Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – A história de Goiás está sendo recontada pelos historiadores: não começou há 300 anos, com a chegada do colonizador mameluco. Os povos originários habitam a região de Goiás há pelo menos 13 mil anos. A afirmação do historiador Nilson Gomes Jaime, presidente da Sociedade Goiana de História da Agricultura, ao falar na comemoração dos 90 anos do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, no dia 7 deste mês, integra a apresentação do Projeto “Goiás +300, Reflexão e Ressignificação”, que elaborou em conjunto com o também historiador Jales Guedes Coelho Mendonça, presidente do IHGG. Ambos são coordenadores da iniciativa.
Nilson Gomes Jaime e Jales Guedes Coelho Mendonça (Fotos: Jacira Rosa Pires e Fátima Paraguassu)
O IHGG e a incipiente SGHA conceberam o projeto, que deverá se estender deste ano a 2026, como um chamamento à reflexão e à ressignificação da história goiana, desde seus primórdios até a atualidade. “Não há que se comemorar o início da colonização mameluca, já que os conflitos advindos do processo colonizador fundamentaram-se no apresamento, no exílio e na escravidão dos povos originários deste território”, explicaram.
Há que se registrar – enfatizaram – o impacto e o legado desse encontro de culturas, além dos mamelucos paulistas e europeus, que, juntos, originaram o povo goiano do presente, incluindo os remanescentes indígenas, quilombolas e afro-americanos. Esses impactos incluem ainda a expansão territorial dos domínios de Portugal para Oeste da Linha de Tordesilhas, e as consequências econômicas, ambientais e culturais que trouxeram para a região. “O papel do historiador é trazer à luz os fatos históricos e deles tirar conclusões científicas, de modo a produzir sua ressignificação e prevenir males já identificados”, completaram.
Correção histórica
O Projeto não tem o viés negativo – frisaram – de comemorar o genocídio sabido dos povos originários no território goiano, nem a substituição da cultura dessas etnias, e tampouco se acomodará em patrocinar o negacionismo raso, ou o mero revanchismo histórico. Os autores pretendem chamar ao debate historiadores, geógrafos, geólogos, agrônomos, veterinários, biólogos, antropólogos, educadores, literatos, jornalistas, engenheiros, arquitetos, advogados, médicos, artistas, escritores e profissionais de todas as áreas do conhecimento, além de instituições representantes das comunidades indígenas e afrodescendentes, das mulheres e das minorias. “O Projeto não é um jubileu laudatório aos bandeirantes; antes, é um chamado à correção histórica, que visa à evidenciação de valores dos povos colonizados, de etnias diversas que habitavam o território do índio Goiá naqueles dias, muitas delas ainda resilientes em Goiás e no Tocantins”.
Para os coordenadores do “Goiás +300” “retirar ou erigir monumentos de bronze não restituirá a pureza perdida, nem apagará a história vivida. Nossos ancestrais indígenas, africanos e mamelucos devem ser reverenciados pelo que nos legaram, toda vez que nos assentamos para uma fausta refeição com frutos e ingredientes silvícolas; quando esclarecemos aos nossos filhos que o peixe à mesa é piramutada ou piraíba; quando bebemos suco de caju ou de pitanga; quando sorvemos o creme de açaí ou do cupuaçu; quando brindamos nosso paladar com o doce ploque da jabuticaba e nostalgia de infância; quando raspamos com os dentes a polpa de pequi, evitando morder o caroço, por motivos dolorosos que aprendemos desde tenra idade; quando chegamos em casa e tiramos os sapatos para o reconfortante descarregar de íons da peleja cotidiana, e nos conectamos à mãe-Terra; quando nos entregamos ao relaxante banho diário que aprendemos com nossas eneavós, cunhãs de diversas tribos", conforme ensina Gilberto Freire em “Casa Grande e Senzala”.
Pesquisadores indígenas, quilombolas e estudiosos das questões autóctones – esclareceram – foram chamados a colaborar com o Projeto e a publicarem suas cosmovisões, seus protestos e suas formas de resistência e vitórias.
Ressignificar origens
O “Goiás + 300” pretende ressignificar “nossas origens ao som do afro-samba e do berimbau de Baden Powell, do potente violão e na religiosidade benguela de Dorival Caymmi; na goianidade no “Manakereki”, de Wanda e Adalto; no “Araguaia”, de Rinaldo Barra; no “Frutos da Terra”, de Genésio Tocantins e Hamilton Carneiro; na “Saudade Brejeira”, do maestro José Eduardo e Nasr Chaul; na “Vila Operária”, de Antônio Siqueira e Renato Castelo; no “Rio Vermelho”, de Manoel Amorim; nas “Noites Goianas”, dos Joaquins – o Bonifácio e o Santana; na “Cantiga Boa”, de Itamar Correia; nas Cavalhadas, nas folias de Reis e do Divino (“Nós fiéis”) com Gustavo Veiga e Carlos Brandão; no Fogaréu; em “Goiás – sempre no coração”, com João Caetano e Nasr Chaul; nas Congadas catalanas; nas serestas com Marcelo Barra, e no “Fado de Vila Boa”, de Pádua e Chaul; no “Pantanalto”, com Luiz Augusto e Mustafé, “até o rio Coxim”, ou até “O outro lado da lua”, com Fernando Perillo e historiador Chaul.
Em todos esses sons – acrescentaram – o violão onipresente e a guitarra de Luiz Chaffin, o baixo de Bororó, de Marcelo Maia, a bateria de Sérgio Pato e Moka, as vozes marcantes de Maria Eugênia, de Débora Di Sá, de Larissa Moura, de Cláudia Vieira, e todas as Flores de Goiá. “Ressignificar Goiás no Fogaréu, das Pastorinhas, das catiras, das folias de Reis e do Divino; das bandas Euterpe, Phoenix e no Concerto dos sapos. Ressignificar Goiás nos atabaques e nos zabumbas, no pandeiro e no chocalho. No pequi e no quibebe de mandioca, herança das mães América e África no mesmo prato”.
Produção
Iniciado no dia 1º de fevereiro deste ano, o Projeto vai publicar, até 2026, 20 livros de história, sendo que seis, na primeira fase, já em execução, estão sendo elaborados. No total contará com cerca de 400 autores.
Além dos livros, realizou um concerto, sob os auspícios da Orquestra Sinfônica de Goiás, e planeja exposições de arte e fotografia, além de 30 colóquios temáticos, on-line ou presenciais, envolvendo cerca de 90 pesquisadores.