Logo

Quando Eu Era Vivo e os cômodos eram mortos

WhatsAppFacebookLinkedInX
14.02.2014 - 10:04:25

Goiânia – Existe alguém com um norte tão bem definido no que diz respeito a fazer cinema de terror e horror no Brasil quanto o Filmes do Caixote? Cinema de terror que tenha um tato minimamente comercial, no caso. Que tenha alguma facilidade de chegar ao público médio, considerando, ainda, a falta de tradição que temos no gênero (José Mojica é um caso ímpar, cuja obra se tornara cult em relação a si própria).
 
Marco Dutra e Juliana Rojas sempre ousaram embrenhar por esse lado. Dirigindo em dupla, realizaram curtas que se assumem como cinema de gênero (O Lençol Branco, Um Ramo), assim como Trabalhar Cansa (2011), primeiro longa dos dois e que também se entrega ao fantástico. Em Quando Eu Era Vivo, Dutra dirige solo, enquanto Rojas (que filmou o seu próprio curta fantástico em 2012, O Duplo) põe as mãos na montagem. Parecem saber o que quer, e isso fica cada vez mais evidente no que têm filmado.
 
Acho que foi o José Geraldo Couto, no Blog do IMS (Instituto Moreira Salles) o primeiro a observar, em texto, certas semelhanças entre Quando Eu Era Vivo e o cinema de Roman Polanski. Couto chega a exemplificar com uma cena específica de O Inquilino (1976), mas a lembrança também pode chegar a O Bebê de Rosemary (1968) e até mesmo Repulsa ao Sexo (1965), no que já teríamos aí uma trinca bem certeira do autor polonês.
 
Polanski sabia – e ainda sabe, como podemos verificar no recente Deus da Carnificina, de 2011 – adoecer seus espaços e, com eles, os personagens que ali abrigam. É um mestre em transformar espaços fechados em algo um tanto demente: quartos, cômodos, apartamentos inteiros. Um conjunto de paredes, algo tão sólido, capaz de se colocar como uma presença a mais, uma coisa a ser sentida, não raramente com os piores efeitos possíveis.
 
Na história de um homem (Marat Descartes) que volta a morar temporariamente com o pai (Antônio Fagundes) após se separar da esposa, Quando Eu Era Vivo ecoa muito dessa influência, confirmando um cineasta que produz por meio de uma cinefilia que não morre em si mesma. Porque Quando Eu Era Vivo compreende certas regras, com as quais Dutra acaricia no atacado e no varejo, às vezes brincando com clichês do gênero (a gaveta, a maçaneta), outras vezes levando a sério, embora com aquele sorrisinho de lado, crendices e folclores facilmente reconhecidos por nossa cultura de superstição. A cena em que Descartes, sentado numa cadeira, é "benzido", é um acerto absoluto, pois, além de saltar do cômico para a tensão extrema (e reveladora), traz toda uma carga de crença popular, tão comum ao brasileiro, inclusive a classe média, justamente o campo de exercício do Filmes do Caixote.
 
Após bela abertura de créditos iniciais e uma introdução com gravações de arquivo que, colocadas ali no começo, parecem logo estimular a imaginação macabra que será fundamental para o filme, o pai, recebendo seu primogênito, reapresentará ao filho o prédio e, sobretudo, o apartamento. A cada olhada de Descartes pela sala, Dutra devolve com um plano de ponto de vista, nos mostrando o que o protagonista olha, vê e observa, numa espécie de raio-x inicial do lugar. Terá de dormir na sala, uma vez que seu antigo quarto está agora ocupado por uma estudante de música (Sandy), que pode não ser a única inquilina ali dentro.
 
A habilidade de canto da moça possui papel fundamental na história (baseada em A Arte de Produzir Efeito sem Causa, de Lourenço Mutarelli), o que faz de Sandy o cajado a matar duas capivaras de uma vez, muito embora pareça à vontade somente com 50% da faceta da personagem, os outros 50% talvez carentes de alguma força e impacto, principalmente ao lado de Descartes, impecável no seu mix de lassidão e "enfermidade".
 
Descartes leva seu personagem, Júnior, a novos estágios de delírio. Obcecado pelas antigas gravações em VHS e pela memória da mãe, por sua vez chegada num ocultismo, não hesita em investigar e desenterrar o passado familiar. Faz isso de maneira concreta, resgatando objetos e remodelando o apartamento. O espaço fechado finalmente toma corpo, assumindo-se macabro. A possessão de um lugar cotidiano.
 
