Nos últimos anos, quantos de nós não sentimos um aperto no peito ao abrir as redes sociais ou evitamos certos assuntos em um almoço de família para preservar a paz?
Como psicóloga, tenho observado em meu consultório um fenômeno cada vez mais frequente e alarmante: a política deixou de ser um debate sobre a gestão pública e passou a ocupar o centro das angústias emocionais da população. O sofrimento psíquico contemporâneo está intimamente ligado ao clima de hostilidade que se instalou não só em nosso país mas no mundo.
Os dados corroboram o que a prática clínica já demonstra. O Brasil carrega o doloroso título de país mais ansioso do mundo, com quase 10% da população convivendo com o transtorno de ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde, mas a comunidade científica estima que esse número pode chegar a pelo menos três vezes mais, devido à subnotificação. Embora as causas da ansiedade sejam multifatoriais, é impossível isolar esse adoecimento do ambiente político atual.
Além dos quadros ansiosos, a depressão tem se manifestado muitas vezes camuflada sob a forma de uma apatia crônica e do que a literatura contemporânea já conceitua como “fadiga política”. O bombardeio ininterrupto de crises e a sensação de impotência diante das decisões macroestruturais geram o que na psicologia chamamos de “desamparo aprendido”, quando o indivíduo percebe que, independentemente de seus esforços individuais, o cenário ao seu redor permanece hostil e imutável, a esperança se esvai e a ausência de perspectiva é o núcleo fértil da depressão. Esse adoecimento não reflete apenas uma falha neuroquímica individual, mas sim uma resposta psíquica compreensível a um tecido social adoecido, onde a perda do sentido de futuro coletivo se traduz em uma dor profunda, paralisante e solitária.
Vivemos sob uma lógica de polarização digital e intransigência que atua como um gatilho constante de estresse. O cérebro humano não foi programado para a hipervigilância, mas fomos condicionados a um estado permanente de defesa, onde o outro não é apenas alguém que pensa diferente, mas um inimigo a ser combatido.
Essa dinâmica destrutiva é alimentada por algoritmos que lucram com a nossa indignação e pela disseminação em massa de desinformação. O resultado é o isolamento em bolhas e a fratura de vínculos afetivos importantes.
Quando o debate público perde a empatia, o indivíduo perde suas redes de apoio fundamentais como as amizades, os laços familiares e o senso de comunidade. O que sobra é o desamparo, a exaustão emocional e uma profunda falta de perspectiva de futuro, que afeta drasticamente a saúde mental de jovens e adultos, não excluindo as crianças que não ficam isentas deste impacto.
O desdobramento mais trágico desse cenário de hostilidade crônica e desgaste dos laços sociais reflete-se em um indicador epidemiológico avassalador: o aumento consistente nos índices de suicídio. No Brasil, onde os registros oficiais já ultrapassam a marca de 16 mil óbitos por ano, a ausência de uma rede de apoio sólida e o sentimento de desamparo social funcionam como catalisadores.
O suicídio é um fenômeno complexo, e este prolifera-se quando o indivíduo, esmagado pela violência psicológica da atmosfera sombria que paira sobre todos e pela desesperança institucional, perdendo a percepção de pertencimento e o suporte comunitário. Quando a arena pública substitui o acolhimento pelo linchamento virtual e afetivo, bloqueamos as portas de saída do sofrimento agudo, transformando crises individuais em tragédias coletivas silenciosas.
Diante desse cenário, a resposta não pode ser puramente individual. Não basta prescrever medicamentos ou sugerir que as pessoas “se desconectem”. O sofrimento gerado por um ambiente político tóxico exige respostas coletivas e institucionais.
A saúde mental precisa ser encarada como uma política de Estado transversal. Precisamos fortalecer de forma urgente a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e garantir que as ações de acolhimento cheguem aos territórios mais vulneráveis, integrando saúde, educação, cultura e o combate ativo aos discursos de ódio e o aumento da violência.
Cuidar da mente coletiva não é um luxo, é uma condição para a própria sobrevivência da nossa democracia e dos seres humanos. Precisamos urgentemente desarmar os espíritos e resgatar espaços de diálogo saudável.
Como sociedade, o nosso maior desafio é compreender que a reconstrução da nossa saúde mental coletiva passa, obrigatoriamente, pelo resgate da nossa capacidade de alteridade, afeto e humanidade. Ou seja, a capacidade de reconhecer, respeitar e compreender o outro como um ser único, com ideias, valores e culturas diferentes dos seus, lembrando que por trás de cada divergência ideológica existe um indivíduo que também adoece e precisa de amparo e ainda reconhecer que uma democracia não sobrevive sobre mentes exaustas e adoecidas pelo medo.
As trincheiras ideológicas que cavamos no debate público estão se transformando nos abismos emocionais da nossa sociedade. Proteger a saúde mental da população não é uma pauta secundária, mas o alicerce fundamental para que possamos, juntos, projetar qualquer futuro possível e principalmente saudável. O cuidado com a mente coletiva é a única ponte que nos resta para evitar que o amanhã seja ainda mais doloroso.
*Myrella Mendonça Brasil é psicóloga (CRP 09/18826). Especialista em Neurociências, Neuropsicologia e Psicologia Analítica. Atua também como escritora, pesquisadora e palestrante, dedicando-se à compreensão dos impactos do ambiente social na saúde mental contemporânea. (@myrellabrasil.psi)
