Quando se fala em transplante capilar, é comum que a atenção se concentre em uma pergunta: quantos fios serão transplantados? A quantidade, porém, está longe de ser o único ou o principal indicador de um bom resultado. Um transplante capilar bem planejado exige conhecimento técnico, estratégia e, sobretudo, respeito aos limites de cada paciente.
É perfeitamente possível colocar milhares de fios em uma cabeça e, ainda assim, produzir um resultado artificial ou insatisfatório. Na linha frontal, por exemplo, não basta implantar unidades foliculares em grande quantidade. É preciso considerar ângulo, direção, distribuição e densidade. A maneira como os fios são posicionados é determinante para reproduzir a aparência natural do cabelo.
Na minha visão, existe ainda uma questão que deveria ocupar posição central em qualquer planejamento: a segurança da área doadora. Essa região não é uma fonte inesgotável de fios. Ela é um patrimônio limitado do paciente, que precisa ser preservado não apenas para o procedimento atual, mas também para as necessidades que poderão surgir no futuro.
É justamente nesse ponto que a busca exagerada por densidade pode se transformar em um problema. Não é vantagem alcançar uma região frontal extremamente preenchida se, para isso, a área doadora tenha que ficar comprometida, com aparência rala ou com cicatrizes. Um resultado imediato não pode ser construído à custa das possibilidades futuras do paciente.
Depois de mais de dez anos de experiência exclusivamente com tratamentos capilares e mais de 4,2 mil transplantes realizados, mantenho a convicção de que não podemos tratar o presente criando um problema futuro. O planejamento precisa considerar não apenas o que é possível fazer hoje, mas também aquilo que será necessário preservar para amanhã.
Transplante capilar não é uma corrida por números. Não se trata de colocar o maior número possível de fios, mas de utilizar de maneira inteligente um recurso, porque eles são limitados. Densidade, naturalidade e segurança precisam caminhar juntas.
No fim, um bom transplante é aquele que respeita a anatomia, reproduz a naturalidade e preserva o futuro, e não aquele em que se coloca mais fios. Porque, quando falamos de cabelo, quantidade pode impressionar no início, mas é o equilíbrio que determina a qualidade do resultado.
*Domingos Coelho é cirurgião-dermatologista membro da Associação Brasileira de Cirurgia da Restauração Capilar (ABCRC).
