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Décio Luiz Gazzoni (Foto: reprodução)

Produtividade total dos fatores na agricultura brasileira

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30.07.2026 - 10:01:13

Em julho de 2026 o Banco Interamericano de Desenvolvimento publicou um documento analisando a série histórica dos Censos Agropecuários realizados pelo IBGE em 1985, 1996, 2006 e 2017, cobrindo milhares de municípios brasileiros e permitindo uma análise detalhada das diferenças regionais de desempenho ao longo do tempo. As perguntas motivadoras do estudo foram diretas: 1) o campo brasileiro ficou mais eficiente ao longo desse período? 2) se ficou, o que explica esse avanço — e o que pode freá-lo no futuro?

O presente artigo analisa o documento do BID, o qual destaca que o Brasil é um dos quatro maiores produtores e exportadores agrícolas do planeta. Arroz, soja, milho, carne bovina, frango, açúcar, café — o país alimenta não apenas seus mais de 200 milhões de habitantes, mas também uma parcela expressiva da população mundial. Segundo a FAO, o Brasil responde por cerca de 10% das exportações globais de alimentos, e as projeções indicam que essa participação poderia crescer ainda mais nas próximas décadas, à medida que a demanda mundial por proteínas animais e biocombustíveis se expande.

Entrementes, ressalva que, manter esse desempenho ao longo do tempo não é algo que acontece automaticamente: exige que a agricultura produza cada vez mais sem necessariamente precisar de mais terra, mais água ou mais mão de obra. É exatamente isso que os especialistas chamam de crescimento da produtividade, que foi o tema do estudo. Que se traduz em competitividade, rentabilidade e sustentabilidade. O estudo publicado pelo BID analisou o que aconteceu com a produtividade da agricultura brasileira entre 1985 e 2017 — um período de três décadas que abrange a redemocratização do país, a abertura econômica, a consolidação do agronegócio no Cerrado e as primeiras evidências mais contundentes do aquecimento global sobre os campos cultivados.

Primeira pergunta

A resposta à primeira pergunta acima é um categórico “sim”, e de forma expressiva. A chamada produtividade total dos fatores — medida que os economistas usam para avaliar o quanto a agricultura consegue produzir para cada unidade de recursos empregados, incluindo terra, trabalho, capital e insumos agrícolas — cresceu a uma taxa geométrica média de 1,56% ao ano no período analisado. Esse número pode parecer modesto à primeira vista, mas seu efeito acumulado ao longo de três décadas é poderoso: esse aumento de eficiência foi responsável por nada menos que 60% de todo o crescimento da produção agrícola do Brasil entre 1985 e 2017.

Em termos práticos, isso significa que a maior parte do avanço no campo não veio de derrubar mais mata para plantar, e sim de plantar com mais inteligência, tecnologia e eficiência — uma distinção fundamental do ponto de vista ambiental e um resultado notável para qualquer padrão internacional de comparação. Esse resultado coloca o Brasil entre os países com maior crescimento de produtividade agrícola no mundo no período, ao lado de China e Índia, e muito acima da média dos países desenvolvidos como Estados Unidos e membros da União Europeia, onde a produtividade já era elevada e cresceu em ritmo mais lento.

Os responsáveis pelos ganhos de produtividade

O estudo identificou com precisão os principais motores desse ganho de eficiência. O fator de maior impacto positivo foi o investimento público em pesquisa e desenvolvimento agrícola, com destaque para o papel histórico da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e das universidades federais e estaduais. Desde sua criação na década de 1970, a Embrapa acumulou conquistas científicas voltadas para a agricultura tropical que se tornaram referências mundiais. A domesticação do Cerrado para a produção de grãos — façanha considerada impossível por muitos especialistas internacionais até a década de 1970 — foi em grande medida viabilizada pela pesquisa que desenvolveu variedades de soja capazes de crescer em solos ácidos de baixa fertilidade, pela técnica da calagem para correção do pH do solo, permitindo fertilizá-los e cultivá-los.

Tecnologias como o plantio direto na palha — que preserva a umidade do solo, reduz a erosão e sequestra carbono —, o controle biológico de pragas, o uso de bactérias fixadoras de nitrogênio – que reduzem a necessidade de fertilizantes sintéticos -, e a agricultura de precisão baseada em sensoriamento remoto e inteligência artificial foram frutos diretos desse esforço científico. Vale lembrar que a fixação biológica de nitrogênio pela soja brasileira — resultado direto da pesquisa da Embrapa com rizóbios — economiza ao país mais de R$ 30 bilhões por ano em fertilizantes nitrogenados importados, ao mesmo tempo em que reduz a emissão de gases de efeito estufa associada à produção e ao uso desses insumos.

O estudo refere que o impacto dessas inovações foi enorme: permitiram aumentar rendimentos, reduzir custos, diminuir perdas por pragas e doenças e até expandir o número de safras colhidas por ano na mesma área — sendo o sistema de safrinha de milho após a soja um dos exemplos mais expressivos. Não por acaso, vários países da África e da Ásia têm buscado parcerias com instituições brasileiras para replicar o modelo de adaptação da agricultura ao Cerrado em seus próprios trópicos — um reconhecimento internacional da solidez do modelo científico construído no Brasil ao longo de décadas.

