som o disco piratão do baiano gravado ao vivo, no ano de 1973, na Escola Politécnica da USP. Que belo registro! Poucas vezes vemos um artista com tamanha sinceridade no palco, dialogando e confrontando o público. Nessa ocasião, o baiano revê a própria obra e coloca em cheque canções que moravam no coração da esquerda brasileira. Coisa linda!

Para você que não sabe, esse álbum não faz parte da discografia oficial do ex-ministro. Ele é um registro não autorizado que estudantes da USP fizeram da apresentação e que nunca foi lançado. Gil está só com o violão, logo após a chegada do exílio. Ainda não tinha começado a fase Re do compositor. E ele já tinha um repertório mais rico do que vários e vários outros nomes da música mundial.

O contexto histórico é fundamental para entendermos o álbum e o tom das conversas. Em março de 1973, um estudante de Geologia da universidade foi morto pela ditadura. Gil foi convidado para fazer um show de protesto. Em maio, ele estava lá para tocar na USP. Só que eles não contavam que Gil estava em outra. O público pedia canções de protesto, da tradição de questionamento que Gil se vinculou antes do Tropicalismo. Mas o baiano não queria mais nada disso.

Após o desbunde londrino durante seu exílio, Gil não queria mais saber do maniqueísmo esquerda e direita. Ele não estava confortável com o patrulhamento imposto. Isso fica claro nos momentos em que conversa com a plateia. Os estudantes pediam para que ele tocasse Cálice, Gil tentou escapar dizendo que não sabia a parte que Chico Buarque cantava. Alguém arrumou a letra para ele e, constrangido, Gil tocou a música.

Nesses momentos de diálogo, o artista expôs seu desconforto com canções como Procissão, Louvação e Ensaio Geral. Disse que se fosse naquele contexto de 1973, não teria escrito as mesmas. Debateu com o público sobre a não necessidade do engajamento da arte e colocou que cobrar isso nada mais é do que uma censura às avessas. Fantástico.

Nada mais educativo do que uma aula de história que não é uma aula de história. Esse disco é um desses casos. O embate entre expectativa do público e o posicionamento do artista, em um dos momentos mais particulares da história do Brasil, é a forma mais direta de compreendermos o quão aquele período foi de intensas transformações. Definitivamente, estamos falando de outro mundo muito diferente do de hoje. Um mundo onde as opções políticas e estéticas eram defendidas como religião.

Gil quebra essa linha dura, essa cobrança e enfrenta o embate. Tocando como nunca, com sua voz no ápice e exalando criatividade pelos poros, o compositor mostra que podemos ser políticos com outros tipos de abordagem. Corajoso, explicitou esse posicionamento na casa da esquerda brasileira.

Basta procurar no Google que você acha esse disco fácil. Não perca tempo e consiga uma cópia para você agora. Um registro memorável. 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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