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Quando a gente vira “seu”

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28.02.2012 - 11:27:52

 

“Ô, seu Pablo! Tava sumido! Vai aquela cervejinha?”.

Quando ouvi essa frase, gelei. Aquele momento que eu sabia ser inevitável, e que mais cedo ou mais tarde chegaria, se materializou estourando no meu ouvido como um carro que fura um “Pare!” e arregaça a lateral do seu veículo: “seu Pablo”. Eu tinha mudado de categoria. Não era mais “cara”, “velho” ou “brother”. Agora eu era “seu”. Uma nova fase de vida se abria como um abismo na minha frente e eu não estava certo se queria pular naquele vazio.

Foi no final do ano passado, em um jogo do Goiás no Serra Dourada. Sento sempre no mesmo local no estádio e o vendedor de cerveja já me conhece. Sempre conversamos sobre a partida, batemos um papo sobre o público, falamos sobre viagens curtas de final de semana. Fiquei duas semanas sem comparecer ao estádio por conta de compromissos de trabalho e, quando retornei ao meu habitat esmeraldino, vi que a idade tinha chegado. Agora, eu havia entrado na categoria do “seu”.

Quem me conhece sabe que minha aparência não é das mais, digamos, respeitáveis. Sou meio maloqueiro, ando de pochete e cortar o cabelo ou fazer a barba são para mim verdadeiros estorvos. Você pode ver que é verdade nessa fotinha aí do seu lado direito. E olha que aí eu estou mais arrumadinho. No dia a dia a coisa é pior, garanto. Eu achava que esse visual iria garantir alguns anos a mais na perspectiva dos outros de um aspecto mais jovial. Doce ilusão. Quando a idade chega, é com força. E trouxa de quem tenta lutar contra. É mais ingrato que enxugar gelo. Mais inglório que o trabalho de Sísifo e sua pedra.

Deixei o estádio reflexivo com a nova alcunha que acompanhava meu nome. Encontrei meus pais na sequência e a conversa não foi animadora. Ao externar minha história, minha mãe sacramentou aquilo que eu não queria ouvir:

“É… Você virou “seu” muito cedo. Começaram a me chamar de “dona” mais tarde…”

O meu drama tem sua versão feminina: quando a mulher é chamada de “dona”. Cada gênero com seu termo.

Eu não tenho problemas com a idade. Não fico pensando muito no quanto era boa minha infância ou adolescência. Acredito que cada fase tem sua onda e penso que curti direitinho o que cada período da vida tem de legal. Acho patético tiozão que pinta o cabelo e posa por aí de garotão. Repito: patético. Sonho em envelhecer com saúde. Sonho mais ainda com minha aposentadoria, quando vou poder passear por aí com a camisa aberta, barriga de fora e os pelos brancos do peito à mostra, com uma bengala para cutucar criança chata e reclamando de tudo ao meu redor. Uma bela barba branca inspiradora de respeito. Isso sim é a melhor idade.

O problema é que quando ela dá seu primeiro sinal, seja com os primeiros cabelos brancos, a calvície aponta ou você virando “seu”, o baque é real. Quem diria que aquele cabeludo que bebia pingorante em show no DCE seria chamado de “seu”… Pois é, fazer o quê? Só não passa por isso quem morre cedo. Ainda bem que cheguei com alguma dignidade na fase do “seu”.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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