O nível de escolaridade dos agricultores também se mostrou fator relevante. Produtores com mais educação formal são mais capazes de interpretar resultados de análise de solo, usar aplicativos de gestão da propriedade e acessar informações técnicas de extensão rural. A escolaridade funciona como multiplicador da eficácia das tecnologias disponíveis: quanto mais educado o produtor, maior o aproveitamento das inovações ao seu alcance. Esse achado reforça a importância de políticas de educação rural como componente estratégico do desenvolvimento agrícola de longo prazo.

O aumento poderia ter sido maior

Os resultados do estudo apontam que o clima, por outro lado, atuou como freio sistemático sobre a produtividade. O estudo utilizou dados de temperaturas acumuladas durante o ciclo de crescimento das culturas — métrica conhecida como graus-dia de crescimento — para medir o efeito das condições climáticas sobre a eficiência agrícola. Os resultados mostraram que as mudanças climáticas ao longo das décadas — especialmente o aumento das temperaturas médias e as alterações nos padrões de precipitação — reduziram a produtividade agrícola de forma estatisticamente significativa. Em outras palavras, não fossem as adversidades climáticas já observadas no período, a produtividade teria crescido ainda mais do que os 1,56% anuais registrados.

A péssima notícia: esse efeito negativo tende a se intensificar nas próximas décadas. Modelos climáticos indicam que o Brasil poderá enfrentar aumento de temperatura de 2 a 4º C até o final do século, com impactos severos sobre a disponibilidade hídrica nas regiões produtoras e sobre os ciclos vegetativos das principais culturas. O estudo do BID representa, portanto, um sinal de alerta: a tendência histórica de crescimento da produtividade pode ser revertida ou desacelerada se não houver investimentos suficientes em adaptação — seja por novas variedades tolerantes ao calor e à seca, expansão da irrigação, manejo de solo e das culturas, incluindo ajustes nos calendários de plantio. Ou seja, no futuro, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico serão ainda mais importantes do que foram no passado.

Um dos achados mais reveladores e politicamente relevantes do estudo diz respeito à distribuição desigual dos ganhos dentro do próprio Brasil. O crescimento da produtividade foi muito mais intenso no Cerrado, onde predominam grandes propriedades mecanizadas especializadas em culturas anuais de exportação, como soja e milho. Nessa região, a combinação de tecnologia avançada, escala de produção, infraestrutura logística e acesso a crédito e mercados internacionais criou um ciclo virtuoso de ganhos crescentes de eficiência.

No polo oposto encontra-se a Caatinga — o semiárido nordestino, domínio de pequenas e médias propriedades voltadas para o autoconsumo e culturas como feijão, mandioca e pecuária extensiva. Nessa região, o crescimento da produtividade foi substancialmente menor, e os impactos negativos das mudanças climáticas se fizeram sentir com especial intensidade, dada a vulnerabilidade hídrica estrutural da região e os riscos crescentes de desertificação que ameaçam a base produtiva de milhões de agricultores familiares.

Desigualdades

Mais preocupante ainda é o dado sobre os municípios que ficaram para trás. O estudo revelou que cerca de um terço dos municípios brasileiros não apenas cresceu menos que a média nacional, mas registrou queda absoluta na produção e na produtividade ao longo das três décadas. Ao mesmo tempo, a produção se concentrou num número cada vez menor de municípios — os chamados polos agrícolas —, que tenderam a se especializar em commodities exportáveis de alta eficiência e a capturar os maiores benefícios dos ganhos tecnológicos. Esse processo de concentração geográfica assume dimensões acentuadas no Brasil, dadas as disparidades históricas de acesso à infraestrutura, ao crédito e ao conhecimento técnico.

O quadro resultante é o de uma agricultura dual: de um lado, um setor exportador de alta eficiência inserido nas cadeias globais de valor; de outro, uma agricultura de menor escala e tecnologia, vulnerável a choques climáticos e de mercado, com produtores que não acessaram plenamente os benefícios da revolução tecnológica das últimas décadas.

Conclusões

As conclusões do estudo são claras quanto ao papel insubstituível das políticas públicas. Em primeiro lugar, é essencial manter e ampliar os investimentos em pesquisa agropecuária — não apenas para sustentar os ganhos de produtividade já alcançados, mas para desenvolver soluções que permitam ao campo se adaptar às crescentes adversidades climáticas, ao tempo em que as mitiga. Cortes de investimento em instituições como a Embrapa representam um risco que paira sobre o futuro da agropecuária, por extensão do Brasil.

Em segundo lugar, é necessário reduzir a desigualdade regional, garantindo que os ganhos de eficiência se distribuam de forma mais justa pelo território — por meio de extensão rural, educação do campo, crédito diferenciado e infraestrutura logística. Por fim, ignorar as mudanças climáticas nas estratégias de desenvolvimento agrícola seria um erro de consequências duradouras: o clima exige resposta coordenada do Estado, da ciência e do setor privado para que o Brasil continue alimentando o mundo com eficiência e sustentabilidade nas próximas décadas.

*Décio Luiz Gazzoni é engenheiro agrônomo, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica.

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por Décio Luiz Gazzoni

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