A câmera de Dutra pode não entortar e suas imagens podem não se impregnar de uma elasticidade febril como em Polanski, mas a apreensão de que algo estranho e "vivo" se esconde por trás de tanta tralha e decoração peculiar é bastante similar. Há em Dutra certa rigorosidade e estabilidade contínua dos planos, até mesmo delicadeza, que fazem desse apartamento algo íntimo e, portanto, assustador conforme tal familiaridade passa a ser associada ao inexplicável. Essa sensação vai desde, mais uma vez, gavetas e maçanetas, objetos tão comuns do dia-a-dia e eternamente requentados pelo cinema de gênero, até um boneco do Fofão filmado de modo encapetado e capaz de remeter à infância de muita gente; aquele receio do que pode estar à espreita no cantos da casa, atrás da mobília, nos corredores mal iluminados, na esquina da porta, no olhar de um boneco. Um filme de clima, sem dúvida.
 
A infância, por sinal, age como tiro de largada do longa. É a fase em que mais estamos sujeitos a nos impressionar, afinal. Mesmo que venha a adquirir um aspecto redundante e repetitivo, retendo um pouco o ritmo do filme, é no material das fitas em VHS que a infância é exposta. Não por acaso, em várias momentos Descartes lembra uma criança crescida.
 
Se Quando Eu Era Vivo não esconde ter sua raiz no núcleo familiar apodrecido (por mais que o último diálogo sugira um desfecho mais leve do que de fato é), é da infância que nascem os incômodos. O primeiro registro em VHS, logo no começo, é quase uma versão condomínio de causos contados ao redor de fogueira de acampamento.
 
Marco Dutra fez aqui um filme de bruxaria dos bons. Que o cinema brasileiro não tenha medo dele.
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fabrício Cordeiro

*Crítico de cinema e curador da Goiânia Mostra Curtas 2013 - Mostra Municípios

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
30.10.2026
Prêmio Fieg de Inovação 2026 reconhece projetos que impulsionam a indústria goiana

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) anunciou, na última quarta-feira (28/10), os vencedores do Prêmio Fieg de Inovação 2026. A cerimônia, realizada no Centro de Convenções de Goiânia durante a programação da Expoind 2026, reconheceu projetos que contribuem para o desenvolvimento da indústria goiana por meio de novas […]

Joias do Centro
30.10.2026
Maria Fumaça nº 11 é símbolo da chegada do progresso a Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Entre os marcos da Estrada de Ferro de Goiás, as locomotivas estão entre os mais representativos. Por meio delas, o progresso chegou ao Estado e, consequentemente, à nova capital. Bem no Centro de Goiânia está um dos símbolos deste tempo, a Antiga Estação Ferroviária, que guarda uma peça que chama a […]

Meia Palavra
28.10.2026
‘Carrie’ renova clássico sem perder o espírito original

Olá, sumidos. Nada mais adequado para a semana do Dia do Saci do que falar da nova encarnação de Carrie, a Estranha, agora uma série da Prime Video feita por Mike Flanagan, de Missa da Meia-Noite e outros sucessos do terror recente. Já renovada para a segunda temporada, isso, por si só, já deve informar […]

Noite e Dia
27.10.2026
Jardim Potrich celebra o aniversário de Goiânia com yoga e sabores do Cerrado; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em comemoração ao aniversário de Goiânia, o Jardim Potrich realizou, no último sábado (24/10), uma experiência que uniu yoga, alimentação saudável e valorização da biodiversidade do Cerrado, convidando o público a celebrar a cidade por meio do cuidado com o corpo, a mente e os sentidos. A programação contemplou uma aula […]

Noite e Dia
26.10.2026
População comemora aniversário de Goiânia no tradicional desfile cívico; veja galeria de fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia comemorou seus 93 anos, no último sábado (24/10), com a realização do tradicional desfile cívico-militar na Avenida 24 de Outubro, no Setor Campinas. A programação, realizada durante a manhã, reuniu mais de 1,2 mil participantes e marcou as celebrações pelo aniversário da capital goiana. O prefeito Sandro Mabel e a vice-prefeita […]

Curadoria afetiva
25.10.2026
Equilíbrio

“A Anitta fez um curta musical que é um dos maiores acontecimentos do ano. Equilibrivm I-II tem 35 minutos. Acho que uma boa maneira de resumi-lo é dizer que ele é uma grande homenagem à cultura brasileira, feito com muito cuidado e respeito. A pesquisa visual do projeto vai fundo em três pilares. Primeiro, as […]

Joias do Centro
23.10.2026
Goiânia em nove capítulos: marcas que ajudam a contar a história da capital

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia nasceu de um projeto de modernização, ganhou forma entre avenidas largas e edifícios de linhas geométricas e, ao longo de nove décadas, construiu uma identidade que ultrapassa os limites de seu plano original. A capital que completa 93 anos neste sábado (24/10) guarda, em suas ruas, praças, monumentos e instituições, […]

Noite e Dia
22.10.2026
Goianienses prestigiam noite de música, teatro e dança com o espetáculo “Pop Hits”; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Os alunos do curso de Teatro Musical e da Banda Sinfônica Jovem de Goiás, da Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França, apresentaram o espetáculo “Pop Hits” nesta quarta-feira (21/10), no Teatro Escola Basileu França, em Goiânia. A apresentação reuniu música, teatro e dança, com interpretações de canções conhecidas […]